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Terapia neural em cães: como funciona e o que a ciência diz

A terapia neural é uma técnica originalmente desenvolvida na Alemanha no início do século XX pelos irmãos Huneke e, nas últimas décadas, passou a ser adaptada também para a medicina veterinária.



Embora seja frequentemente confundida com infiltrações com corticoide, ela não utiliza anti-inflamatórios esteroidais e não tem como foco principal a modulação da inflamação articular. Na verdade, sua base teórica está na regulação do sistema nervoso autonômico a partir de estímulos aplicados em estruturas específicas do corpo, como pele, fáscias, cicatrizes, pontos dolorosos e áreas que apresentam algum tipo de disfunção neurovegetativa.


Na prática veterinária, a terapia neural utiliza principalmente procaína em baixas concentrações (geralmente 0,5% a 1%) aplicada de forma estratégica nos tecidos.


A procaína é um anestésico local de ação rápida, mas dentro do conceito da terapia neural ela atua não apenas como um agente de bloqueio neural temporário, e sim como um “reset” funcional do sistema nervoso, visando reorganizar circuitos que estariam perpetuando dor crônica, espasmos musculares, alterações de postura ou distúrbios reflexos. Não se trata de um anestésico para “desligar” a dor momentaneamente, mas de um estímulo terapêutico com intenção regulatória.


A lógica é que, quando o organismo sofre agressões, em traumas, cirurgias, inflamações repetidas, sobrecargas, ansiedade, e dor persistente, determinadas regiões do corpo podem se tornar focos interferentes.


Esses focos funcionariam como pequenas fontes contínuas de estímulos desorganizados para o sistema nervoso, alterando tônus muscular, postura, respostas autonômicas e até a percepção da dor.


A terapia neural tenta “limpar” essas interferências, ajustando circuitos que ficaram “travados” em padrões disfuncionais. Por isso, muitos profissionais trabalham não apenas o local onde o animal manifesta dor, mas também cicatrizes antigas, marcas de cirurgias, áreas de tensão e regiões que se correlacionam com determinado dermátomo.


Em cães, a terapia neural vem sendo utilizada principalmente como parte de um tratamento multimodal para manejo da dor crônica.


Animais com artrose avançada, doenças musculoesqueléticas persistentes, alterações miofasciais ou desconfortos recorrentes após cirurgias podem apresentar resposta favorável. Mesmo assim, a técnica não substitui terapias já consagradas, como analgesia sistêmica, fisioterapia, fortalecimento muscular, controle de peso, infiltrações ortopédicas ou cirurgias corretivas quando são indicadas.


A terapia neural funciona como um complemento, especialmente em casos nos quais há componentes importantes de sensibilização periférica ou central, espasmos musculares secundários e padrões de dor que não melhoram totalmente com o manejo tradicional.


Outro ponto relevante é que a terapia neural pode ajudar em cães com alterações comportamentais relacionadas à dor, como inquietação, lambedura excessiva de um membro, dificuldade em relaxar ou postura protetora.


Esses sinais muitas vezes não estão ligados apenas à estrutura ortopédica comprometida, mas também a mudanças nos circuitos de dor do sistema nervoso. Ao regular essas vias, alguns cães trazem melhora significativa no conforto e na qualidade de vida.


Do ponto de vista da segurança, o método é considerado minimamente invasivo quando realizado por um profissional treinado. Como a procaína é um anestésico local amplamente utilizado, reações adversas são raras, embora possam ocorrer hematomas pequenos, sensibilidade local e, em casos excepcionais, reações alérgicas.


A técnica não é recomendada quando há infecção ativa no local da aplicação ou em animais extremamente sensíveis a anestésicos locais. Também não deve ser encarada como solução única para doenças articulares degenerativas ou para condições que exigem tratamento médico estruturado, como ruptura do ligamento cruzado cranial, luxação de patela, hérnia de disco com déficit neurológico ou displasia coxofemoral avançada.


É importante reforçar que a terapia neural possui evidência científica limitada na medicina veterinária e que seus mecanismos exatos ainda estão em estudo.


Entretanto, na prática clínica, muitos profissionais relatam boa resposta em pacientes com dor crônica, especialmente quando a técnica é usada de forma integrada com fisioterapia, acupuntura, fortalecimento muscular e abordagens que reduzam a sobrecarga mecânica das articulações.


Em casos bem selecionados, ela pode ser uma ferramenta adicional para aliviar o desconforto, melhorar a mobilidade e ajudar o cão a recuperar padrões mais saudáveis de movimento.


De forma geral, a terapia neural não é um substituto para tratamentos ortopédicos consolidados, mas pode ser uma aliada em quadros complexos de dor.


Quando aplicada de maneira criteriosa e dentro de um plano terapêutico completo, ela oferece ao cão uma abordagem complementar capaz de modular o sistema nervoso, reduzir tensões e melhorar o bem-estar, principalmente em pacientes que já tentaram outras terapias sem resultados totalmente satisfatórios.

Referências bibliográficas

Fischer L. Neural Therapy: A Review of the German Literature. Journal of Alternative and Complementary Medicine. 2014.

Luna SP, Angeli AL. Manejo multimodal da dor em cães e gatos. Revista Brasileira de Anestesiologia Veterinária. 2017.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


Horário: Segunda à sexta, 09h às 18h. Sábados 10:00 às 14:00
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