Luxação do tendão flexor superficial em cães: sinais no calcanhar
- Felipe Garofallo

- há 22 horas
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Atualizado: há 20 horas
A luxação do tendão flexor superficial dos dedos ocorre quando esse tendão sai do sulco situado sobre a tuberosidade do calcâneo, na região posterior do tarso.
Em vez de deslizar de forma estável sobre o “calcanhar” do cão, ele se desloca para o lado durante o movimento. A alteração costuma causar claudicação súbita, dor e aumento de volume exatamente nessa região do membro pélvico.

O tendão flexor superficial dos dedos participa do mecanismo calcâneo comum e passa por trás do tarso antes de seguir em direção aos dedos. Faixas de tecido fibroso o mantêm centralizado sobre o calcâneo, funcionando como contenções laterais. Quando uma dessas estruturas é insuficiente ou se rompe, o tendão pode saltar para a face medial ou lateral, produzindo instabilidade e inflamação local.
A doença é considerada incomum na população canina geral, mas aparece com frequência desproporcional em Shetland Sheepdogs e também foi descrita em Collies e outras raças. Em alguns Shetland Sheepdogs existe forte componente hereditário, e animais jovens podem apresentar o problema mesmo sem um acidente importante. Em outras raças, trauma, hiperextensão ou degeneração dos tecidos de contenção podem participar do início do quadro.
O sinal mais típico é uma mancada que começa de forma aguda, às vezes sem que o tutor tenha observado queda ou impacto. O cão pode evitar apoiar o membro, caminhar com passos curtos ou interromper brincadeiras, enquanto surge uma saliência dolorosa sobre a porção proximal do calcâneo. Em alguns pacientes, o tendão pode ser visto ou sentido mudando de lado quando o tarso é flexionado e estendido.
A claudicação de membro pélvico, entretanto, não localiza sozinha a origem da dor. Problemas no joelho, quadril, coluna lombossacra, dedos e outros componentes do tarso podem gerar uma marcha semelhante. Por isso, um cão mancando da pata traseira precisa de avaliação ortopédica completa, e não apenas de inspeção da área que parece mais inchada.
Durante o exame, o veterinário compara os dois membros, observa a marcha e palpa o calcâneo com o animal em posição confortável. A movimentação deve ser delicada, porque tentar provocar repetidamente o deslocamento pode aumentar dor e inflamação. A posição do tendão, a direção da luxação, a estabilidade do tarso e a integridade do mecanismo calcâneo comum ajudam a diferenciar essa lesão de uma ruptura tendínea mais extensa.
Radiografias são úteis para excluir fratura do calcâneo, avulsão, doença articular e outras causas ósseas, embora o próprio tendão não seja bem definido nesse exame. O achado pode se limitar ao aumento de volume dos tecidos moles na face caudal do tarso. Projeções bem posicionadas também são importantes porque rotação ou flexão inadequada podem mascarar alterações associadas.
A ultrassonografia permite acompanhar o trajeto do tendão, observar espessamento, líquido, irregularidade das fibras e deslocamento dinâmico em relação ao calcâneo. Em casos selecionados, a ressonância magnética ou a tomografia podem complementar o planejamento quando existe suspeita de lesão complexa, alteração óssea ou diagnóstico concorrente. Nenhuma imagem deve ser interpretada isoladamente do exame ortopédico.
Entre os principais diagnósticos diferenciais estão ruptura parcial ou completa do mecanismo calcâneo comum, tendinopatia, bursite calcânea, fratura, entorse dos ligamentos do tarso, infecção e doença articular. A osteocondrose do tálus também pode causar dor e claudicação tarsal, mas envolve a cartilagem e o osso subcondral, não o deslizamento do tendão sobre o calcâneo. Distinguir essas condições muda tanto o tratamento quanto o período de proteção necessário.
Em pacientes com luxação verdadeira e instável, o manejo apenas com repouso, bandagem e anti-inflamatório apresenta risco de persistência ou recidiva. Tratamento conservador pode ser considerado em circunstâncias muito específicas, especialmente quando cirurgia não é possível, mas exige imobilização adequada, acompanhamento frequente da pele e reavaliação objetiva da estabilidade. Medicamentos humanos não devem ser oferecidos por conta própria.
O tratamento cirúrgico procura reposicionar o tendão e reconstruir ou reforçar os tecidos que o mantêm no sulco do calcâneo. A técnica varia conforme o lado do deslocamento, a qualidade das estruturas de contenção, a profundidade do sulco e a presença de lesões associadas. Em alguns casos são utilizados pontos não absorvíveis; em outros, procedimentos sobre o calcâneo podem melhorar a estabilidade, sempre com atenção às estruturas neurovasculares próximas.
Uma série multicêntrica com 48 cães submetidos à estabilização cirúrgica registrou resultado bem-sucedido em cerca de três quartos dos casos, mas também mostrou que complicações pós-operatórias não são raras. Reluxação, mancada persistente, problemas de bandagem e necessidade de nova intervenção precisam fazer parte da conversa antes da cirurgia. O uso de fio não absorvível esteve associado a maior chance de sucesso naquele estudo, sem significar que uma única técnica sirva para todos os cães.
A proteção pós-operatória é uma parte decisiva do tratamento porque a reconstrução precisa cicatrizar enquanto recebe forças a cada apoio. Tala, órtese, parafuso temporário ou fixador podem ser indicados conforme a técnica e o paciente, e cada opção traz riscos próprios. A imobilização deve ser inspecionada frequentemente para evitar pressão, umidade, edema, feridas e comprometimento da circulação.
Em casa, corridas, saltos, escadas e pisos escorregadios permanecem proibidos até liberação. Saídas curtas com guia servem apenas para necessidades fisiológicas no início, e o tutor deve observar dedos inchados, mau cheiro, curativo molhado, dor crescente ou tentativa de roer a proteção. Qualquer um desses sinais justifica contato rápido com a equipe, sem esperar a consulta programada.
A reabilitação começa quando a estabilidade e a cicatrização permitem, com progressão individualizada de amplitude de movimento, apoio, força e propriocepção. Retirar a proteção cedo demais favorece reluxação, mas imobilizar além do necessário aumenta rigidez, perda muscular e problemas cutâneos. O cronograma deve ser guiado por exames de acompanhamento e função, não apenas pelo número de dias desde a cirurgia.
O prognóstico costuma ser favorável quando o diagnóstico é precoce, o tendão permanece viável e a reconstrução mantém estabilidade durante a recuperação. Casos crônicos podem apresentar fibrose, alteração do sulco, atrofia e osteoartrose, tornando o retorno mais lento ou incompleto. Mesmo depois da melhora, peso corporal adequado e retorno gradual ao exercício reduzem sobrecarga no membro.
Em Shetland Sheepdogs afetados, a possibilidade de predisposição hereditária merece orientação reprodutiva responsável. Um cão clinicamente normal pode pertencer a uma família com maior risco, e a análise do pedigree deve ser discutida com criadores e veterinários familiarizados com a raça. A prevenção não muda o tratamento do paciente atual, mas pode reduzir novos casos e evitar que uma característica dolorosa seja perpetuada.
A mensagem prática é que um inchaço doloroso sobre o calcanhar, acompanhado de mancada súbita, não deve ser tratado como simples distensão sem diagnóstico. Restringir atividade e buscar avaliação precoce protege o tendão e permite escolher a estabilização antes que a instabilidade se torne crônica. Se houver apenas uma fotografia ou vídeo da marcha, ele pode ajudar na consulta, desde que não se force o cão a repetir movimentos dolorosos.
A direção do deslocamento também fornece informação clínica. A luxação lateral é descrita com maior frequência, mas o tendão pode se mover medialmente, e a falha da contenção não é necessariamente idêntica nos dois padrões. Registrar fotografias, vídeos e achados sob sedação ajuda o cirurgião a planejar a reconstrução sem depender de manipulações repetidas no momento do procedimento.
Quando o problema é bilateral, o cão pode não mostrar uma mancada claramente unilateral e passar a reduzir atividade, sentar com frequência ou transferir peso para os membros torácicos. A comparação entre os dois tarsos continua útil, mas alterações simétricas exigem atenção especial à palpação e ao deslocamento dinâmico. Em raças predispostas, examinar o membro aparentemente normal pode revelar instabilidade subclínica.
A decisão cirúrgica também considera o tempo de evolução. Lesões recentes tendem a apresentar tecidos mais identificáveis, enquanto casos crônicos podem desenvolver espessamento, aderências, desgaste da superfície do tendão e deformação dos retináculos. Mesmo assim, a duração isolada não define o prognóstico; função, qualidade do tecido, estabilidade obtida e capacidade de cumprir a proteção pós-operatória pesam em conjunto.
O retorno à atividade esportiva ou a brincadeiras intensas deve ser mais lento que o simples retorno ao apoio. Primeiro se busca marcha confortável, depois amplitude adequada e força comparável entre os membros, e somente então entram trote, mudanças de direção e saltos controlados. A ausência de mancada em casa não prova que o reparo já tolera aceleração, frenagem ou terreno irregular.
Referências bibliográficas
GOH, D.; HOUSE, A.; MOORES, A. P.; et al. Surgical management of superficial digital flexor tendon luxation in dogs: 48 cases (2005–2020). Journal of Small Animal Practice, v. 63, n. 4, p. 305–311, 2022. doi:10.1111/jsap.13448.
MAUTERER, J. V.; PRATA, R. G.; CARBERRY, C. A.; SCHRADER, S. C. Displacement of the tendon of the superficial digital flexor muscle in dogs: 10 cases (1983–1991). Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 203, n. 8, p. 1162–1165, 1993. PMID:8244865.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.