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Discinésia paroxística sensível ao glúten em Border Terriers

Atualizado: 5 de ago.

A discinésia paroxística sensível ao glúten é um distúrbio episódico do movimento descrito em Border Terriers. Durante as crises, o cão pode apresentar distonia, tremor, flexão dos membros, dificuldade para andar e movimentos do tronco, mas geralmente permanece consciente e responsivo. Entre os eventos, o exame neurológico pode ser completamente normal.

Border Terrier consciente em postura distônica enquanto é observado por veterinária

O mecanismo parece envolver uma resposta imune ao glúten em parte dos cães, com anticorpos contra gliadina e transglutaminase relacionados ao fenótipo. Isso não significa que todo movimento involuntário na raça seja causado por alimento nem que qualquer ração sem trigo confirme o diagnóstico. Predisposição genética, imunidade intestinal e sistema nervoso provavelmente interagem.

Os episódios podem começar em repouso ou após excitação, durar minutos a horas e ocorrer em intervalos muito variáveis. Salivação, vômito ou ruídos intestinais podem acompanhar a alteração motora, enquanto perda completa de consciência, fase tônico-clônica e período pós-ictal prolongado favorecem epilepsia. Um vídeo contínuo desde o início até a recuperação é uma das informações mais valiosas.

No exame, o veterinário analisa estado mental, padrão dos movimentos, distribuição nos membros e capacidade de interação. Distonia causa posturas sustentadas e torções, tremor produz oscilação rítmica, e ataxia representa perda de coordenação; mais de um fenômeno pode coexistir. Dor de coluna ou articulação também provoca postura baixa e precisa ser excluída antes de chamar o quadro de discinésia.

Os diferenciais incluem crise epiléptica focal, tremor, síncope, hipoglicemia, intoxicação, doença hepática, distúrbio eletrolítico e síndrome de queda episódica de outras raças. Deficiência de tiamina é outra causa de sinais neurológicos e requer contexto nutricional distinto, como abordado em deficiência de tiamina em gatos. Exames normais entre eventos não eliminam epilepsia nem doença metabólica intermitente.

Hemograma, bioquímica, glicose, eletrólitos, função hepática e urinálise compõem a triagem. Ressonância magnética e líquido cerebrospinal são indicados quando idade, progressão ou exame sugerem doença estrutural; eletroencefalografia tem disponibilidade limitada e não substitui a semiologia. Testes sorológicos relacionados ao glúten podem apoiar o diagnóstico, mas precisam ser interpretados em relação à dieta atual.

Uma dieta de eliminação sem glúten exige controle rigoroso de todos os alimentos, petiscos, medicamentos palatáveis e acesso a comida de outros animais. Pequenas exposições podem manter anticorpos e sintomas, e simplesmente trocar a ração sem registrar frequência dos episódios impede avaliar resposta. O período de teste deve ser definido pelo veterinário e acompanhado com diário e vídeos.

A melhora clínica e a queda de marcadores sorológicos reforçam a relação com glúten, mas não autorizam reintrodução provocativa sem necessidade. Dietas caseiras improvisadas podem criar deficiências, por isso formulação completa e balanceada é obrigatória. Um alimento comercial rotulado sem grãos também pode conter ingredientes ou contaminação incompatíveis com uma exclusão diagnóstica estrita.

Medicamentos anticonvulsivantes frequentemente têm resposta limitada quando o evento é discinético, embora possam ser usados se epilepsia coexistir. Durante um episódio, o cão deve ficar em piso seguro, longe de escadas, sem contenção forçada das patas e sem alimento até deglutição normal. Emergência é indicada se houver hipertermia, dificuldade respiratória, inconsciência, trauma ou duração fora do padrão habitual.

O prognóstico costuma ser bom quando a consciência é preservada, doenças estruturais foram excluídas e a dieta controla a frequência. Alguns cães mantêm episódios ocasionais apesar de adesão, exigindo revisão de exposição oculta ou de outro diagnóstico. Doenças autonômicas como disautonomia felina têm mecanismo e evolução diferentes, embora possam compartilhar sinais gastrointestinais.

O acompanhamento deve comparar número, duração, intensidade, gatilhos e recuperação dos eventos, não apenas a impressão de melhora. Repetir sorologia pode ser útil em protocolos selecionados, enquanto exames neurológicos seriados detectam um déficit permanente que não combina com discinésia primária. Qualquer mudança de fenótipo pede nova investigação.

Nomear corretamente o fenômeno evita tratar toda crise como epilepsia e toda resposta alimentar como alergia simples. Em Border Terriers, a combinação de consciência preservada, distonia paroxística, investigação negativa e resposta documentada à exclusão de glúten sustenta o diagnóstico. Controle dietético seguro e observação objetiva permitem excelente qualidade de vida na maioria dos casos responsivos.

Como anticorpos podem cair após exclusão de glúten, iniciar dieta antes da coleta reduz a capacidade interpretativa do teste. Quando o paciente já consome alimento restrito, o veterinário decide se vale investigar com os dados disponíveis sem provocar exposição. A segurança clínica tem prioridade sobre a tentativa de obter um marcador mais claro.

Famílias com vários cães precisam controlar potes, petiscos, brinquedos recheáveis e acesso ao lixo, porque contaminação cruzada é uma causa frequente de falha aparente. O diário alimentar deve registrar marcas, lotes e qualquer ingestão acidental junto com os episódios. Essa disciplina transforma uma impressão subjetiva em evidência útil para a decisão clínica.

Lowrie M, Garden OA, Hadjivassiliou M, et al. Characterization of Paroxysmal Gluten-Sensitive Dyskinesia in Border Terriers Using Serological Markers. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2018;32(2):775-781. doi:10.1111/jvim.15038.

Marioni-Henry K, Rusbridge C, Volk HA. Clinical Features in Border Terrier Dogs with Paroxysmal Involuntary Movements. Movement Disorders Clinical Practice. 2016;3(1):73-79. doi:10.1002/mdc3.12232.

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