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Neuropatia sensorial hereditária em Border Collies

A neuropatia sensorial hereditária do Border Collie é uma doença grave dos nervos periféricos que começa nos primeiros meses de vida. As fibras responsáveis por dor, tato e posição dos membros degeneram, e fibras motoras também podem ser afetadas em menor grau. O filhote perde informação protetora sem necessariamente parecer paralisado no início.

Filhote Border Collie em teste veterinário de posicionamento proprioceptivo do membro pélvico direito

A alteração está associada a uma inversão que interrompe o gene FAM134B, importante para a manutenção celular e a reciclagem de componentes do retículo endoplasmático. A herança é autossômica recessiva, portanto cães afetados recebem a variante dos dois genitores e portadores costumam ser clinicamente normais. O teste genético permite confirmar a variante conhecida e orientar acasalamentos sem confundir portador com doente.

Os sinais geralmente aparecem entre dois e sete meses, com ataxia, apoio sobre o dorso da pata, tropeços e desgaste anormal das unhas. A perda da percepção dolorosa pode levar o cão a lamber, morder ou lesionar as extremidades sem reagir como seria esperado. Diferentemente de uma lesão traumática do nervo ciático, o quadro hereditário tende a ser precoce, progressivo e envolver mais de um membro.

O exame neurológico avalia estado mental, marcha, reações posturais, reflexos e respostas sensoriais com o mínimo estímulo necessário. A ausência de resposta comportamental à dor precisa ser interpretada com cuidado, pois movimento de retirada pode ocorrer como reflexo espinhal sem percepção consciente. Testes dolorosos repetidos ou intensos não são justificáveis e podem produzir lesão em um animal que não se protege.

Os diferenciais incluem polineuropatias inflamatórias ou metabólicas, doença da medula espinhal, intoxicações, trauma múltiplo e outras neuropatias hereditárias. Alterações ortopédicas decorrentes de feridas, infecção ou instabilidade podem coexistir e agravar a marcha. A lesão do nervo radial em cães também causa apoio dorsal, mas costuma ter distribuição anatômica focal.

Hemograma, bioquímica e urina ajudam a afastar causas sistêmicas, embora possam ser normais na doença genética. Eletromiografia e estudos de condução nervosa documentam comprometimento periférico e selecionam nervo e músculo para biópsia quando necessário. A análise molecular de FAM134B oferece confirmação específica em cães com fenótipo compatível e deve ser realizada em laboratório qualificado.

Radiografias são indicadas quando há trauma, deformidade ou suspeita de infecção óssea secundária, mas não visualizam a neuropatia. Ressonância magnética e análise do líquido cerebrospinal podem entrar na investigação se a neurolocalização ou a evolução sugerirem doença central ou inflamatória. Nenhum exame isolado substitui a coerência entre idade, distribuição dos sinais, neuroanatomia e genética.

Não existe atualmente tratamento capaz de reverter a degeneração causada pela variante. O manejo concentra-se em prevenir dor, infecção, automutilação e trauma, com proteção física bem ajustada, ambiente macio e inspeção diária das patas. Botas e colares protetores podem ajudar, mas precisam ser retirados e revistos para não causar pressão, umidade ou lesões ocultas.

Feridas exigem limpeza e tratamento veterinário, cultura quando indicada e analgesia mesmo que o cão não demonstre dor normalmente. Bandagens não podem ser aplicadas de forma apertada, porque edema e necrose podem avançar sem aviso comportamental. Unhas, almofadas, temperatura da pele e odor devem ser checados pelo menos diariamente em pacientes com sensibilidade reduzida.

A fisioterapia pode preservar amplitude e massa muscular, desde que evite superfícies abrasivas, calor excessivo e exercícios até a exaustão. Tapetes antiderrapantes e bloqueio de escadas reduzem quedas, enquanto caminhadas curtas e supervisionadas são preferíveis a atividade livre. O objetivo não é treinar o cão a ignorar a alteração, mas adaptar a rotina à falta de feedback protetor.

O prognóstico é reservado porque a doença progride e feridas recorrentes podem comprometer gravemente o bem-estar. A decisão sobre cuidados paliativos e limite de tratamento deve considerar conforto, infecções, capacidade de locomoção, automutilação e possibilidade real de supervisão. Avaliações regulares ajudam a reconhecer perda de qualidade de vida antes de uma crise.

Na prevenção populacional, cães afetados não devem reproduzir e portadores só podem ser considerados em programas muito controlados com parceiros geneticamente livres e rastreamento da prole. Eliminar todos os portadores de uma vez pode reduzir diversidade genética, por isso a estratégia deve ser orientada por geneticista ou programa de saúde da raça. O aconselhamento responsável protege filhotes sem estigmatizar animais clinicamente saudáveis.

FORMAN, O. P.; HITTI, R. J.; PETTITT, L.; et al. An inversion disrupting FAM134B is associated with sensory neuropathy in the Border Collie dog breed. G3: Genes, Genomes, Genetics, v. 6, n. 9, p. 2687–2692, 2016. doi:10.1534/g3.116.027896.

AMENGUAL-BATLE, P.; RUSBRIDGE, C.; JOSÉ-LÓPEZ, R.; et al. Two mixed breed dogs with sensory neuropathy are homozygous for an inversion disrupting FAM134B previously identified in Border Collies. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 32, n. 6, p. 2082–2087, 2018. doi:10.1111/jvim.15312.

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