top of page

Luxação dorsomedial do osso carpo radial em cães: diagnóstico e estabilidade

Atualizado: 5 de ago.

O osso carpo radial é o maior componente da fileira proximal do carpo canino e articula com rádio, ulna, osso carpo ulnar e ossos distais. Sua posição depende da cápsula, do ligamento colateral radial curto e de ligamentos intercarpais que coordenam flexão, extensão e pequena rotação. Uma luxação isolada é rara, mas produz grande alteração mecânica porque essa peça ocupa o centro da transmissão de carga.

Veterinária sustenta o carpo de um Gordon Setter durante avaliação de luxação do osso carpo radial

Na luxação dorsomedial, o osso gira e se desloca em relação às superfícies vizinhas após combinação de hiperextensão, rotação e falha ligamentar. A cartilagem pode ser esmagada durante o trauma ou a redução, e fragmentos pequenos podem acompanhar a lesão. Mesmo quando o carpo parece alinhado depois de manipulação, a instabilidade residual favorece reluxação e osteoartrite.

O cão geralmente apresenta claudicação intensa do membro torácico, aumento de volume no carpo e dor à mobilização. A deformidade pode ser evidente, mas em luxações incompletas o sinal mais claro é a perda de congruência palpável e da amplitude normal. A intensidade da dor não permite diferenciar luxação, fratura, lesão de tendão ou uma simples dor ao tocar a pata.

A avaliação começa pela perfusão, temperatura, sensibilidade e integridade da pele distal, especialmente após queda, atropelamento ou aprisionamento. O veterinário examina rádio, ulna, metacarpos, dedos e cotovelo e procura instabilidade em varo, valgo e hiperextensão sem agravar uma lesão não definida. Ferida próxima à articulação deve ser tratada como possível comunicação articular até prova em contrário.

Radiografias dorsopalmar e mediolateral identificam deslocamento, rotação e fraturas associadas, e projeções oblíquas reduzem a sobreposição. Imagens sob estresse só são realizadas com analgesia adequada e quando o risco de aumentar o dano é aceitável. A tomografia ajuda em fragmentos complexos, enquanto artroscopia ou inspeção cirúrgica podem revelar cartilagem inviável que não aparece na radiografia.

Os diferenciais incluem luxação antebraquiocárpica completa, instabilidade por ruptura dos fibrocartilagens palmares, fratura do osso carpo radial, lesão do processo estiloide e luxações intercarpais. Tenossinovite, infecção e doença imunomediada também causam dor e edema, porém não costumam produzir o mesmo deslocamento ósseo agudo. Exames de sangue e análise de líquido sinovial são reservados para suspeitas sistêmicas ou inflamatórias, não substituindo a imagem.

Uma lesão recente, fechada, com cartilagem preservada e estabilidade após redução pode ser tratada por redução fechada e imobilização em casos cuidadosamente selecionados. A articulação é manipulada sob anestesia e controle de imagem para evitar força excessiva e lesão iatrogênica. Radiografias após a redução e controles precoces são obrigatórios porque a aparência externa não confirma manutenção da congruência.

Quando a redução não se mantém, existe grande lesão ligamentar ou o osso permanece rotado, a estabilização aberta permite reposicionar e reparar estruturas. Parafusos, fios, implantes temporários ou reconstrução ligamentar são escolhidos conforme o padrão e a qualidade dos tecidos. Luxações crônicas com artrose ou dano cartilaginoso irreversível podem exigir artrodese parcial ou pancarpal para substituir movimento doloroso por estabilidade.

A segurança pós-operatória depende tanto da cirurgia quanto do cuidado com o suporte externo. Bandagem apertada demais causa edema e necrose; bandagem frouxa perde função e cria atrito, por isso dedos, odor e posição precisam ser checados diariamente. Analgésicos e anti-inflamatórios devem respeitar estado renal, gastrointestinal e outras medicações, sem combinação caseira.

A fisioterapia preserva ombro, cotovelo e massa muscular enquanto protege o carpo em cicatrização. Depois da confirmação de estabilidade, o plano avança de caminhadas muito curtas para apoio controlado e fortalecimento, evitando salto, corrida e piso escorregadio. Se surgir claudicação nova em outro membro, compensações precisam ser avaliadas antes de aumentar exercício.

O prognóstico varia de bom em reduções agudas estáveis a reservado em luxações antigas com cartilagem danificada. Osteoartrite é possível mesmo com retorno satisfatório da função, e cães de trabalho necessitam acompanhamento mais longo antes de voltar a esforço. Traumas de alta energia também podem causar lesões de tendões e ligamentos em outros níveis do membro.

Reconhecer a luxação como uma lesão osteoligamentar, e não apenas como um osso fora do lugar, muda o planejamento. A congruência precisa ser restaurada, mas também sustentada por tecidos capazes de suportar carga durante a cicatrização. Reavaliações clínicas e radiográficas permitem detectar reluxação, falha de implante e artrose antes que a perda funcional se torne permanente.

Lesões crônicas exigem atenção à pele, tendões extensores e alinhamento de todo o membro, pois a deformidade muda a distribuição de pressão. A decisão de preservar movimento ou realizar artrodese considera quanto da cartilagem permanece viável e se a estabilidade pode ser reconstruída de modo durável. Manter uma articulação móvel, porém dolorosa e reluxante, não é um resultado melhor do que uma fusão estável.

Depois da alta, fotografias diárias da bandagem e registro do apoio ajudam a reconhecer mudança precoce, mas qualquer remoção deve seguir orientação. Radiografias seriadas avaliam não apenas posição do osso, como também reação periarticular e integridade dos implantes. O retorno a piso irregular e brincadeiras precisa ocorrer em etapas, porque ligamento cicatrizado não recupera imediatamente sua resistência original.

Palierne S, Delbeke C, Asimus E, et al. A case of dorso-medial luxation of the radial carpal bone in a dog. Veterinary and Comparative Orthopaedics and Traumatology. 2008;21(2):171-176. doi:10.3415/VCOT-07-07-0073.

Miller A, Carmichael S, Anderson TJ, Brown I. Luxation of the radial carpal bone in four dogs. Journal of Small Animal Practice. 1990;31(3):148-154. doi:10.1111/j.1748-5827.1990.tb00752.x.

Horário: Segunda à sexta, 11h às 18h. Sábados 10:00 às 14:00
Whatsapp: (11)97522-5102
Endereço: Alameda dos Guaramomis, 1067, Moema, São Paulo, SP

bottom of page