Quais raças de cães têm maior risco de displasia coxofemoral?
- Felipe Garofallo

- 30 de jan.
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A displasia coxofemoral é uma das doenças ortopédicas mais conhecidas e também mais temidas na medicina veterinária, especialmente quando falamos de cães de médio e grande porte.

Trata-se de uma condição de desenvolvimento da articulação do quadril, na qual há incongruência entre a cabeça do fêmur e o acetábulo, resultando em instabilidade articular, inflamação progressiva e, com o tempo, artrose.
Embora fatores ambientais tenham papel importante, como alimentação, ganho de peso e tipo de atividade física durante o crescimento, a genética é o principal fator determinante do risco de um cão desenvolver displasia coxofemoral. Por isso, algumas raças apresentam uma predisposição muito maior do que outras.
Entre as raças mais associadas à displasia coxofemoral estão os cães de grande porte e crescimento rápido. O Pastor Alemão é, historicamente, uma das raças mais citadas nos estudos sobre o tema. Sua conformação corporal, associada à seleção genética inadequada ao longo de décadas, fez com que a displasia se tornasse relativamente comum dentro da raça.
Labradores e Golden Retrievers também figuram entre as raças com alto risco, especialmente porque são cães populares, com grande variabilidade genética e, muitas vezes, reprodução sem controle rigoroso. Nesses cães, a doença pode se manifestar ainda jovens, com sinais sutis, ou apenas na fase adulta, quando a artrose já está instalada.
Rottweilers, Bernese Mountain Dogs, Mastiffs, Dogues Alemães e São Bernardos também apresentam risco elevado. Esses cães costumam ganhar peso rapidamente nos primeiros meses de vida, o que sobrecarrega uma articulação do quadril que ainda está em formação.
Quando existe frouxidão ligamentar associada, o movimento repetitivo leva a microtraumas constantes, acelerando o processo degenerativo. Em raças gigantes, mesmo pequenas alterações anatômicas podem resultar em consequências clínicas importantes, devido à carga mecânica envolvida.
Cães de porte médio também não estão livres da displasia coxofemoral. O Bulldog Inglês e o Bulldog Francês, por exemplo, apesar de não serem grandes, apresentam alta incidência da doença.
Nesses casos, a conformação corporal típica da raça, com membros posteriores mais curtos, pelve alterada e musculatura específica, contribui para o desenvolvimento de alterações no quadril. O mesmo pode ocorrer em raças como Chow Chow e Shar Pei, nas quais fatores genéticos e estruturais desempenham papel central.
É importante destacar que a displasia coxofemoral não é exclusiva de cães de raça pura. Cães sem raça definida, especialmente aqueles que atingem porte médio ou grande, também podem desenvolver a doença, principalmente quando descendem de raças predispostas.
A ausência de um pedigree não elimina o risco genético, apenas o torna menos previsível. Por isso, a avaliação clínica e radiográfica continua sendo fundamental, independentemente da origem do animal.
Outro ponto relevante é que o fato de uma raça ter maior risco não significa que todos os cães daquela raça desenvolverão displasia coxofemoral.
Muitos animais vivem toda a vida sem sinais clínicos importantes, enquanto outros manifestam dor, claudicação e limitação funcional desde cedo. A diferença está na combinação entre genética, manejo nutricional, controle de peso, tipo de exercício e diagnóstico precoce.
Cães pertencentes a raças de risco se beneficiam enormemente de acompanhamento veterinário desde filhotes, com orientações específicas para crescimento saudável e, quando indicado, exames de imagem preventivos.
Compreender quais raças têm maior predisposição à displasia coxofemoral ajuda tutores e veterinários a adotarem uma postura mais preventiva, identificando sinais iniciais da doença antes que o quadro se torne irreversível.
Quanto mais cedo o problema é reconhecido, maiores são as possibilidades de controle da dor, preservação da função articular e escolha do melhor tratamento, que pode variar desde manejo clínico até intervenções cirúrgicas mais avançadas, dependendo do estágio da doença e das características individuais de cada cão.
Referências bibliográficas
Smith GK, Karbe GT, Agnello KA, McDonald-Lynch MB. Pathogenesis, diagnosis, and control of canine hip dysplasia. In: Tobias KM, Johnston SA (eds). Veterinary Surgery: Small Animal. Elsevier; 2018.
Genevois JP, Cachon T, Fau D, Carozzo C, Viguier E, Collard F. Canine hip dysplasia radiographic screening: prevalence of large breed dogs. Veterinary Radiology & Ultrasound. 2008;49(6):490–496.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.