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Osteocondrose da crista troclear medial do tálus em cães

Atualizado: 6 de ago.

A articulação tarsocrural une a tíbia e a fíbula às cristas trocleares do tálus e permite grande parte da flexão e extensão do jarrete. A crista troclear medial suporta carga e desliza dentro da pinça maleolar a cada passo. Uma alteração osteocondral nesse ponto produz dor articular e pode iniciar osteoartrose ainda em cães jovens.

Labrador jovem com claudicação do membro pélvico esquerdo durante exame veterinário do tarso

A osteocondrose decorre de falha focal da ossificação endocondral, processo pelo qual a cartilagem de crescimento subarticular se transforma em osso. A cartilagem espessada recebe nutrição inadequada, pode sofrer fissuras e formar um fragmento parcialmente ou totalmente destacado, então chamado osteocondrite dissecante. Embora exista um panorama mais amplo da osteocondrose do tarso em cães, identificar a crista medial é decisivo para planejar o acesso e avaliar lesões associadas.

Os cães costumam apresentar claudicação de membro pélvico que piora com exercício e pode variar de discreta a intensa. Aumento de volume ao redor do jarrete, redução da amplitude e dor à flexão ou extensão são achados possíveis. Lesões bilaterais existem, por isso o fato de apenas um lado parecer dolorido não dispensa a avaliação do outro tarso.

A história deve incluir idade de início, crescimento, atividade, dieta, progressão e resposta a repouso ou medicamentos. No exame, o veterinário observa apoio, rotação do pé, comprimento do passo e compensações em quadril, joelho e coluna. A localização cuidadosa evita atribuir ao tarso uma claudicação originada em estruturas como o joelho ou o tendão calcâneo comum.

Os diagnósticos diferenciais incluem trauma osteocondral, fratura do tálus, instabilidade ligamentar, infecção articular, doença imunomediada, lesões tendíneas e outras formas de osteocondrose. A entesopatia do tendão calcâneo comum pode provocar dor próxima, mas altera um mecanismo anatômico diferente. Em cães muito jovens, também se avaliam distúrbios do desenvolvimento e incongruência articular.

Radiografias do tarso em projeções ortogonais podem mostrar achatamento, defeito subcondral, esclerose, fragmento mineralizado e sinais de osteoartrose. Projeções oblíquas melhoram a visualização, mas a sobreposição ainda pode ocultar número e posição dos fragmentos. A tomografia computadorizada define melhor a crista envolvida, a extensão do leito e a presença de corpos livres, além de auxiliar o planejamento artroscópico.

A artrocentese não é necessária em todos os casos, porém ganha importância quando há efusão marcante, febre, dor desproporcional ou suspeita de artrite séptica ou imunomediada. O líquido sinovial deve ser obtido com técnica asséptica e interpretado junto ao exame clínico. Injetar medicamentos na articulação sem diagnóstico estabelecido pode atrasar o tratamento correto e introduzir infecção.

Casos selecionados e pouco sintomáticos podem receber manejo conservador com controle de peso, atividade adaptada, reabilitação e analgesia veterinária. Esse caminho não remove fragmentos instáveis e exige reavaliações, pois a doença articular pode progredir apesar de melhora temporária. Repouso absoluto prolongado sem plano de mobilidade também favorece perda muscular e rigidez.

O tratamento cirúrgico costuma remover fragmentos instáveis, regularizar o leito e avaliar toda a articulação, preferencialmente por artroscopia quando disponível. O posicionamento dos portais depende do lado da lesão e deve proteger vasos, nervos e tendões próximos. Nem todo defeito é tratado da mesma maneira, e tamanho, profundidade, idade e osteoartrose influenciam a estratégia.

No pós-operatório, a proteção inicial é combinada a retorno gradual de amplitude, apoio e massa muscular. Incisão, aumento de volume e conforto são monitorados, enquanto saltos, corridas e pisos escorregadios permanecem proibidos até liberação. A equipe pode usar medidas objetivas de dor e função para não depender apenas da impressão de que o cão parece melhor.

A maioria dos cães pode melhorar funcionalmente após tratamento adequado, mas a cartilagem hialina original não é plenamente restaurada e a osteoartrose pode continuar. O prognóstico tende a ser melhor quando a lesão é identificada cedo, os fragmentos são tratados antes de dano difuso e a musculatura é recuperada de forma controlada. Alterações bilaterais, defeitos grandes e degeneração avançada tornam a previsão mais cautelosa.

O acompanhamento de longo prazo inclui peso corporal magro, exercício regular de baixo impacto e revisão se a claudicação reaparecer. Um episódio de dor depois de atividade não deve ser mascarado com medicação por conta própria. A meta realista é função confortável e sustentável, não apenas uma radiografia sem fragmento.

DINGEMANSE, W. B.; VAN BREE, H. J. J.; DUCHATEAU, L.; GIELEN, I. M. V. L. Comparison of clinical and computed tomographic features between medial and lateral trochlear ridge talar osteochondrosis in dogs. Veterinary Surgery, v. 42, n. 3, p. 340–345, 2013. doi:10.1111/j.1532-950X.2012.01069.x.

CRUCIANI, B.; GROS, L.; RAGETLY, G. A modified approach to portal placement for arthroscopic management of osteochondritis dissecans lesions of the tarsocrural joint in 15 dogs (19 tarsi). Veterinary Surgery, v. 54, n. 1, p. 107–117, 2025. doi:10.1111/vsu.14177.

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