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Quando não operar ruptura de ligamento em cães?

A decisão de não operar uma ruptura do ligamento cruzado cranial (LCCr) em cães não deve ser encarada como omissão terapêutica, mas sim como uma escolha clínica criteriosa baseada na avaliação global do paciente, do contexto do tutor e da expectativa real de resultado.



Embora técnicas como TPLO, TTA e suturas extracapsulares tenham revolucionado o tratamento e proporcionem excelentes resultados na maioria dos casos, há situações em que a abordagem conservadora pode ser mais adequada, seja de forma temporária ou definitiva.


Um dos principais cenários em que se opta por não realizar cirurgia é quando o paciente apresenta comorbidades significativas que aumentam substancialmente o risco anestésico e cirúrgico.


Cães com doença cardíaca avançada, insuficiência renal crônica em estágios mais avançados, alterações hepáticas importantes ou neoplasias sistêmicas podem não tolerar adequadamente o estresse anestésico, a inflamação pós-operatória ou possíveis complicações.


Nesses casos, mesmo que a cirurgia ortopédica tenha potencial de melhorar a função do membro, o risco global pode superar o benefício, tornando a estabilização clínica e o manejo conservador opções mais seguras.


Outro contexto relevante envolve pacientes geriátricos com baixa demanda funcional. Cães muito idosos, com nível de atividade reduzido e que já apresentam outras limitações locomotoras, muitas vezes conseguem se adaptar razoavelmente bem à instabilidade do joelho com medidas conservadoras.


Embora não haja restauração completa da biomecânica articular, o objetivo nesses casos passa a ser o conforto, e não necessariamente o retorno à função plena.


A resposta ao tratamento clínico, nesses pacientes, pode ser surpreendentemente satisfatória quando há controle adequado da dor, do peso corporal e da atividade física. Cães de pequeno porte representam outro grupo em que a indicação cirúrgica pode ser mais relativa.


Animais com menos de 10 kg, especialmente aqueles com ruptura parcial ou instabilidade leve, podem evoluir bem com tratamento conservador. Isso ocorre porque as forças biomecânicas sobre o joelho são menores, o que permite que a musculatura periarticular contribua de forma mais eficaz para a estabilização funcional do membro.


Ainda assim, essa não é uma regra absoluta, e a decisão deve considerar fatores como grau de instabilidade, presença de dor persistente e evolução clínica ao longo das semanas.

A ruptura parcial do ligamento cruzado cranial também pode justificar, em determinados casos, a tentativa inicial de tratamento não cirúrgico. Quando ainda há integridade parcial das fibras ligamentares e o teste de gaveta ou compressão tibial é discreto, pode-se optar por um período de manejo conservador, com restrição de atividade, uso de anti-inflamatórios, analgésicos e fisioterapia. Contudo, é importante destacar que muitos desses casos evoluem para ruptura completa ao longo do tempo, exigindo acompanhamento próximo e reavaliações frequentes.

A obesidade é um fator crítico que interfere diretamente na decisão cirúrgica. Embora seja um fator de risco importante para a ruptura do LCCr e para a progressão da osteoartrite, operar um animal obeso sem controle prévio de peso pode comprometer significativamente o resultado cirúrgico e aumentar a chance de complicações. Em alguns casos específicos, pode ser mais prudente adiar a cirurgia e focar inicialmente na redução do peso corporal, fortalecendo musculatura e melhorando as condições gerais do paciente antes de considerar a intervenção.

Existem também situações em que a decisão de não operar está relacionada a limitações financeiras ou à impossibilidade de realizar o pós-operatório adequado. Cirurgias como TPLO exigem não apenas investimento financeiro, mas também um comprometimento rigoroso com restrição de atividade, reavaliações e, idealmente, fisioterapia. Quando o responsável pelo animal não consegue garantir esse manejo, a cirurgia pode não alcançar o resultado esperado, e o tratamento conservador bem conduzido pode oferecer melhor qualidade de vida do que uma cirurgia seguida de um pós-operatório inadequado.

Além disso, casos com osteoartrite avançada já instalada antes mesmo da ruptura completa podem apresentar ganhos funcionais mais limitados após a cirurgia.


Embora a estabilização do joelho ainda possa reduzir dor e progressão da doença, há situações em que o grau de degeneração articular é tão elevado que o benefício marginal da cirurgia é questionável, especialmente quando associado a outros fatores de risco.

Por fim, é importante considerar que a decisão de não operar não significa ausência de tratamento.


O manejo conservador deve ser ativo e estruturado, incluindo controle rigoroso da dor com analgésicos multimodais, uso criterioso de anti-inflamatórios, fisioterapia, fortalecimento muscular, suplementação condroprotetora quando indicado e, principalmente, controle de peso.


A reavaliação periódica é essencial para identificar casos que não evoluem bem e que possam, posteriormente, se beneficiar de intervenção cirúrgica.

Em resumo, não operar uma ruptura de ligamento cruzado cranial em cães pode ser a melhor escolha em pacientes com alto risco anestésico, baixa demanda funcional, pequeno porte com instabilidade leve, rupturas parciais, obesidade não controlada, limitações no pós-operatório ou osteoartrite avançada.


A chave está em individualizar cada caso, equilibrando risco, benefício e expectativa realista de recuperação, sempre com foco no bem-estar do paciente.

Referências bibliográficas:

FOSSUM, T. W. Small Animal Surgery. 5th ed. St. Louis: Elsevier, 2019.

COOK, J. L.; STULL, M. W.; BROWN, D. C. Clinical outcomes associated with the initial management of cranial cruciate ligament rupture in dogs: a systematic review. Veterinary Surgery, v. 49, n. 1, p. 19–30, 2020.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


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