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Neuromiotonia adquirida em cães: quando os nervos mantêm o músculo contraído

19 de ago.
4 min de leitura

A neuromiotonia é uma forma de hiperexcitabilidade do nervo motor periférico em que descargas repetitivas continuam ativando o músculo sem comando voluntário adequado. A mioquimia descreve ondulações rítmicas visíveis sob a pele, enquanto a neuromiotonia produz atividade mais rápida, rigidez e dificuldade de relaxamento. As duas podem coexistir e não representam uma convulsão cerebral.

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O defeito funcional está na membrana do axônio motor e nos canais que controlam potássio e repolarização. Causas hereditárias foram associadas a variantes como KCNJ10 em alguns terriers, mas cães sem ataxia genética podem ter mecanismos imunomediados, tóxicos, paraneoplásicos ou ainda desconhecidos. A expressão clínica depende de quais nervos e músculos permanecem hiperexcitáveis.

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Os sinais incluem rigidez que piora com exercício, passada curta, fasciculações ou ondulações contínuas, hipertermia por atividade muscular e episódios de colapso sem perda primária de consciência. Alguns cães têm ataxia simultânea, convulsões verdadeiras ou dificuldade respiratória, mas esses achados mudam localização e urgência. Um vídeo com som, início e recuperação ajuda a separar o fenômeno de tremor, distonia e crise epiléptica.

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No exame neurológico, o veterinário avalia consciência, nervos cranianos, reações posturais, reflexos, tônus e dor. Entre episódios pode haver mioquimia persistente, hipertonia e atraso para relaxar após movimento, enquanto déficit proprioceptivo sugere envolvimento central concomitante. Lesões traumáticas do nervo também alteram apoio e força, como ocorre na neuropatia do nervo ciático.

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Os diagnósticos diferenciais incluem miotonia muscular, tetania por distúrbios eletrolíticos, tremor, intoxicação, síndrome serotoninérgica, crises focais e discinesias paroxísticas. Dor ortopédica pode gerar rigidez defensiva, e doença medular pode produzir hipertonia por outro mecanismo. Temperatura elevada, dificuldade para respirar ou colapso prolongado exigem atendimento imediato antes da investigação completa.

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A eletromiografia é o exame central porque identifica descargas de mioquimia e neuromiotonia com padrões e frequências característicos. Estudos de condução nervosa, imagem de encéfalo e medula, análise de líquido cerebrospinal e testes genéticos são escolhidos conforme idade, raça e sinais associados. Hemograma, bioquímica, eletrólitos, função tireoidiana e pesquisa de exposição ajudam a excluir causas metabólicas e tóxicas.

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Quando a apresentação é adquirida e generalizada, a investigação pode incluir neoplasias e mecanismos imunomediados, sobretudo se o início foi adulto e progressivo. Anticorpos bem estabelecidos em humanos nem sempre possuem teste validado para cães, por isso um resultado ausente não encerra o raciocínio. A resposta ao tratamento deve ser interpretada junto com eletromiografia e evolução, sem substituir a localização clínica.

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O tratamento procura reduzir a descarga nervosa, controlar a causa e evitar complicações de hiperatividade muscular. Fármacos estabilizadores de membrana ou anticonvulsivantes podem ser usados sob monitoramento, mas dose e escolha variam com fígado, coração, outras medicações e presença de crises. Imunoterapia é reservada a casos com evidência adequada, porque imunossupressão sem diagnóstico aumenta risco de infecção e outros efeitos adversos.

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Durante um episódio intenso, o cão deve permanecer em local fresco, seguro e sem exercício forçado. Temperatura, respiração, hidratação e coloração das mucosas precisam ser observadas, e resfriamento agressivo com gelo não é recomendado. Medicamentos de resgate só devem ser administrados se houver um plano escrito, pois uma crise epiléptica e uma descarga neuromuscular podem exigir condutas diferentes.

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A reabilitação usa sessões curtas, pausas frequentes e intensidade abaixo do limiar que desencadeia rigidez. Piso antiderrapante, controle de calor e condicionamento gradual reduzem quedas e fadiga, mas esforço até exaustão não treina o nervo a normalizar. Quando há dificuldade para andar ou subir escadas, a causa precisa ser localizada antes de atribuí-la à falta de força.

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O prognóstico varia de controle satisfatório com medicação a progressão associada a ataxia hereditária ou doença sistêmica. Hipertermia recorrente, comprometimento respiratório, convulsões e resposta pobre pioram o risco, enquanto casos estáveis podem manter boa qualidade de vida com atividade adaptada. Repetir vídeos, exame e eletromiografia permite saber se a redução aparente dos episódios corresponde a menor atividade elétrica.

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A distinção entre nervo periférico hiperexcitável, músculo miotônico e cérebro produzindo movimentos involuntários é a etapa que organiza todo o caso. Não existe um único exame isolado capaz de substituir história, semiologia e eletrofisiologia. Com diagnóstico preciso, segurança durante episódios e tratamento da causa, é possível reduzir rigidez e proteger o cão de exaustão, calor e quedas.

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Alguns cães desenvolvem atividade autonômica, perda de peso ou alteração de sono por contração persistente, e esses sinais ampliam a investigação sistêmica. A musculatura respiratória merece atenção quando a rigidez se generaliza, porque esforço ventilatório pode aumentar rapidamente. Avaliar deglutição e voz também ajuda a identificar envolvimento bulbar ou focal.

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Testes genéticos positivos explicam apenas fenótipos associados à variante e não transformam toda rigidez no mesmo diagnóstico. Em animais de raças sem mutação conhecida, a busca por causa adquirida continua necessária. Aconselhamento reprodutivo deve separar doença hereditária confirmada de síndrome esporádica ainda sem mecanismo definido.

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Referências bibliográficas


Vanhaesebrouck A, Van Poucke M, Stee K, et al. Generalized myokymia, or neuromyotonia, or both in dogs with or without spinocerebellar ataxia. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2023;37(6):2310-2314. doi:10.1111/jvim.16892.

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Gilliam D, O'Brien DP, Coates JR, et al. A homozygous KCNJ10 mutation in Jack Russell Terriers and related breeds with spinocerebellar ataxia with myokymia, seizures, or both. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2014;28(3):871-877. doi:10.1111/jvim.12355.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


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