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Cachorro evitando escadas: quando pode ser dor ortopédica ou problema neurológico?

Quando um cachorro começa a evitar escadas, muita gente pensa primeiro em medo, dor ou envelhecimento.



Em alguns casos isso realmente pode acontecer, mas, na prática clínica, esse comportamento merece atenção porque subir e descer degraus exige força, equilíbrio, coordenação, flexão das articulações e estabilidade da coluna.


Quando qualquer uma dessas estruturas dói ou não funciona bem, o cão tende a adaptar a rotina antes mesmo de começar a mancar de forma evidente.


O sinal pode aparecer de maneira discreta. O cachorro para no início da escada, olha para o tutor, sobe mais devagar, desce com o corpo travado ou começa a esperar ajuda para chegar a lugares que antes acessava sozinho.


Alguns cães continuam andando normalmente no plano, mas recusam degraus, sofá, cama ou carro. Essa diferença acontece porque os movimentos de subida e descida aumentam a carga sobre joelhos, quadris, ombros, cotovelos e coluna.


Entre as causas ortopédicas, eu considero artrose, displasia coxofemoral, luxação de patela, dor no joelho por lesão ligamentar, alterações no cotovelo e sequelas de traumas antigos.


Em cães idosos, a osteoartrite é uma das causas mais frequentes. Ela pode provocar rigidez após repouso, perda de musculatura, redução da disposição e dificuldade progressiva para realizar movimentos que antes eram simples. Em cães jovens, especialmente de raças predispostas, alterações do desenvolvimento articular também podem gerar desconforto cedo.


Também existe a possibilidade de origem neurológica. Problemas na coluna, compressões medulares, hérnias de disco, alterações nos nervos periféricos e doenças que afetam a coordenação podem fazer o cão hesitar diante de escadas.


Nesses casos, além da recusa em subir ou descer, podem aparecer tropeços, arrastar unhas, cruzar as patas traseiras, perda de equilíbrio, fraqueza ou andar “como bêbado”. Esses sinais não devem ser interpretados como simples preguiça.


Um erro comum é esperar a mancada ficar intensa para procurar avaliação. O problema é que muitos cães compensam muito bem a dor por semanas ou meses. Eles reduzem a atividade, escolhem trajetos mais fáceis, evitam brincadeiras e mudam a postura sem demonstrar sofrimento de forma óbvia. Por isso, quando o tutor percebe que o animal mudou a relação com escadas, carros ou móveis, já pode existir uma condição em evolução.


O diagnóstico começa com uma boa conversa sobre a rotina e com exame físico detalhado. Eu observo a marcha, a postura, a distribuição de peso, a musculatura e a resposta à palpação das articulações e da coluna.


Em muitos casos, radiografias ajudam a avaliar quadris, joelhos, cotovelos, ombros e coluna. Quando há suspeita neurológica, exames específicos podem ser necessários, incluindo avaliação neurológica completa e, em situações selecionadas, tomografia ou ressonância.


O tratamento depende da causa. Em quadros ortopédicos, pode envolver controle de peso, adequação da atividade física, fisioterapia, fortalecimento muscular, mudanças no ambiente, medicamentos analgésicos ou anti-inflamatórios e, em alguns casos, cirurgia.


Medicamentos como anti-inflamatórios, analgésicos, gabapentina ou outros fármacos só devem ser usados após avaliação do médico-veterinário, porque a automedicação pode colocar o animal em risco, especialmente quando há doença renal, hepática, gastrointestinal ou uso de outros remédios.


Em casa, algumas medidas podem ajudar enquanto a investigação é feita, como evitar pisos escorregadios, reduzir saltos, usar rampas com inclinação adequada e impedir que o cão force escadas repetidamente. Mas essas adaptações não substituem o diagnóstico. Forçar exercício para “fortalecer” sem saber a origem do problema pode piorar lesões articulares, musculares ou neurológicas.


Quando um cachorro evita escadas de forma recente, progressiva ou associada a dor, tropeços, rigidez, choro ao levantar ou dificuldade para apoiar uma pata, recomendo avaliação especializada.


Quanto mais cedo a causa é identificada, maiores são as chances de controlar a dor, preservar mobilidade e evitar que uma alteração silenciosa se transforme em limitação importante. Se observar esses sinais, agende uma consulta comigo, Dr. Felipe Garofallo, para investigar a origem da dificuldade e definir o caminho mais seguro.


Referências bibliográficas


Epstein, M. E.; Rodan, I.; Griffenhagen, G.; et al. 2022 AAHA Pain Management Guidelines for Dogs and Cats. Journal of the American Animal Hospital Association, 2022.


Olby, N. J.; Moore, S. A.; Brisson, B.; et al. ACVIM consensus statement on diagnosis and management of acute canine thoracolumbar intervertebral disc extrusion. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 36, n. 5, p. 1570-1596, 2022. doi: 10.1111/jvim.16480.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


Horário: Segunda à sexta, 11h às 18h. Sábados 10:00 às 14:00
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