Miopatia fibrótica do grácil e semitendinoso em cães: marcha típica e tratamento
- Felipe Garofallo

- há 3 dias
- 4 min de leitura
A miopatia fibrótica é uma substituição progressiva de músculo por tecido conjuntivo denso que afeta principalmente grácil, semitendinoso e, em alguns cães, semimembranoso. Esses músculos ocupam a face caudomedial da coxa e participam da extensão do quadril, flexão do joelho e controle do membro no balanço. Quando encurtam, puxam joelho, jarrete e pé para uma trajetória anormal.

O problema é descrito com frequência em Pastores Alemães e outros cães de trabalho submetidos a aceleração, salto e mudanças de direção. Microtraumas repetidos, estiramento agudo, inflamação e predisposição individual podem iniciar um ciclo de reparo desorganizado, mas a causa permanece incerta em muitos pacientes. A fibrose madura perde elasticidade e não responde como uma contratura simples após repouso.
A marcha é marcante: a passada do membro afetado fica curta e, no final do balanço, a pata gira rapidamente para dentro enquanto o calcâneo se desloca para fora. O movimento parece elástico e abrupto, podendo ser mais fácil de ver em trote lento e em filmagem frontal ou posterior. A dor costuma ser pequena na fase crônica, apesar de uma claudicação de pata traseira persistente.
No exame, uma faixa firme e pouco móvel pode ser palpada na face medial ou caudal da coxa, e a extensão combinada de quadril e joelho revela encurtamento. A circunferência do membro pode diminuir por atrofia, enquanto a amplitude do quadril, joelho e tarso deve ser medida separadamente. O exame neurológico é necessário para excluir déficit proprioceptivo, neuropatia ciática e doença lombossacra.
Os diferenciais incluem lesão do ligamento cruzado cranial, doença meniscal, displasia coxofemoral, lesão do iliopsoas, neuropatia periférica e miopatias inflamatórias. Uma lesão óssea por sobrecarga também pode provocar passo curto, como ocorre em fraturas por estresse de cães atletas. A localização do movimento anormal no balanço, associada à faixa muscular firme, ajuda a priorizar a miopatia fibrótica.
A ultrassonografia mostra perda da arquitetura fibrilar, ecogenicidade aumentada e aderências, além de orientar coleta quando necessária. A ressonância magnética define quais músculos estão envolvidos e separa tecido ativo de fibrose extensa; a eletromiografia ajuda a avaliar desnervação ou atividade muscular anormal. Biópsia revela substituição de miofibras por colágeno e é mais útil quando apresentação e imagem não são típicas.
Na fase inflamatória precoce, repouso relativo, analgesia, reabilitação e controle de sobrecarga podem limitar dor, mas não existe garantia de impedir a fibrose. Alongamento forçado ou massagem profunda durante lesão ativa pode piorar microdano. O plano deve ser ajustado ao trabalho do cão, à presença de dor e à evolução medida, não apenas à aparência da marcha.
Em contratura madura, transecção ou ressecção parcial do músculo pode melhorar a passada inicialmente ao liberar a restrição mecânica. Estudos clínicos mostram, porém, recidiva frequente em semanas ou meses, porque nova cicatrização fibrosa reproduz o encurtamento. Essa limitação precisa ser discutida antes de cirurgia, especialmente quando o objetivo é retorno a trabalho de alta demanda.
Reabilitação estruturada, terapia por ondas de choque em protocolos selecionados e condicionamento gradual têm sido empregados para melhorar conforto e função. A evidência ainda é baseada em séries pequenas, e resposta individual não autoriza prometer cura. O foco prático é manter força, mobilidade das articulações adjacentes, peso adequado e atividade compatível com o membro.
Analgésicos devem ser escolhidos conforme dor real e saúde sistêmica, pois a alteração biomecânica sem inflamação ativa pode responder pouco ao aumento de medicação. Anti-inflamatórios humanos, corticoide e suplementos não devem ser combinados sem supervisão. Dor nova ao toque, perda súbita de apoio ou edema exigem reavaliação para uma segunda lesão, como explicado em dor ao tocar a pata.
O prognóstico para qualidade de vida pode ser razoável quando a doença é unilateral, pouco dolorosa e a atividade é adaptada. O prognóstico para marcha perfeitamente normal ou retorno sustentável ao trabalho intenso é mais cauteloso, principalmente após recidiva. Compensações em coluna, quadril e membro oposto merecem monitoramento para não transformar uma limitação focal em dor multifocal.
Vídeos seriados, medidas de amplitude e avaliação objetiva do apoio ajudam a distinguir estabilidade de progressão. A decisão entre manejo conservador, cirurgia e redução de atividade deve considerar função desejada, desconforto, extensão da fibrose e possibilidade de recidiva. Com expectativas realistas, muitos cães permanecem ativos e confortáveis mesmo sem normalização completa da passada.
Quando o cão trabalha, compete ou patrulha, a análise funcional deve incluir curvas, desaceleração e fadiga somente depois que a atividade básica estiver segura. A marcha pode parecer aceitável em linha reta e ainda falhar durante mudanças rápidas de direção. Plataformas de força e análise cinemática, quando disponíveis, oferecem medidas mais sensíveis do que observação isolada.
Prevenção concentra-se em condicionamento progressivo, aquecimento, recuperação e investigação rápida de uma passada alterada. Não há técnica capaz de eliminar predisposição individual nem reverter fibrose madura apenas com alongamento. Reconhecer a doença cedo permite reduzir estímulos repetitivos enquanto ainda existe tecido muscular funcional.
Referências bibliográficas
Lewis DD, Shelton GD, Piras A, et al. Gracilis or semitendinosus myopathy in 18 dogs. Journal of the American Animal Hospital Association. 1997;33(2):177-188. doi:10.5326/15473317-33-2-177.
Tsai FC, Alvarez LX. Outcome of eight working dogs with fibrotic myopathy following extracorporeal shockwave and rehabilitation therapy: a case series. Frontiers in Veterinary Science. 2023;10:1258319. doi:10.3389/fvets.2023.1258319.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.