Acidúria L-2-hidroxiglutárica em Staffordshire Bull Terriers
- Felipe Garofallo

- 5 de ago.
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Atualizado: 6 de ago.
A L-2-hidroxiglutárico acidúria, abreviada como L-2-HGA, é uma doença metabólica hereditária que afeta o encéfalo. Ela ocorre quando a enzima L-2-hidroxiglutarato desidrogenase não converte adequadamente o L-2-hidroxiglutarato em alfa-cetoglutarato. O metabólito se acumula em líquidos e tecidos e interfere progressivamente com a função neurológica.

No Staffordshire Bull Terrier, a doença tem herança autossômica recessiva e está associada a variantes em L2HGDH. Animais afetados recebem duas cópias alteradas, enquanto portadores geralmente não mostram sinais. A existência de teste genético é importante tanto para o diagnóstico quanto para reduzir novos casos sem excluir indiscriminadamente cães saudáveis da reprodução.
Os sinais variam e podem surgir de seis meses à idade adulta, com ataxia, tremor, crises epilépticas, rigidez muscular e alterações de comportamento. Alguns cães parecem desorientados, demoram a aprender, pressionam a cabeça ou ficam mais sensíveis a estímulos. Um cão andando como bêbado tem muitas causas possíveis, e a raça sozinha não confirma L-2-HGA.
O exame neurológico procura localizar a disfunção no prosencéfalo, cerebelo ou em múltiplas regiões. Estado mental, marcha, reações posturais, nervos cranianos e presença de tremor são avaliados junto ao histórico de crises. A evolução lenta e a combinação de sinais podem sugerir encefalopatia metabólica, mas doenças inflamatórias, tóxicas e estruturais ainda precisam ser excluídas.
Os diferenciais incluem epilepsia genética sem lesão estrutural, encefalites, malformações, neoplasias, intoxicações, doença hepática, hipoglicemia e outras acidúrias orgânicas. Distúrbios paroxísticos do movimento também podem ser confundidos com crises. A descrição detalhada e um vídeo seguro ajudam a separar perda de consciência e atividade autonômica de tremor ou discinesia.
Hemograma, bioquímica, eletrólitos, urinálise e avaliação hepática procuram causas sistêmicas tratáveis e estabelecem segurança para anestesia. Resultados rotineiros podem ser normais na L-2-HGA, por isso a investigação não termina aí. A quantificação de L-2-hidroxiglutarato em urina, plasma ou líquido cerebrospinal por método validado demonstra o acúmulo característico.
A ressonância magnética pode mostrar alterações simétricas na substância cinzenta e branca, com distribuição que apoia a suspeita metabólica. Ela também exclui massas, hidrocefalia e várias doenças focais, mas não identifica sozinha a causa bioquímica. O teste de DNA confirma a variante conhecida na raça e deve ser interpretado com a clínica, especialmente em cães sem sinais.
Crises prolongadas, repetidas sem recuperação ou acompanhadas de dificuldade respiratória são emergência. O tutor deve afastar objetos, marcar o tempo e evitar colocar as mãos na boca do cão. O panorama geral de convulsões em cães e gatos ajuda a reconhecer urgência, mas o esquema medicamentoso precisa ser individualizado.
Não há terapia comprovada que corrija definitivamente o defeito metabólico em cães afetados. O tratamento é de suporte, com controle de crises, ambiente seguro, peso adequado, rotina previsível e reabilitação conforme os déficits. Riboflavina e outras estratégias foram tentadas, porém não devem ser apresentadas como cura nem usadas sem avaliação veterinária.
Medicamentos anticonvulsivantes exigem escolha e monitoramento baseados no tipo e na frequência das crises, função hepática, interações e efeitos adversos. Sedação, fraqueza e ataxia podem resultar tanto da doença quanto do tratamento, tornando o acompanhamento essencial. Interromper um anticonvulsivante abruptamente aumenta risco de recorrência grave.
A progressão é variável, e alguns cães mantêm qualidade de vida por anos com sinais controlados, enquanto outros desenvolvem crises frequentes ou déficits mais intensos. O prognóstico considera início, gravidade, resposta ao controle de crises e capacidade de comer, caminhar e interagir. Um diário de eventos e vídeos comparáveis tornam as decisões menos dependentes da memória.
A prevenção baseia-se em testar reprodutores e nunca cruzar dois portadores, pois cada filhote teria risco de 25% de ser afetado. Um portador pode ser manejado em programa responsável com parceiro livre e seleção posterior, preservando diversidade genética. O resultado molecular deve vir de laboratório confiável e ser associado à identificação correta do animal.
ABRAMSON, C. J.; PLATT, S. R.; JAKOBS, C.; et al. L-2-Hydroxyglutaric aciduria in Staffordshire Bull Terriers. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 17, n. 4, p. 551–556, 2003. doi:10.1111/j.1939-1676.2003.tb02477.x.
SHEA, A.; DE RISIO, L.; CARRUTHERS, H.; EKIRI, A.; BELTRAN, E. Clinical features and disease progression of L-2-hydroxyglutaric aciduria in 27 Staffordshire bull terriers. Veterinary Record, v. 179, n. 21, art. 545, 2016. doi:10.1136/vr.103783.