Deslizamento da epífise capital femoral em gatos adultos jovens
- Felipe Garofallo

- 5 de ago.
- 3 min de leitura
Atualizado: 6 de ago.
A cabeça do fêmur articula-se com o acetábulo e, em animais imaturos, liga-se ao colo femoral por uma placa de crescimento. No deslizamento da epífise capital femoral, essa união falha e a cabeça permanece no acetábulo enquanto o colo se desloca em relação a ela. O resultado é dor, perda da mecânica normal do quadril e lesão progressiva da cartilagem.

A condição é reconhecida principalmente em gatos adultos jovens, com associação descrita a machos castrados, excesso de peso e raças de grande porte como Maine Coon. A maturação tardia da placa de crescimento pode prolongar a janela de vulnerabilidade, mas nenhum fator isolado explica todos os casos. O problema não deve ser confundido automaticamente com displasia coxofemoral em gatos, que altera a congruência por outro mecanismo.
Os sinais podem começar de modo súbito após salto banal ou evoluir como claudicação intermitente e relutância para pular. Muitos gatos passam a subir em móveis por etapas, evitam escadas, ficam menos ativos ou reagem quando o quadril é tocado. Como felinos ocultam dor, mudanças de rotina podem ser mais evidentes do que uma claudicação clássica.
O exame ortopédico compara massa muscular, apoio, amplitude e dor nos dois quadris, sempre com contenção gentil. Extensão, abdução ou rotação podem ser dolorosas, porém movimentos forçados podem agravar uma separação instável e não são necessários para provar o diagnóstico. Analgesia e sedação planejadas melhoram o bem-estar e a qualidade das radiografias.
Os diferenciais incluem fratura de colo femoral, luxação coxofemoral, trauma pélvico, displasia, osteoartrose, infecção, neoplasia e dor neurológica ou lombossacra. Em gatos jovens também se consideram doenças metabólicas que enfraquecem osso e fise, sobretudo quando há outras fraturas ou dieta inadequada. Uma luxação coxofemoral traumática pode gerar postura semelhante, mas a relação entre cabeça e acetábulo nas imagens é diferente.
Radiografias da pelve e dos fêmures são fundamentais, com projeções que permitam comparar lados e avaliar a linha fisária. A linha de Klein e suas modificações, além do chamado sinal em S, ajudam a reconhecer deslocamentos discretos quando aplicados corretamente. Sedação reduz rotação e assimetria de posicionamento, que podem imitar ou esconder a lesão.
A tomografia pode esclarecer fraturas complexas, planejamento tridimensional ou alterações bilaterais duvidosas, mas não substitui uma radiografia tecnicamente adequada em todos os pacientes. Exames sanguíneos avaliam segurança anestésica e investigam doença sistêmica quando o histórico não é típico. Amostras adicionais são reservadas para suspeita de infecção, neoplasia ou distúrbio metabólico.
O manejo apenas com repouso e analgésicos raramente devolve congruência a uma epífise deslocada e pode permitir pseudoartrose dolorosa. Ele fica restrito a situações muito específicas em que cirurgia não é possível, com expectativa e monitoramento claramente discutidos. Gatos não devem receber paracetamol, ibuprofeno ou outros medicamentos humanos, pois alguns são gravemente tóxicos.
As opções cirúrgicas dependem da cronicidade, do grau de deslocamento, da viabilidade da cabeça femoral e da experiência da equipe. Em casos selecionados pode-se tentar estabilização da epífise, enquanto lesões crônicas ou não reconstruíveis frequentemente levam à excisão da cabeça e do colo femoral. A prótese total de quadril para cães e gatos é alternativa especializada em pacientes apropriados, não uma solução universal.
Após a cirurgia, o controle de dor e a prevenção de saltos são acompanhados de movimento seguro e reabilitação progressiva. Manter o gato em ambiente pequeno, com caixa sanitária de borda baixa e superfícies antiderrapantes, reduz acidentes sem impor imobilidade absoluta desnecessária. Ferida, apetite, eliminação e uso do membro precisam ser observados diariamente.
O outro quadril merece acompanhamento porque alterações bilaterais podem ser simultâneas ou surgir em momentos diferentes. Controle de peso reduz carga mecânica e facilita recuperação muscular, enquanto dietas completas evitam desequilíbrios de cálcio e fósforo. Suplementos ou restrições alimentares sem indicação podem piorar a saúde óssea.
O prognóstico para vida confortável costuma ser bom após tratamento adequado, especialmente quando a dor é reconhecida cedo e a reabilitação é consistente. O desempenho pode permanecer diferente do normal em gatos com atrofia acentuada, osteoartrose ou doença bilateral. O objetivo é recuperar mobilidade sem dor e comportamento cotidiano, incluindo a capacidade segura de subir e saltar.
BORAK, D.; WUNDERLIN, N.; BRÜCKNER, M.; SCHWARZ, G.; KLANG, A. Slipped capital femoral epiphysis in 17 Maine Coon cats. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 19, n. 1, p. 13–20, 2017. doi:10.1177/1098612X15598551.
BUTTS, D.; SMITH, A. J.; BRADLEY, K.; MEESON, R.; PARSONS, K.; LANGLEY-HOBBS, S. J. Comparison of three radiographic assessment methods for detecting slipped capital femoral epiphyses in cats: Klein’s line, modified Klein’s line and the S-sign. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 25, n. 10, 2023. doi:10.1177/1098612X231201775.