Contratura do infraespinhal em cães: por que a pata faz um arco ao caminhar
- Felipe Garofallo

- 4 de ago.
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Atualizado: 5 de ago.
A contratura do infraespinhal é uma doença musculotendínea incomum em que o tecido funcional do músculo é progressivamente substituído por fibrose pouco elástica. O infraespinhal ocupa a face lateral da escápula, termina no tubérculo maior do úmero e participa da estabilização e da rotação externa do ombro. Quando encurta, mantém a articulação em uma posição anormal e obriga o membro torácico a descrever um arco lateral durante o avanço.

O processo costuma começar após trauma, esforço repetitivo ou lesão muscular que provoca inflamação e cicatrização desorganizada, embora muitos cães não tenham um evento inicial claramente identificado. A perda de fibras e o depósito de colágeno encurtam a unidade músculo-tendínea, limitam a rotação interna e a abdução do ombro e alteram a mecânica de cotovelo e carpo. Em quadros bilaterais, menos comuns, a compensação pode esconder a assimetria e retardar o reconhecimento.
O sinal mais típico é uma marcha em circundução: o cotovelo fica afastado do tronco, o antebraço gira para fora e a pata volta para dentro antes de tocar o chão. A claudicação pode ser discreta e a dor geralmente é maior na fase inicial inflamatória, tornando-se pequena ou ausente quando a fibrose amadurece. Essa combinação de movimento muito característico com pouco desconforto diferencia a contratura de várias causas de dor no ombro.
No exame ortopédico, o veterinário observa o cão de frente, de lado e por trás e compara cuidadosamente os dois membros. A rotação interna do úmero e a abdução do ombro estão reduzidas, enquanto uma faixa firme pode ser palpada sobre a fossa infraespinhal; o cotovelo e o carpo precisam ser examinados para excluir compensações dolorosas. A avaliação neurológica continua indispensável, porque paresia, déficit proprioceptivo e lesões de plexo braquial também podem mudar a trajetória da pata.
Os principais diagnósticos diferenciais incluem osteocondrose do ombro, tenossinovite do bíceps, tendinopatia do supraespinhal, instabilidade medial, doença cervical e neuropatia periférica. Radiografias podem revelar alterações articulares concomitantes, mas não mostram diretamente toda a extensão da fibrose; ultrassonografia musculoesquelética demonstra perda do padrão fibrilar e redução da elasticidade. A ressonância magnética define melhor o volume muscular, a substituição por tecido conjuntivo e o envolvimento do redondo menor quando o planejamento cirúrgico exige precisão.
Exames laboratoriais rotineiros costumam ser normais, e a creatinoquinase pode não aumentar em uma lesão crônica localizada. A eletromiografia ajuda quando há dúvida entre miopatia focal e desnervação, enquanto a biópsia confirma substituição de miofibras por colágeno, mas não é necessária em todo cão com quadro clínico e imagem compatíveis. Vídeos feitos em piso regular, em velocidade normal e lenta, são úteis para documentar a marcha antes e depois do tratamento.
Na fase aguda, quando ainda existe dor muscular sem contratura fixa, o manejo combina repouso relativo, analgesia prescrita, fisioterapia controlada e correção do fator de sobrecarga. Alongamentos agressivos sobre fibras lesionadas podem ampliar o dano, por isso amplitude e frequência devem ser definidas após exame presencial. Medicamentos humanos nunca devem ser oferecidos por conta própria, especialmente anti-inflamatórios que podem causar toxicidade gastrointestinal, renal ou hepática em cães.
Quando a fibrose está estabelecida e limita mecanicamente o ombro, exercícios isolados raramente restauram o comprimento muscular. A tenotomia ou ressecção parcial do tendão do infraespinhal pode liberar a restrição e melhorar rapidamente a trajetória do membro, mas a indicação depende da função, do desconforto, da cronicidade e de doenças articulares associadas. O procedimento deve preservar estruturas neurovasculares e ser seguido por controle de ferida, analgesia multimodal e retorno gradual ao apoio.
A reabilitação pós-operatória busca recuperar movimento sem estimular nova cicatrização excessiva. Caminhadas curtas com guia, mobilização passiva suave, exercícios de transferência de peso e progressão para fortalecimento são introduzidos conforme a cicatrização, a dor e a qualidade da passada. Se o cão também apresenta dor ao tocar a pata, o programa precisa ser revisto antes de aumentar carga ou amplitude.
O prognóstico funcional costuma ser bom quando o diagnóstico é correto e a limitação vem predominantemente do infraespinhal, embora a marcha nem sempre volte a ser totalmente simétrica. Recidiva, contratura do redondo menor, osteoartrite do ombro e compensações crônicas podem reduzir o resultado. Cães de trabalho e esporte necessitam critérios objetivos para retornar à atividade, pois aparência confortável em casa não significa que o membro já tolera esforço explosivo.
Em casa, o tutor deve observar piora da circundução, relutância para apoiar, calor local, inchaço, lambedura e mudança súbita do comportamento. Uma filmagem padronizada no mesmo piso facilita comparações, mas não substitui a reavaliação clínica se houver dor, perda de apoio ou déficit neurológico. Dificuldade para subir degraus pode acompanhar alterações musculoesqueléticas ou neurológicas, como discutido em cães que evitam escadas.
A chave é reconhecer que a pata em arco não representa um diagnóstico por si só, mas um padrão biomecânico que precisa ser localizado. A combinação entre anamnese, marcha, amplitude específica do ombro e imagem muscular permite separar uma contratura fixa de dor articular, lesão tendínea e doença neurológica. Com um plano individualizado e monitoramento de função, é possível reduzir compensações e preservar uma rotina ativa com segurança.
Krystalli A, Papaefthymiou S, Panteli K, et al. Fibrotic Contracture of the Infraspinatus Muscle with or without Contracture of the Teres Minor Muscle: A Retrospective Study in Eight Dogs. Animals. 2024;14(17):2589. doi:10.3390/ani14172589.
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