top of page

Por que o cachorro rompe o ligamento cruzado? Entenda as causas

A ruptura do ligamento cruzado cranial é uma das doenças ortopédicas mais comuns em cães e uma das principais causas de dor, claudicação e dificuldade para apoiar a pata traseira.



Muitos tutores acreditam que o problema acontece apenas porque o cachorro correu demais, pulou errado ou sofreu algum acidente, mas a realidade costuma ser diferente.


Em grande parte dos casos, o ligamento cruzado não rompe exclusivamente por um trauma agudo. Na verdade, a maioria dos cães desenvolve uma degeneração progressiva do ligamento ao longo do tempo, até que ele enfraquece o suficiente para sofrer uma ruptura parcial ou completa.


O ligamento cruzado cranial é uma estrutura localizada dentro da articulação do joelho e tem função extremamente importante na estabilidade do membro posterior. Ele impede que a tíbia deslize excessivamente para frente em relação ao fêmur, além de controlar movimentos rotacionais e hiperextensão do joelho.


Quando esse ligamento perde sua integridade, a articulação se torna instável, gerando dor, inflamação, desgaste da cartilagem e, com o tempo, artrose progressiva.


Ao contrário do que ocorre frequentemente em humanos, nos quais a ruptura do ligamento cruzado costuma estar associada a traumas esportivos intensos, nos cães o problema geralmente é degenerativo. Isso significa que o ligamento vai sofrendo pequenas alterações microscópicas ao longo dos meses ou anos.


Inflamação crônica, perda da qualidade das fibras colágenas e desgaste progressivo tornam o tecido mais frágil até que uma atividade aparentemente simples, como subir um degrau, correr no quintal ou pular do sofá, seja o suficiente para desencadear a ruptura.


A predisposição genética é um dos fatores mais importantes envolvidos nesse processo. Algumas raças apresentam risco significativamente maior de desenvolver ruptura do ligamento cruzado, sugerindo forte influência hereditária.


Raças como Labrador Retriever, Rottweiler, Golden Retriever, Bulldog Francês, Bulldog Inglês e American Staffordshire Terrier aparecem frequentemente entre as mais acometidas.


Em muitos desses cães, existe uma combinação entre predisposição genética e características anatômicas que favorecem maior estresse sobre o joelho.


A anatomia do membro posterior também exerce influência importante. Alguns cães possuem alterações biomecânicas no ângulo do platô tibial, conformação dos membros ou alinhamento articular que aumentam continuamente a tensão sobre o ligamento cruzado.


Isso faz com que o joelho trabalhe sob uma carga excessiva durante toda a vida, acelerando o desgaste da estrutura ligamentar. Em termos simples, é como se algumas articulações fossem naturalmente mais “exigidas” biomecanicamente do que outras.


O excesso de peso é outro dos principais fatores associados à ruptura do ligamento cruzado em cães. A obesidade aumenta significativamente a carga exercida sobre os joelhos a cada passo, favorecendo inflamação articular e degeneração precoce do ligamento.


Além da sobrecarga mecânica, o tecido adiposo produz substâncias inflamatórias que podem agravar processos degenerativos nas articulações. Por isso, cães acima do peso apresentam risco consideravelmente maior tanto para desenvolver ruptura quanto para ter recuperação mais lenta após cirurgia.


A idade também influencia bastante. Embora cães jovens possam sofrer ruptura ligamentar, especialmente após traumas ou predisposição anatômica importante, a maioria dos casos ocorre em cães adultos ou de meia-idade.


Com o passar do tempo, o ligamento naturalmente sofre desgaste e perde parte de sua resistência, tornando-se mais suscetível à ruptura.


Ainda assim, cães muito ativos e esportistas também podem apresentar lesões mais precoces.

Outro aspecto importante é que muitos cães não sofrem uma ruptura completa de forma imediata. Em vários casos, ocorre inicialmente uma ruptura parcial do ligamento cruzado.


O tutor pode perceber episódios intermitentes de mancar, dificuldade para levantar ou apoio irregular da pata, com melhora temporária após repouso. Como os sinais podem parecer leves no começo, muitos pacientes só chegam ao veterinário quando ocorre a ruptura completa, resultando em dor mais intensa e incapacidade evidente de apoiar o membro.


As inflamações articulares crônicas também podem contribuir para o problema. Algumas doenças inflamatórias do joelho alteram o ambiente dentro da articulação, enfraquecendo progressivamente o ligamento cruzado.


Esse ciclo é complexo: a inflamação prejudica o ligamento, a instabilidade piora a inflamação, e o joelho entra em um processo contínuo de degeneração e artrose.


Um detalhe importante que muitos tutores desconhecem é que cães que rompem o ligamento cruzado de um joelho possuem alto risco de desenvolver o mesmo problema no outro membro.


Estudos mostram que uma parcela significativa dos pacientes acaba rompendo o ligamento contralateral ao longo dos meses ou anos seguintes. Isso acontece porque os fatores predisponentes, como genética, anatomia e excesso de peso, continuam presentes.


Os sinais mais comuns de ruptura do ligamento cruzado incluem claudicação súbita do membro posterior, dificuldade para apoiar a pata, dor ao levantar, relutância para correr ou subir escadas, dificuldade para sentar corretamente e perda muscular da coxa com o passar do tempo.


Em alguns cães, o início parece abrupto; em outros, os sinais são graduais e progressivos.

Embora nem sempre seja possível prevenir completamente a ruptura do ligamento cruzado, algumas medidas podem reduzir o risco.


Manter o peso ideal, estimular atividade física regular e controlada, evitar obesidade e buscar avaliação ortopédica precoce diante de qualquer sinal de claudicação são atitudes que podem fazer diferença importante.


Quanto mais cedo o diagnóstico acontece, maiores costumam ser as chances de controle da dor, preservação articular e recuperação funcional adequada.


No fim das contas, o ligamento cruzado rompe em cães por uma combinação de fatores, e não apenas por um único evento traumático. Em muitos pacientes, o problema vinha se desenvolvendo silenciosamente muito antes dos primeiros sintomas aparecerem.


Entender isso ajuda os tutores a reconhecerem sinais precoces e procurarem atendimento antes que a instabilidade do joelho evolua para dor intensa e artrose avançada.


Referências bibliográficas


Small Animal Surgery. Fossum, T. W. Small Animal Surgery. 4th ed. St. Louis: Mosby Elsevier, 2013.


Canine Sports Medicine and Rehabilitation. Millis, D. L.; Levine, D. Canine Sports Medicine and Rehabilitation. 2nd ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2014.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.



Receba orientações, novidades e conteúdos veterinários no seu e-mail.

Horário: Segunda à sexta, 11h às 18h. Sábados 10:00 às 14:00
Whatsapp: (11)97522-5102
Endereço: Alameda dos Guaramomis, 1067, Moema, São Paulo, SP

bottom of page