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Ruptura de ligamento cruzado em cães obesos

A ruptura do ligamento cruzado cranial é uma das doenças ortopédicas mais comuns na rotina veterinária de pequenos animais, especialmente em cães de médio e grande porte.



Entre os diversos fatores envolvidos no desenvolvimento dessa condição, a obesidade tem um papel extremamente importante, tanto no surgimento da lesão quanto na piora do quadro clínico e na recuperação pós-operatória.


O excesso de peso aumenta significativamente a sobrecarga sobre a articulação do joelho, favorecendo processos degenerativos progressivos no ligamento cruzado cranial e acelerando alterações inflamatórias dentro da articulação.


Diferente do que muitas pessoas imaginam, a ruptura do ligamento cruzado raramente acontece apenas por um trauma agudo isolado.


Em grande parte dos casos, principalmente em cães obesos, existe um processo degenerativo crônico acontecendo ao longo de meses ou até anos.


O ligamento vai perdendo resistência gradualmente devido à combinação entre inflamação articular, instabilidade biomecânica e sobrecarga constante. Em determinado momento, um movimento simples como correr, subir em um sofá ou escorregar no piso pode ser suficiente para causar a ruptura parcial ou total.


Nos cães obesos, o joelho sofre uma pressão muito maior durante a movimentação. Isso ocorre porque o peso corporal excessivo altera a distribuição das forças sobre a articulação femorotibial.


A cada passo, o ligamento cruzado cranial precisa suportar cargas maiores para impedir o deslocamento cranial da tíbia em relação ao fêmur. Com o tempo, essa exigência biomecânica excessiva favorece microlesões repetitivas, degeneração das fibras ligamentares e inflamação articular persistente.


Além da sobrecarga mecânica, a obesidade também está relacionada a um estado inflamatório sistêmico. O tecido adiposo não funciona apenas como depósito de gordura; ele produz diversas substâncias inflamatórias chamadas adipocinas.


Essas moléculas contribuem para a degeneração articular, aumento da inflamação sinovial e piora da osteoartrite. Dessa forma, cães obesos apresentam um ambiente biológico mais propenso ao desgaste articular progressivo. Os sinais clínicos podem surgir de maneira súbita ou gradual.


Muitos tutores relatam que o cão começou a mancar após uma corrida, brincadeira ou salto, mas frequentemente já existia um processo degenerativo anterior.


A claudicação normalmente acomete um dos membros pélvicos inicialmente, embora seja bastante comum que o joelho contralateral também desenvolva ruptura futuramente, especialmente em cães obesos.


Em alguns casos, o animal apresenta dificuldade para levantar, relutância para subir escadas, intolerância ao exercício, dor ao caminhar e redução importante da atividade física.


Durante o exame ortopédico, o veterinário pode identificar instabilidade articular através de testes específicos, como o movimento de gaveta cranial e o teste de compressão tibial.


Em muitos cães obesos, no entanto, o excesso de gordura e musculatura pode dificultar a palpação da instabilidade, principalmente quando existe tensão muscular causada pela dor.


Os exames radiográficos auxiliam na avaliação das alterações secundárias, como efusão articular, osteófitos e sinais de osteoartrite, embora não mostrem diretamente o ligamento rompido.


Em alguns casos, exames avançados como ultrassonografia ou ressonância magnética podem ser utilizados.


O tratamento depende de diversos fatores, incluindo porte do animal, grau de instabilidade, nível de dor, presença de osteoartrite e condição corporal. Em cães obesos, o manejo do peso é uma parte essencial do tratamento e influencia diretamente o prognóstico.


Mesmo após a cirurgia, se o animal permanecer acima do peso ideal, haverá maior sobrecarga sobre o joelho operado e maior risco de lesão no membro contralateral.


Embora alguns cães pequenos possam apresentar melhora parcial com tratamento conservador, a maioria dos cães de médio e grande porte necessita de estabilização cirúrgica. Entre as técnicas mais utilizadas atualmente, está a cirurgia de TPLO.


A escolha do procedimento depende da avaliação ortopédica individual de cada paciente, do ângulo do platô tibial, do porte do animal e da experiência do cirurgião. Em cães obesos, o planejamento cirúrgico cuidadoso é ainda mais importante devido ao aumento das forças biomecânicas sobre o implante e sobre a articulação.


O pós-operatório em cães obesos costuma exigir atenção redobrada. O excesso de peso pode dificultar a recuperação funcional, aumentar o risco de inflamação persistente e favorecer complicações como sobrecarga do membro contralateral.


A fisioterapia veterinária desempenha papel fundamental nesse processo, ajudando no fortalecimento muscular, controle da dor, melhora da mobilidade articular e recuperação da marcha.


Exercícios controlados, hidroterapia e programas de reabilitação individualizados costumam trazer excelentes resultados.


Outro ponto importante é que muitos cães obesos desenvolvem perda muscular significativa, principalmente nos membros pélvicos. Esse quadro reduz ainda mais a estabilidade natural do joelho e piora a biomecânica locomotora. Por isso, além da perda de peso, o fortalecimento muscular progressivo faz parte do tratamento global da doença.


A prevenção da ruptura do ligamento cruzado em cães obesos passa principalmente pelo controle do peso corporal ao longo da vida.


Dieta equilibrada, exercícios regulares e acompanhamento veterinário são fundamentais para reduzir o risco de desenvolvimento da doença.


Manter o cão em condição corporal adequada diminui a sobrecarga articular, melhora a mobilidade e reduz processos inflamatórios associados à obesidade.


Atualmente, sabe-se que a ruptura do ligamento cruzado não deve ser encarada apenas como uma lesão traumática isolada, mas sim como uma doença articular multifatorial e progressiva.


Nos cães obesos, essa relação torna-se ainda mais evidente, já que o excesso de peso influencia diretamente tanto os fatores mecânicos quanto os fatores inflamatórios envolvidos na degeneração ligamentar.


O diagnóstico precoce, associado ao tratamento cirúrgico adequado, controle rigoroso do peso e fisioterapia, é essencial para proporcionar melhor qualidade de vida e recuperação funcional ao paciente.


Referências bibliográficas


FOSSUM, Theresa Welch. Cirurgia de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.


PIERMATTEI, Donald L.; FLO, Gretchen L.; DECAMP, Charles E. Brinker, Piermattei and Flo's Handbook of Small Animal Orthopedics and Fracture Repair. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2016.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


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