top of page

Quando a cirurgia é indicada na displasia coxofemoral

A indicação cirúrgica na displasia coxofemoral em cães não depende apenas da presença da doença, mas do impacto funcional que ela provoca na vida do animal. A displasia é uma condição de desenvolvimento da articulação do quadril, caracterizada por incongruência articular, frouxidão ligamentar e, com o passar do tempo, evolução para osteoartrose.



Muitos cães apresentam alterações radiográficas compatíveis com displasia, mas nem todos desenvolvem dor significativa ou limitação funcional a ponto de justificar uma cirurgia. Por isso, a decisão cirúrgica deve sempre considerar o conjunto entre sinais clínicos, idade, grau de desconforto, resposta ao tratamento conservador e expectativas do tutor.


A cirurgia passa a ser considerada quando a dor e a limitação de movimento persistem apesar do manejo clínico adequado.


O tratamento conservador inclui controle de peso, restrição de atividades de alto impacto, fisioterapia, uso criterioso de analgésicos e anti-inflamatórios, além de condroprotetores e, mais recentemente, terapias biológicas.


Quando, mesmo com essas medidas, o cão continua apresentando claudicação frequente, dificuldade para se levantar, intolerância ao exercício ou alterações comportamentais relacionadas à dor, a cirurgia deixa de ser uma opção extrema e passa a ser uma alternativa lógica para devolver qualidade de vida.


A idade do paciente influencia diretamente na escolha do procedimento, mas não é, isoladamente, um critério absoluto para indicar ou contraindicar a cirurgia.


Em cães jovens, especialmente antes do desenvolvimento avançado de artrose, podem ser indicados procedimentos que visam modificar a biomecânica da articulação, como osteotomias pélvicas, desde que o diagnóstico seja precoce e o paciente atenda a critérios bem específicos.


Enquanto isso, em cães adultos ou idosos, nos quais a artrose já está instalada, o objetivo cirúrgico deixa de ser preservar a articulação e passa a ser aliviar a dor e restaurar a função, seja por meio da colocefalectomia ou da prótese total de quadril.


Outro ponto fundamental é a correlação entre exame clínico e exames de imagem. Radiografias com alterações importantes nem sempre significam dor intensa, assim como cães com alterações radiográficas discretas podem apresentar sinais clínicos severos.


A cirurgia é indicada quando existe coerência entre achados clínicos e radiográficos, ou seja, quando a dor, a limitação funcional e a instabilidade articular observadas no exame físico são compatíveis com as alterações vistas nos exames de imagem. A decisão não deve ser baseada apenas no laudo radiográfico, mas sim na avaliação ortopédica completa do paciente.


A indicação cirúrgica também leva em conta o porte do animal, o nível de atividade e o ambiente em que ele vive. Cães de médio e grande porte, ativos ou que vivem em ambientes com escadas e pisos escorregadios, tendem a sofrer mais com a instabilidade do quadril e com a progressão da artrose.


Nesses casos, a cirurgia pode trazer benefícios mais evidentes quando comparada ao tratamento exclusivamente clínico. Já em cães muito pequenos, sedentários ou com adaptação funcional satisfatória, o manejo conservador pode ser suficiente por longos períodos.


É importante destacar que a cirurgia não é indicada apenas quando o quadro se torna insuportável. Esperar a dor se tornar extrema pode dificultar a reabilitação e comprometer os resultados.


Em muitos pacientes, a indicação cirúrgica ocorre quando há perda progressiva de função e necessidade crescente de medicações para controle da dor, sinalizando que o tratamento clínico está se tornando insuficiente. Nesses casos, a cirurgia pode interromper um ciclo de dor crônica e permitir uma recuperação funcional mais previsível.


Por fim, a decisão pela cirurgia deve ser individualizada e compartilhada com o tutor, levando em conta expectativas realistas, tempo de recuperação, necessidade de fisioterapia e impacto na rotina familiar.


O objetivo principal nunca é apenas “corrigir o quadril”, mas devolver conforto, mobilidade e qualidade de vida ao cão. Quando bem indicada, a cirurgia para displasia coxofemoral não representa um último recurso, mas sim uma ferramenta eficaz dentro de um plano terapêutico bem estruturado.


Referências bibliográficas


Fossum, T. W. Small Animal Surgery. Elsevier, 5ª edição.


Piermattei, D. L., Flo, G. L., DeCamp, C. E. Brinker, Piermattei and Flo’s Handbook of Small Animal Orthopedics and Fracture Repair. Elsevier, 5ª edição.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


Horário: Segunda à sexta, 09h às 18h. Sábados 10:00 às 14:00
Whatsapp: (11)97522-5102
Endereço: Alameda dos Guaramomis, 1067, Moema, São Paulo, SP

bottom of page