Por que meu cachorro para durante o passeio?
- Felipe Garofallo

- 11 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Essa é uma das dúvidas mais comuns entre tutores, e a resposta quase nunca é simples. Muitos acreditam que o cão está apenas “teimoso”, cansado ou distraído, mas a verdade é que parar durante o passeio é um sinal clínico importante, que pode indicar desde questões comportamentais leves até doenças ortopédicas, neurológicas, cardíacas ou sistêmicas.

Para entender o que está acontecendo, é preciso observar o contexto, a frequência, a intensidade e principalmente, os demais sinais que acompanham essa parada repentina.
Cães naturalmente gostam de explorar o ambiente, sentir cheiros e se movimentar.
Por isso, quando um animal saudável reduz o ritmo ou passa a parar com frequência durante o passeio, esse comportamento costuma sinalizar que algo está causando dor, limitação física, desconforto ou fadiga.
Entre as causas mais comuns, a dor ortopédica ocupa um papel de destaque. Lesões no joelho, como ruptura parcial do ligamento cruzado cranial, tendinopatias, luxação de patela, artrose em quadril ou osteocondrite no ombro podem causar dor progressiva durante a caminhada, fazendo o cão andar normalmente nos primeiros minutos e, depois de um certo tempo, começar a parar, sentar ou olhar para trás com incômodo.
Esse comportamento acontece porque a dor articular tende a aumentar com a repetição do movimento, especialmente em subidas, descidas e superfícies irregulares.
Outro ponto importante é a dor muscular. Cães sedentários, acima do peso, idosos ou em processo de perda de massa muscular podem desenvolver fadiga tardia, que se manifesta justamente durante o passeio. Eles começam bem, mas conforme os músculos se desgastam e acumulam ácido lático, ficam mais lentos, puxam menos a guia e podem simplesmente parar para descansar.
Em casos assim, muitos tutores relatam que o animal “trava”, fica imóvel ou tenta deitar no meio do caminho. Não é má vontade, é o corpo pedindo uma pausa.
A dor na coluna também é uma causa subestimada. Em cães com alterações lombares, como doença do disco intervertebral, protusões leves ou até espondilose, o movimento repetitivo do passeio pode desencadear desconforto neurológico.
Esses cães costumam parar de repente, olhar para trás, levantar uma das patas traseiras por alguns segundos ou apresentar um caminhar rígido. Em quadros mais avançados, tropeços, arraste de unha ou dificuldade de virar o corpo podem aparecer.
Mas nem tudo é ortopédico. Algumas doenças sistêmicas podem causar paradas durante o passeio. Problemas cardíacos fazem o cão cansar rapidamente, desenvolver respiração ofegante e necessitar de pausas mais longas. Doenças respiratórias geram intolerância ao exercício, principalmente em cães braquicefálicos, que param para recuperar o fôlego.
Distúrbios metabólicos, como anemia, hipotireoidismo ou diabetes, também podem reduzir a disposição do cão, levando a um comportamento de “desanimar” no meio do trajeto.
Há ainda fatores ambientais. Calor excessivo pode causar hipertermia de esforço, principalmente em cães com focinho curto ou sobrepeso.
Nessas situações, o cão para não porque quer, mas porque precisa evitar o superaquecimento. O tutor pode notar salivação intensa, respiração acelerada, língua muito vermelha e dificuldade de retomar o ritmo. O piso também tem impacto: superfícies ásperas, muito quentes ou escorregadias podem gerar dor nas almofadas plantares, queimaduras ou medo de continuar caminhando.
Por último, existem as causas comportamentais e elas existem, mas são minoria quando comparadas às causas físicas. Cães ansiosos, medrosos ou inseguros podem parar quando escutam um barulho específico, veem outro cachorro ou antecipam algo que lhes gera desconforto. Porém, mesmo nesses casos, é fundamental descartar primeiro qualquer origem médica, já que dor crônica pode facilmente ser confundida com “teimosia”.
Quando o cão começa a parar com mais frequência, o ideal é observar alguns pontos: o tempo até a primeira parada, se há mancar, rigidez, respiração alterada, língua muito exposta, tremores, postura de dor, mudança no comportamento ao tocar o quadril, joelho ou coluna, além de notar se o problema piora em ladeiras, pisos escorregadios ou em dias quentes. Quanto mais cedo a causa for identificada, maior a chance de tratar e devolver qualidade de vida ao pet.
O mais importante é entender que parar durante o passeio não é normal. O cão está comunicando algo, e o papel do tutor é ouvir esse sinal. Muitas vezes, uma simples avaliação ortopédica ou um exame de imagem revelam problemas que, se tratados precocemente, evitam cirurgias, progressão de dor e limitações futuras.
O passeio deve ser um momento prazeroso para o cão e para o tutor. Se ele está parando, algo não vai bem, e investigar é sempre o melhor caminho.
Referências bibliográficas
Millis D, Levine D. Canine Rehabilitation and Physical Therapy. 2nd ed. Elsevier; 2014.
Johnston SA, Tobias KM. Veterinary Surgery: Small Animal. 2nd ed. Elsevier; 2017.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.