Pes varus em Dachshunds
- Felipe Garofallo

- 3 de ago.
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O pes varus em Dachshunds é uma deformidade ortopédica que altera o alinhamento do membro pélvico e pode comprometer a forma como o cão apoia e movimenta a pata.

Embora muitos tutores percebam apenas que a pata parece "virada para dentro" ou que o animal anda de maneira diferente, a condição envolve alterações no desenvolvimento ósseo e na biomecânica do membro que nem sempre são evidentes à primeira vista.
Além disso, nem todo Dachshund que apresenta uma postura incomum dos membros possui pes varus, assim como nem toda deformidade visível provoca dor importante. Por esse motivo, a observação em casa deve servir como um alerta para buscar avaliação veterinária, e não como tentativa de estabelecer um diagnóstico definitivo apenas pela aparência.
Muitos cães convivem com a deformidade durante meses antes que alguém perceba que existe algo diferente. Como o Dachshund possui naturalmente membros curtos e uma conformação corporal bastante particular, pequenas alterações no alinhamento podem passar despercebidas ou ser consideradas características da própria raça.
Em diversos casos, o animal continua brincando, correndo e realizando suas atividades habituais, compensando a alteração mecânica com outros músculos e articulações. Essa capacidade de adaptação faz com que a gravidade do problema nem sempre seja proporcional aos sinais observados pelo tutor. Um cão pode apresentar uma deformidade relativamente discreta e sentir desconforto significativo, enquanto outro pode apresentar um desvio evidente e permanecer funcional durante bastante tempo.
O termo pes varus descreve uma deformidade angular na qual a região distal da tíbia e o tarso desviam-se medialmente, fazendo com que a pata fique posicionada para dentro em relação ao eixo normal do membro.
Em Dachshunds, essa alteração geralmente está relacionada a um crescimento assimétrico da porção distal da tíbia, especialmente quando determinadas regiões da placa de crescimento deixam de se desenvolver de maneira uniforme. Como consequência, o osso continua crescendo em velocidades diferentes, modificando progressivamente seu alinhamento e alterando também a posição das articulações vizinhas.
Essa deformidade pode acometer apenas um membro ou afetar ambos, embora frequentemente exista diferença de intensidade entre os lados. Em alguns cães, um membro apresenta apenas discreta rotação da pata, enquanto o outro desenvolve um desvio muito mais acentuado. Essa assimetria pode levar o tutor a acreditar que existe uma lesão recente em apenas uma das patas, quando, na realidade, ambos os membros participam do processo, porém em graus diferentes.
O alinhamento inadequado modifica completamente a distribuição das forças durante a marcha. Em vez de o peso corporal ser distribuído uniformemente pelas superfícies articulares, determinadas regiões passam a suportar cargas maiores do que foram projetadas para receber. Ao longo do tempo, isso favorece desgaste da cartilagem, sobrecarga ligamentar, alterações musculares compensatórias e desenvolvimento precoce de osteoartrite.
Os sinais clínicos variam bastante conforme a intensidade da deformidade. Alguns cães apresentam apenas uma discreta rotação da pata perceptível quando observados por trás durante a caminhada.
Outros desenvolvem claudicação, dificuldade para correr, instabilidade em pisos escorregadios, desgaste irregular das unhas ou fadiga após exercícios relativamente curtos. Em casos mais avançados, pode ocorrer redução da amplitude dos movimentos, diminuição da disposição para brincar, dificuldade para subir escadas e menor tolerância às caminhadas.
É importante compreender que a aparência externa da pata não permite determinar exatamente onde começa a deformidade nem sua real gravidade.
Alterações semelhantes podem surgir por problemas localizados no tarso, na tíbia, nos ligamentos, nos tendões ou até mesmo em doenças neurológicas. Da mesma forma, um desvio aparentemente discreto pode estar associado a importantes alterações internas das articulações.
Durante a observação em casa, algumas informações podem ser bastante úteis para o médico-veterinário. Vale notar se a alteração apareceu de forma repentina ou se foi evoluindo lentamente ao longo dos meses. Também é interessante observar se o cão manca logo ao levantar ou apenas após caminhar durante algum tempo, se apresenta dificuldade em curvas, escadas ou pisos lisos, e se existe diferença entre caminhar, trotar e correr.
Registrar vídeos curtos do animal caminhando em linha reta, tanto de frente quanto por trás e lateralmente, costuma fornecer informações importantes, especialmente porque muitos cães modificam sua marcha quando chegam ao consultório devido ao estresse ou à excitação.
A evolução clínica ao longo do tempo também ajuda a direcionar a investigação. Uma claudicação que aparece apenas após exercícios intensos pode indicar uma sobrecarga mecânica relativamente inicial, enquanto perda progressiva da função, piora constante da deformidade ou dor persistente sugerem necessidade de investigação mais aprofundada.
Entretanto, uma melhora temporária não significa necessariamente que o problema foi resolvido. Muitos cães aprendem a compensar o membro afetado, redistribuindo o peso para outras articulações, o que reduz momentaneamente os sinais clínicos sem interromper a progressão da doença.
Durante o exame ortopédico, o médico-veterinário avalia cuidadosamente o alinhamento de todo o membro, desde o quadril até os dedos. São observados o posicionamento da tíbia, o eixo do tarso, a rotação da pata, a distribuição do peso corporal, o padrão de apoio dos dedos, a amplitude de movimento das articulações, a presença de dor, instabilidade ligamentar e atrofia muscular. Em alguns pacientes também é necessária uma avaliação neurológica para descartar doenças da medula espinhal ou dos nervos periféricos que possam produzir alterações semelhantes na marcha.
Esse exame procura localizar precisamente a origem da alteração sem provocar desconforto desnecessário ao animal. Fotografias padronizadas e medições seriadas podem ser úteis para acompanhar a evolução da deformidade, mas nunca substituem a avaliação clínica completa. Em cães muito ansiosos ou reativos, o exame pode ser dividido em etapas para preservar a qualidade das respostas e evitar interpretações equivocadas causadas pela tensão muscular.
Diversas doenças entram no diagnóstico diferencial do pes varus. Alterações ligamentares, lesões tendíneas, deformidades congênitas, sequelas de fraturas, doenças articulares, alterações musculares e algumas doenças neurológicas podem produzir sinais clínicos semelhantes. Por isso, fotografias enviadas pela internet ou avaliações baseadas apenas na raça dificilmente permitem estabelecer um diagnóstico definitivo. A localização exata da deformidade e a identificação da estrutura responsável pelo problema dependem da combinação entre exame clínico e exames complementares.
As radiografias representam um dos exames mais importantes na investigação do pes varus. Entretanto, não basta simplesmente radiografar o membro. As imagens precisam ser obtidas com posicionamento rigorosamente padronizado para permitir a medição dos diversos ângulos ósseos utilizados no planejamento terapêutico. Pequenos erros de posicionamento podem alterar significativamente essas medidas e levar a interpretações incorretas.
Quando existe deformidade mais complexa ou importante componente rotacional, a tomografia computadorizada pode fornecer informações adicionais extremamente valiosas. As reconstruções tridimensionais permitem compreender com muito mais precisão o eixo da deformidade e facilitam o planejamento da osteotomia corretiva quando ela é indicada. Entretanto, a escolha do exame depende da pergunta clínica que precisa ser respondida. Em alguns pacientes, radiografias são suficientes; em outros, a tomografia acrescenta informações indispensáveis para o tratamento.
Exames laboratoriais podem ser necessários quando existe suspeita de processos inflamatórios, infecciosos ou metabólicos associados, além de fazerem parte da avaliação pré-anestésica caso um procedimento cirúrgico seja planejado. A interpretação desses exames sempre deve ocorrer em conjunto com os achados clínicos e radiográficos, evitando tanto investigações insuficientes quanto exames desnecessários.
O tratamento varia conforme a idade do animal, o grau da deformidade, a presença de dor e o impacto funcional observado. Em casos leves, nos quais o alinhamento alterado não provoca limitações importantes nem sinais de progressão, pode ser suficiente realizar acompanhamento periódico, controle rigoroso do peso corporal, adaptações ambientais e monitoramento clínico.
Quando a deformidade compromete o apoio, produz dor, favorece desgaste articular ou tende a piorar progressivamente durante o crescimento, pode existir indicação de correção cirúrgica.
O objetivo da cirurgia não é apenas melhorar a aparência estética do membro, mas restaurar o alinhamento biomecânico, redistribuir adequadamente as cargas sobre as articulações e reduzir o risco de degeneração futura.
A decisão pela cirurgia leva em consideração diversos fatores além do aspecto visual da pata. Idade do paciente, potencial de crescimento remanescente, intensidade do desvio angular, presença de rotação associada, grau de comprometimento funcional, qualidade óssea, expectativa dos tutores e possibilidade de realizar adequadamente o pós-operatório influenciam diretamente o planejamento terapêutico.
Após a cirurgia, a reabilitação exerce papel fundamental na recuperação. O controle adequado da dor, exercícios terapêuticos progressivos, fortalecimento muscular e retorno gradual às atividades ajudam o organismo a adaptar-se ao novo alinhamento do membro. Exercícios realizados sem orientação ou copiados de outros pacientes podem ser inadequados para aquele estágio da recuperação e comprometer o resultado obtido.
Mesmo quando não existe indicação cirúrgica, algumas modificações no ambiente doméstico podem reduzir significativamente a sobrecarga sobre o membro afetado. Pisos antiderrapantes diminuem o risco de escorregões, rampas substituem escadas e saltos frequentes, e a manutenção do peso corporal dentro da faixa ideal reduz a carga transmitida às articulações deformadas. Essas medidas não corrigem o pes varus, mas contribuem para preservar conforto e mobilidade ao longo do tempo.
O prognóstico varia amplamente entre os pacientes. Cães com deformidades discretas frequentemente mantêm excelente qualidade de vida durante muitos anos quando acompanhados adequadamente.
Já pacientes com desvios mais acentuados podem desenvolver artrose precoce, perda progressiva da função e necessidade de tratamento cirúrgico. Mais importante do que comparar um animal com outro é acompanhar a evolução individual de cada paciente, observando qualidade do apoio, facilidade para caminhar, disposição para atividades habituais e presença de dor.
Alguns sinais exigem atendimento veterinário imediato. Dor intensa, incapacidade súbita de apoiar o membro, aumento importante da deformidade, traumatismos, feridas, febre, perda da capacidade de caminhar ou qualquer alteração neurológica associada justificam avaliação urgente. Em situações menos graves, mas nas quais a claudicação se repete, limita atividades ou progride lentamente, a consulta também deve ser agendada para que o problema seja investigado antes que ocorram alterações articulares irreversíveis.
É importante evitar alguns erros frequentes. Medicamentos humanos ou sobras de tratamentos anteriores nunca devem ser administrados sem orientação veterinária, pois podem causar intoxicações ou mascarar a evolução clínica. Também não é recomendado realizar manobras repetidas tentando alinhar a pata, testar movimentos vistos em vídeos da internet ou forçar caminhadas longas para verificar se o animal melhora. Essas atitudes podem aumentar a dor e dificultar a avaliação clínica.
Embora nem todos os casos possam ser prevenidos, especialmente aqueles relacionados ao desenvolvimento ósseo, o diagnóstico precoce permite acompanhar a evolução da deformidade e definir o momento mais adequado para cada intervenção.
O papel do tutor é observar alterações na marcha, registrar a evolução dos sinais, proteger o animal contra sobrecargas desnecessárias e fornecer um histórico detalhado durante a consulta. Dessa forma, o médico-veterinário consegue estabelecer um plano terapêutico individualizado, preservando a função do membro, reduzindo a dor quando ela está presente e oferecendo ao Dachshund a melhor qualidade de vida possível ao longo dos anos.
Referências bibliográficas
Petazzoni, M.; Jaeger, G. H.; Moores, A. P.; et al. Treatment of pes varus using locking plate fixation in seven Dachshund dogs. Veterinary and Comparative Orthopaedics and Traumatology, v. 25, n. 2, p. 147–153, 2012. DOI: 10.3415/VCOT-11-03-0035.
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