Tendinopatia do supraespinhoso em cães: dor oculta no ombro
A tendinopatia do supraespinhoso é uma possível causa de claudicação crônica do membro torácico, mas achados de imagem também podem existir sem causar sinais. O músculo ocupa a região cranial da escápula e seu tendão insere-se no tubérculo maior do úmero. Espessamento, degeneração e mineralização podem irritar tecidos do ombro ou deslocar medialmente o tendão do bíceps.

A apresentação típica é claudicação unilateral intermitente ou persistente, pior após atividade, com dor cranial no ombro. O passo pode encurtar e o cão evitar extensão do membro. Como diversas doenças produzem sinais semelhantes, palpação dolorosa isolada não confirma o diagnóstico.
O exame ortopédico compara os dois membros e avalia pescoço, cotovelo, bíceps, supraespinhoso e estabilidade do ombro. Dor durante flexão ou extensão pode ser inespecífica. Alterações bilaterais na imagem são possíveis mesmo quando apenas um lado manca, por isso a correlação clínica é indispensável.
Radiografias identificam mineralização junto ao tubérculo maior, mas não excluem a forma não mineralizada e não provam que o depósito seja doloroso. Ultrassonografia avalia espessura, arquitetura das fibras, vascularização e relação com o bíceps. Ressonância magnética fornece visão mais ampla de tendões, músculos e articulação.
Na série de 24 cães tratados cirurgicamente, ultrassonografia ou ressonância mostraram aumento do tendão, maior conteúdo líquido e deslocamento medial do bíceps com frequência. Histopatologia revelou degeneração mixomatosa ou metaplasia cartilaginosa em muitos casos. Esses dados apoiam a natureza degenerativa, mas não dispensam exclusão de outras causas.
O tratamento inicial pode incluir atividade controlada, controle de peso, analgesia prescrita e reabilitação progressiva. Ondas de choque, injeções guiadas e outras terapias são usadas em alguns centros, porém protocolos e evidência variam. Corticoide intratendíneo pode enfraquecer tecido e não deve ser aplicado de forma empírica.
Cirurgia é considerada quando a lesão é compatível com a dor e o manejo conservador falha, especialmente com compressão do bíceps ou tecido degenerado relevante. A técnica pode envolver ressecção do segmento alterado, liberação ou tratamento de estruturas associadas. A decisão precisa ser baseada em diagnóstico completo, não apenas na presença de mineralização.
Após tratamento, o tendão precisa de carga progressiva para remodelar sem sobrecarga. Repouso absoluto prolongado favorece perda muscular, enquanto retorno precoce a corrida ou salto aumenta risco de recorrência. Reavaliações clínicas e por imagem orientam cada fase.
O prognóstico pode ser bom quando a fonte de dor foi corretamente identificada. No estudo cirúrgico de 24 cães, 16 tiveram resultado funcional bom a excelente e três tiveram resultado ruim entre os animais com acompanhamento disponível. Doença concomitante do bíceps ou outra articulação pode limitar a recuperação.
Claudicação do membro torácico por semanas merece avaliação direcionada mesmo quando radiografias iniciais são normais. Não massageie profundamente nem force o ombro dolorido. Diagnóstico anatômico preciso evita tratar uma alteração incidental e ignorar a verdadeira causa.
Referência bibliográfica: Lafuente MP, Fransson BA, Lincoln JD, et al. Surgical treatment of mineralized and nonmineralized supraspinatus tendinopathy in twenty-four dogs. Veterinary Surgery. 2009;38(3):380-387. doi:10.1111/j.1532-950X.2009.00512.x. PMID:19573103.
Referência bibliográfica: Piras LA et al. Surgical treatment of nonmineralized supraspinatus tendinopathy in dogs: a retrospective long-term follow-up. Animals. 2023;13(4):592. doi:10.3390/ani13040592.
