Seroma em cães após cirurgia: é normal?
- Felipe Garofallo

- 11 de mai.
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Atualizado: 22 de mai.
O aparecimento de um aumento de volume próximo à região da cirurgia é uma das situações que mais preocupam os tutores durante o pós-operatório de cães.

Em muitos casos, esse inchaço corresponde a um seroma, uma complicação relativamente comum após procedimentos cirúrgicos e que, na maioria das vezes, não representa uma emergência grave.
Ainda assim, o problema deve ser acompanhado de perto, já que outras complicações podem apresentar aspecto semelhante, incluindo infecções, hematomas e falhas na cicatrização.
O seroma é caracterizado pelo acúmulo de líquido inflamatório sob a pele, geralmente em áreas onde houve descolamento de tecidos durante a cirurgia.
Esse líquido costuma ter aspecto amarelado ou transparente e se forma devido à reação inflamatória natural do organismo após o trauma cirúrgico.
Quanto maior a manipulação dos tecidos, maior tende a ser o espaço morto criado entre as camadas, favorecendo o acúmulo de líquido no local.
Em cães, os seromas podem surgir após diversos tipos de procedimentos, incluindo cirurgias ortopédicas, mastectomias, remoção de tumores, cirurgias abdominais e procedimentos reconstrutivos.
Em cirurgias ortopédicas, principalmente em membros pélvicos, joelho e quadril, a movimentação constante da região pode favorecer ainda mais o desenvolvimento desse acúmulo de líquido durante o processo de cicatrização.
Na maior parte das vezes, o tutor percebe um inchaço macio próximo à incisão cirúrgica alguns dias após o procedimento. Diferentemente de abscessos ou infecções mais severas, o seroma normalmente não apresenta secreção purulenta, odor forte ou dor intensa à palpação.
Muitos cães continuam ativos e aparentemente confortáveis, apesar da presença do aumento de volume. Ainda assim, alguns pacientes podem demonstrar desconforto local, sensibilidade ou lambedura excessiva da região.
Embora o seroma seja relativamente comum, ele não deve ser considerado “normal” no sentido de ser desejável. O ideal é sempre minimizar sua ocorrência por meio de técnica cirúrgica cuidadosa, redução de espaço morto, suturas adequadas e manejo correto do pós-operatório.
Entretanto, mesmo em cirurgias realizadas de forma adequada, alguns cães podem desenvolver seroma devido a fatores individuais, movimentação excessiva, predisposição inflamatória ou dificuldade em manter repouso.
A movimentação excessiva durante a recuperação é uma das principais causas associadas ao desenvolvimento do problema.
Muitos cães começam a correr, pular ou brincar antes do período recomendado, aumentando o atrito entre os tecidos ainda em cicatrização. Isso estimula a produção contínua de líquido inflamatório e dificulta a aderência adequada das camadas internas da cirurgia.
Em procedimentos ortopédicos, esse risco costuma ser ainda maior devido à dificuldade em restringir completamente a atividade do animal.
O diagnóstico geralmente é realizado por meio da avaliação clínica. Em muitos casos, o veterinário consegue identificar o seroma apenas pelo histórico, localização e características do aumento de volume.
Quando existe dúvida, exames complementares como ultrassonografia ou coleta do conteúdo podem ser indicados para diferenciar o seroma de outras complicações, como hematomas e infecções.
O tratamento depende do tamanho do seroma, do desconforto do paciente e da evolução clínica. Pequenos seromas frequentemente são absorvidos naturalmente pelo organismo ao longo de dias ou semanas, sem necessidade de drenagem.
Nesses casos, repouso adequado e monitoramento costumam ser suficientes. Em situações maiores, persistentes ou que causem desconforto significativo, o veterinário pode optar pela drenagem do líquido, uso de bandagens compressivas ou colocação de drenos específicos.
A drenagem repetida nem sempre é indicada, já que múltiplas punções podem aumentar o risco de contaminação bacteriana e favorecer infecções secundárias.
Por isso, cada caso deve ser avaliado individualmente. Em algumas situações, o organismo reabsorve o líquido gradualmente sem necessidade de intervenção mais invasiva.
A prevenção continua sendo uma das partes mais importantes do manejo pós-operatório. O uso correto do colar elizabetano, o controle rigoroso das atividades físicas e o seguimento adequado das orientações veterinárias fazem grande diferença na recuperação.
Em cães muito ativos, o repouso restrito costuma ser um dos maiores desafios para evitar complicações desse tipo.
Quando o aumento de volume apresenta calor excessivo, vermelhidão intensa, secreção purulenta, dor importante ou alteração no estado geral do animal, a possibilidade de infecção deve ser considerada imediatamente.
Nesses casos, o acompanhamento veterinário rápido é fundamental para evitar agravamento do quadro e possíveis complicações na cicatrização.
Apesar da preocupação que costuma causar nos tutores, a maioria dos seromas apresenta boa evolução quando manejada corretamente.
O acompanhamento próximo durante o pós-operatório permite identificar alterações precocemente e aumentar as chances de recuperação adequada, especialmente em pacientes submetidos a cirurgias ortopédicas e procedimentos de maior porte.
Referências bibliográficas
FOSSUM, T. W. Small Animal Surgery. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2018.
SLATTER, D. Textbook of Small Animal Surgery. 3. ed. Philadelphia: Saunders Elsevier, 2003.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.