top of page

Tremor ortostático primário em cães de raças gigantes

O tremor ortostático primário é um distúrbio do movimento em que contrações rítmicas muito rápidas aparecem quando o cão sustenta o peso em estação. O tremor diminui ao caminhar, sentar, deitar ou retirar carga do membro, característica que o diferencia de muitos tremores contínuos. Dogues Alemães, Mastiffs, Wolfhounds e outras raças grandes ou gigantes são representados com frequência.


​​

A origem exata ainda não está completamente definida, mas os dados favorecem um oscilador central envolvendo redes de tronco encefálico, cerebelo e controle postural. Os músculos de vários membros disparam de forma sincronizada em frequência superior a doze hertz para manter a posição contra a gravidade. O problema não é fraqueza estrutural do osso nem tremor provocado apenas por dor.

Os tutores descrevem pernas vibrando, dificuldade para permanecer parado ao comer e alívio quando o cão começa a andar. Um som semelhante a helicóptero pode ser ouvido com estetoscópio sobre o músculo em tremor, embora esse achado não substitua eletromiografia. Ansiedade pode intensificar o sinal, e alguns cães alternam rapidamente o peso entre as patas.

O exame deve reproduzir com segurança estação, marcha, transição para sentar e retirada momentânea de carga. No tremor primário, consciência, força, reações posturais e nervos cranianos permanecem normais, e o movimento desaparece em decúbito. Tremor em repouso, déficit proprioceptivo ou dor indica outra doença ou a categoria tremor ortostático-plus.

Os diferenciais incluem tremor essencial, síndrome do tremor generalizado, neuropatia, miopatia, doença cerebelar, intoxicação, dor ortopédica e tremor secundário a doença medular. Cães que evitam ficar parados por dor podem parecer inquietos, mas não apresentam a frequência eletromiográfica típica. Dificuldade em escadas também exige separar causas ortopédicas e neurológicas, como discutido em cachorro evitando escadas.

A confirmação é feita com eletromiografia no cão consciente e sustentando peso, porque anestesia ou decúbito podem abolir o fenômeno. Descargas sinusoidais rápidas e regulares, geralmente acima de doze hertz, distinguem o quadro de tremores lentos e irregulares. Filmar simultaneamente a postura ajuda a correlacionar o traçado com o sinal observado.

Hemograma, bioquímica, eletrólitos e função tireoidiana procuram causas sistêmicas, e imagem de encéfalo ou coluna é indicada quando existem déficits, dor ou início atípico. O diagnóstico de tremor primário pressupõe ausência de outra doença neurológica explicativa. No tremor-plus, a investigação da doença concomitante é essencial porque tratar apenas o movimento deixa a causa ativa.

Gabapentina, clonazepam, levetiracetam, fenobarbital e outros moduladores já foram empregados, mas a resposta é variável e frequentemente parcial. Sedação, ataxia, tolerância e interação com outras medicações precisam ser monitoradas, sobretudo em cães gigantes. A dose nunca deve ser ajustada apenas pela impressão de um dia, porque ansiedade e tempo em estação modificam a intensidade.

Em casa, comedouros posicionados para reduzir tempo parado, tapetes antiderrapantes e pausas durante higiene ou espera podem diminuir desconforto. Caminhadas regulares e curtas são muitas vezes melhor toleradas do que permanecer imóvel, mas fadiga excessiva pode piorar controle. O tutor não deve puxar ou suspender membros sem apoio, pois um cão grande pode perder equilíbrio.

O prognóstico vital costuma ser favorável no tremor primário, porém o impacto funcional depende da frequência, do porte e da resposta ao tratamento. Alguns cães vivem confortavelmente com adaptações, enquanto outros têm dificuldade crescente para comer ou permanecer em estação. Quedas, dor nova ou tremor em repouso exigem reavaliação para doença adicional, inclusive problemas lombossacros.

Vídeos padronizados devem registrar o cão parado, caminhando e deitado, com duração suficiente para mostrar a transição. Avaliar sempre no mesmo ambiente ajuda a separar efeito do tratamento de mudanças de piso, ansiedade e tempo de apoio. Qualidade de vida inclui capacidade de alimentar-se, eliminar, descansar e interagir sem medo de cair.

A assinatura postural e eletromiográfica torna o tremor ortostático reconhecível quando o exame é feito na condição certa. Sem testar o cão em estação, o diagnóstico pode ser perdido ou confundido com fraqueza. Uma investigação proporcional, tratamento monitorado e adaptações simples reduzem instabilidade e preservam autonomia.

O peso corporal do cão gigante muda a consequência de uma pequena perda de equilíbrio, tornando unhas, musculatura e aderência do piso parte do tratamento. Apoios mal posicionados ou pisos lisos aumentam gasto postural e podem intensificar o tremor. Ajustes ambientais devem ser testados um de cada vez para que o benefício real seja reconhecido.

Quando o tratamento farmacológico começa, a equipe registra frequência do tremor, tempo tolerado em estação e efeitos adversos antes de cada ajuste. Uma melhora parcial pode ser clinicamente valiosa se o cão volta a comer e permanecer parado sem ansiedade. Sedação que reduz o movimento, mas piora coordenação e interação, não representa controle funcional adequado.


Referências bibliográficas​


Garosi LS, Rossmeisl JH, de Lahunta A, Shelton GD, Lennox G. Primary orthostatic tremor in Great Danes. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2005;19(4):606-609. doi:10.1892/0891-6640(2005)19[606:POTIGD]2.0.CO;2.

Liatis T, Gutierrez-Quintana R, Mari L, et al. Primary orthostatic tremor and orthostatic tremor-plus in dogs: 60 cases (2003-2020). Journal of Veterinary Internal Medicine. 2022;36(1):179-189. doi:10.1111/jvim.16328.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


Horário: Segunda à sexta, 11h às 18h. Sábados 10:00 às 14:00
Whatsapp: (11)97522-5102
Endereço: Alameda dos Guaramomis, 1067, Moema, São Paulo, SP

bottom of page