Cachorro andando como bêbado: o que pode causar perda de equilíbrio?
- Felipe Garofallo

- 18 de jul.
- 3 min de leitura
Quando um cachorro começa a cambalear, cair para um lado, andar em círculos ou manter a cabeça inclinada, o tutor pode descrever que ele está “andando como bêbado”. Esse conjunto de sinais indica perda de equilíbrio ou coordenação, mas não define uma única doença. Alterações vestibulares são causas importantes, embora doenças do cerebelo, medula, nervos, músculos, metabolismo e intoxicações também precisem ser consideradas.

O sistema vestibular informa ao cérebro a posição e o movimento da cabeça e ajuda a estabilizar postura e olhos. Quando esse sistema falha, podem surgir inclinação da cabeça, quedas, marcha com base alargada, nistagmo, estrabismo posicional, náusea, salivação e vômito. O cão frequentemente permanece alerta, mas evita mover-se porque a sensação de desequilíbrio é intensa.
A síndrome vestibular pode ser periférica, envolvendo ouvido interno, ouvido médio ou nervo vestibulococlear, ou central, envolvendo tronco encefálico e cerebelo. Essa localização é clínica e orienta exames, prognóstico e urgência. A direção da inclinação da cabeça ou a velocidade do nistagmo, isoladamente, não diferenciam com segurança todos os casos.
Doença vestibular periférica idiopática é frequente em cães mais velhos e costuma começar de forma aguda. Otite média ou interna, doenças congênitas, hipotireoidismo em casos selecionados e lesões do ouvido ou dos nervos cranianos também podem causar sinais periféricos. Chamar o quadro de idiopático exige excluir causas compatíveis com o histórico e o exame, e não significa que todo cão idoso com início súbito tenha essa síndrome.
Sinais que aumentam a preocupação com lesão central incluem alteração do nível de consciência, fraqueza ou déficits de posicionamento nos membros, envolvimento de vários nervos cranianos e incapacidade para caminhar que não se explica apenas pelo desequilíbrio. Inflamação encefálica, neoplasia, infarto, infecção e intoxicação por alguns fármacos estão entre os diagnósticos possíveis. A presença de nistagmo vertical pode apoiar localização central, mas nenhum achado deve ser interpretado fora do exame neurológico completo.
Nem todo andar incoordenado é vestibular. Hipoglicemia, alterações eletrolíticas, anemia grave, doença cardiovascular, intoxicações, fraqueza neuromuscular, dor intensa e doenças ortopédicas múltiplas podem produzir instabilidade ou quedas. O histórico de medicamentos, acesso a substâncias tóxicas, trauma, otites, progressão dos sinais e doenças prévias é essencial para organizar os diferenciais.
O exame avalia consciência, postura, capacidade de ficar em pé, direção das quedas, movimentos oculares, reações posturais, reflexos, força, sensibilidade e nervos cranianos. A otoscopia pode revelar doença do conduto, mas um ouvido externo aparentemente normal não exclui otite média ou interna. Exames de sangue e urina ajudam a pesquisar causas metabólicas e a avaliar segurança para sedação ou tratamentos.
Tomografia é útil para estruturas ósseas do ouvido, enquanto a ressonância magnética avalia melhor encéfalo, nervos cranianos e tecidos moles. Análise do líquido cerebrospinal pode ser indicada quando há suspeita de inflamação ou infecção, embora seus achados não sejam específicos isoladamente. A escolha depende da localização neurológica, da evolução e da estabilidade do paciente.
O tratamento é direcionado à causa e pode incluir controle de náusea, fluidoterapia, suporte nutricional, tratamento de otite, terapia para doença inflamatória ou intervenção específica em neoplasias e outras lesões. Antibióticos não devem ser iniciados automaticamente sem evidência de infecção, e corticoides não são tratamento universal para síndrome vestibular. Na forma idiopática periférica, o suporte é fundamental enquanto se acompanha a melhora espontânea.
Até o atendimento, o cão deve permanecer em área pequena, acolchoada e antiderrapante, longe de escadas, piscinas, sofás e quinas. Não se deve forçá-lo a caminhar, balançar sua cabeça, tentar corrigir a inclinação ou oferecer medicamentos humanos. Para transportá-lo, é mais seguro apoiar tórax e pelve e evitar quedas, mantendo a cabeça em posição confortável.
Atendimento imediato é necessário quando há rebaixamento de consciência, convulsões, dificuldade respiratória, trauma, suspeita de intoxicação, incapacidade de permanecer em pé, vômitos repetidos, desidratação ou piora rápida. Fraqueza progressiva, dor cervical intensa e alterações em vários membros também exigem prioridade. Mesmo um cão alerta com sinais vestibulares agudos deve ser examinado para diferenciar doenças com aparências semelhantes.
O prognóstico varia amplamente com a causa. Muitos cães com síndrome vestibular periférica idiopática melhoram nos primeiros dias, mas inclinação da cabeça, paralisia facial ou ataxia podem persistir e recorrências são possíveis. Ausência de melhora, progressão ou reaparecimento dos sinais exige reavaliação e pode justificar diagnóstico por imagem avançado.
Referência bibliográfica 1: Orlandi R, Gutierrez-Quintana R, Carletti B, et al. Clinical signs, MRI findings and outcome in dogs with peripheral vestibular disease: a retrospective study. BMC Veterinary Research. 2020;16:159. doi:10.1186/s12917-020-02366-8.
Referência bibliográfica 2: Rossmeisl JH Jr, Higgins MA, Inzana KD. Signs of neurologic dysfunction in dogs with central versus peripheral vestibular disease. Journal of the American Veterinary Medical Association. 2005;227(4):570-574. doi:10.2460/javma.2005.227.570.