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Necrose hipocampal felina e epilepsia do lobo temporal

Atualizado: 6 de ago.

O hipocampo fica na porção medial do lobo temporal e participa de memória, comportamento e redes que podem iniciar crises epilépticas. Na necrose hipocampal felina, neurônios dessa região sofrem dano intenso, por vezes acompanhado pelo lobo piriforme. A esclerose hipocampal representa perda neuronal e gliose crônica e pode coexistir ou suceder a necrose.

Gato sentado com olhar fixo durante observação veterinária de possível crise focal temporal

A relação entre lesão e crise pode ser bidirecional: uma doença inflamatória, neoplásica ou vascular pode lesar o hipocampo, enquanto crises prolongadas também podem ampliar dano excitotóxico. Por isso, o termo não descreve uma causa única. Encefalite límbica, neoplasia, infecção e epilepsia de origem desconhecida entram na investigação de cada gato.

As crises focais temporais frequentemente incluem mastigação sem alimento, lambedura dos lábios, salivação, contrações da face, pupilas dilatadas, vocalização ou olhar parado. Alguns gatos correm de forma súbita, demonstram agressividade não provocada ou ficam desorientados entre eventos. Esses sinais podem evoluir para crise generalizada, mas também podem passar despercebidos por parecerem comportamento estranho.

Um vídeo gravado sem aproximar a mão do gato ajuda a equipe a analisar início, duração, consciência e recuperação. O tutor deve anotar frequência, possíveis agrupamentos e uso recente de medicamentos ou produtos tóxicos. O artigo geral sobre convulsões em cães e gatos ajuda a reconhecer emergência, porém crises focais exigem atenção mesmo sem queda ou movimentos de todo o corpo.

O exame neurológico entre eventos pode ser normal ou revelar alteração de comportamento, visão, propriocepção e resposta postural. Pressão arterial, fundo de olho e avaliação sistêmica procuram pistas de hipertensão, doença infecciosa ou neoplasia. Um gato com febre, perda de peso ou déficit focal não deve ser classificado como epiléptico idiopático sem investigação.

Os diferenciais incluem intoxicação, hipoglicemia, encefalopatia hepática, deficiência de tiamina, peritonite infecciosa felina, toxoplasmose, tumor e evento vascular. A deficiência de tiamina em gatos pode causar sinais neurológicos e tem tratamento específico. A PIF com manifestação neurológica também pode afetar o encéfalo, embora o padrão clínico e os exames sejam diferentes.

Hemograma, bioquímica, glicemia, eletrólitos, urinálise e testes infecciosos selecionados avaliam causas extracranianas e segurança anestésica. A ressonância magnética pode mostrar aumento e hiperintensidade do hipocampo na fase aguda ou atrofia e perda de definição na fase crônica. Simetria não prova epilepsia primária, e imagens normais não excluem crise focal.

A análise do líquido cerebrospinal é considerada após a imagem quando se suspeita de inflamação ou infecção e quando a pressão intracraniana permite coleta segura. Testes de anticorpos ligados à encefalite límbica ainda têm disponibilidade e interpretação limitadas na rotina felina. O diagnóstico definitivo de necrose ou esclerose é histopatológico, mas a combinação clínica e de imagem orienta o manejo em vida.

Durante uma crise, o gato deve permanecer no chão ou em espaço baixo, longe de água, quinas e outros animais. Não se deve abrir a boca, puxar a língua ou conter com força. Crises com mais de cinco minutos, episódios repetidos sem recuperação ou dificuldade respiratória exigem atendimento emergencial.

O tratamento anticonvulsivante é escolhido conforme frequência, agrupamento, duração, causa provável e condições sistêmicas. Fenobarbital e outros fármacos podem ser usados sob monitoramento, mas sedação, ataxia, alterações hepáticas e aderência precisam ser acompanhadas. Ajustes graduais e dosagens séricas, quando aplicáveis, são mais seguros do que interrupções ou trocas abruptas.

Quando uma causa inflamatória, infecciosa, tóxica ou neoplásica é identificada, o tratamento etiológico é combinado ao controle das crises. Imunossupressão antes de excluir infecção pode ser perigosa. Dietas, suplementos e canabinoides não substituem diagnóstico nem têm evidência suficiente para serem empregados como única terapia nesse contexto.

O prognóstico varia de controle satisfatório a epilepsia resistente, especialmente quando há esclerose extensa, crises agrupadas ou doença estrutural progressiva. Alterações comportamentais podem persistir mesmo quando a frequência das crises cai. Acompanhamento com diário, exames e revisão da qualidade de vida permite ajustar metas de forma realista.

WAGNER, E.; ROSATI, M.; MOLIN, J.; et al. Hippocampal sclerosis in feline epilepsy. Brain Pathology, v. 24, n. 6, p. 607–619, 2014. doi:10.1111/bpa.12147.

SCALIA, B.; CAINE, A.; PITTAWAY, R.; CHERUBINI, G. B. Feline temporal lobe epilepsy: seven cases of hippocampal and piriform lobe necrosis in England and literature review. Journal of Feline Medicine and Surgery, v. 24, n. 6, p. 596–608, 2022. doi:10.1177/1098612X211035049.

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