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Miopatia fibrótica do grácil e semitendinoso em cães: marcha típica e tratamento

19 de ago.
4 min de leitura

A miopatia fibrótica é uma substituição progressiva de músculo por tecido conjuntivo denso que afeta principalmente grácil, semitendinoso e, em alguns cães, semimembranoso. Esses músculos ocupam a face caudomedial da coxa e participam da extensão do quadril, flexão do joelho e controle do membro no balanço. Quando encurtam, puxam joelho, jarrete e pé para uma trajetória anormal.


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O problema é descrito com frequência em Pastores Alemães e outros cães de trabalho submetidos a aceleração, salto e mudanças de direção. Microtraumas repetidos, estiramento agudo, inflamação e predisposição individual podem iniciar um ciclo de reparo desorganizado, mas a causa permanece incerta em muitos pacientes. A fibrose madura perde elasticidade e não responde como uma contratura simples após repouso.

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A marcha é marcante: a passada do membro afetado fica curta e, no final do balanço, a pata gira rapidamente para dentro enquanto o calcâneo se desloca para fora. O movimento parece elástico e abrupto, podendo ser mais fácil de ver em trote lento e em filmagem frontal ou posterior. A dor costuma ser pequena na fase crônica, apesar de uma claudicação de pata traseira persistente.

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No exame, uma faixa firme e pouco móvel pode ser palpada na face medial ou caudal da coxa, e a extensão combinada de quadril e joelho revela encurtamento. A circunferência do membro pode diminuir por atrofia, enquanto a amplitude do quadril, joelho e tarso deve ser medida separadamente. O exame neurológico é necessário para excluir déficit proprioceptivo, neuropatia ciática e doença lombossacra.

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Os diferenciais incluem lesão do ligamento cruzado cranial, doença meniscal, displasia coxofemoral, lesão do iliopsoas, neuropatia periférica e miopatias inflamatórias. Uma lesão óssea por sobrecarga também pode provocar passo curto, como ocorre em fraturas por estresse de cães atletas. A localização do movimento anormal no balanço, associada à faixa muscular firme, ajuda a priorizar a miopatia fibrótica.

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A ultrassonografia mostra perda da arquitetura fibrilar, ecogenicidade aumentada e aderências, além de orientar coleta quando necessária. A ressonância magnética define quais músculos estão envolvidos e separa tecido ativo de fibrose extensa; a eletromiografia ajuda a avaliar desnervação ou atividade muscular anormal. Biópsia revela substituição de miofibras por colágeno e é mais útil quando apresentação e imagem não são típicas.

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Na fase inflamatória precoce, repouso relativo, analgesia, reabilitação e controle de sobrecarga podem limitar dor, mas não existe garantia de impedir a fibrose. Alongamento forçado ou massagem profunda durante lesão ativa pode piorar microdano. O plano deve ser ajustado ao trabalho do cão, à presença de dor e à evolução medida, não apenas à aparência da marcha.

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Em contratura madura, transecção ou ressecção parcial do músculo pode melhorar a passada inicialmente ao liberar a restrição mecânica. Estudos clínicos mostram, porém, recidiva frequente em semanas ou meses, porque nova cicatrização fibrosa reproduz o encurtamento. Essa limitação precisa ser discutida antes de cirurgia, especialmente quando o objetivo é retorno a trabalho de alta demanda.

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Reabilitação estruturada, terapia por ondas de choque em protocolos selecionados e condicionamento gradual têm sido empregados para melhorar conforto e função. A evidência ainda é baseada em séries pequenas, e resposta individual não autoriza prometer cura. O foco prático é manter força, mobilidade das articulações adjacentes, peso adequado e atividade compatível com o membro.

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Analgésicos devem ser escolhidos conforme dor real e saúde sistêmica, pois a alteração biomecânica sem inflamação ativa pode responder pouco ao aumento de medicação. Anti-inflamatórios humanos, corticoide e suplementos não devem ser combinados sem supervisão. Dor nova ao toque, perda súbita de apoio ou edema exigem reavaliação para uma segunda lesão, como explicado em dor ao tocar a pata.

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O prognóstico para qualidade de vida pode ser razoável quando a doença é unilateral, pouco dolorosa e a atividade é adaptada. O prognóstico para marcha perfeitamente normal ou retorno sustentável ao trabalho intenso é mais cauteloso, principalmente após recidiva. Compensações em coluna, quadril e membro oposto merecem monitoramento para não transformar uma limitação focal em dor multifocal.

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Vídeos seriados, medidas de amplitude e avaliação objetiva do apoio ajudam a distinguir estabilidade de progressão. A decisão entre manejo conservador, cirurgia e redução de atividade deve considerar função desejada, desconforto, extensão da fibrose e possibilidade de recidiva. Com expectativas realistas, muitos cães permanecem ativos e confortáveis mesmo sem normalização completa da passada.

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Quando o cão trabalha, compete ou patrulha, a análise funcional deve incluir curvas, desaceleração e fadiga somente depois que a atividade básica estiver segura. A marcha pode parecer aceitável em linha reta e ainda falhar durante mudanças rápidas de direção. Plataformas de força e análise cinemática, quando disponíveis, oferecem medidas mais sensíveis do que observação isolada.

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Prevenção concentra-se em condicionamento progressivo, aquecimento, recuperação e investigação rápida de uma passada alterada. Não há técnica capaz de eliminar predisposição individual nem reverter fibrose madura apenas com alongamento. Reconhecer a doença cedo permite reduzir estímulos repetitivos enquanto ainda existe tecido muscular funcional.

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Referências bibliográficas


Lewis DD, Shelton GD, Piras A, et al. Gracilis or semitendinosus myopathy in 18 dogs. Journal of the American Animal Hospital Association. 1997;33(2):177-188. doi:10.5326/15473317-33-2-177.

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Tsai FC, Alvarez LX. Outcome of eight working dogs with fibrotic myopathy following extracorporeal shockwave and rehabilitation therapy: a case series. Frontiers in Veterinary Science. 2023;10:1258319. doi:10.3389/fvets.2023.1258319.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


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