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Perda de massa muscular em cães: por que acontece?

A perda de massa muscular em cães, também chamada de atrofia muscular, é um sinal clínico relativamente comum e pode estar associada a diversas doenças, desde problemas ortopédicos e neurológicos até distúrbios hormonais, inflamações crônicas e envelhecimento.



Embora muitos tutores percebam apenas que o animal está "mais magro", a redução da musculatura nem sempre está relacionada à perda de peso.


Em muitos casos, o cão mantém o peso corporal ou até apresenta sobrepeso, mas perde massa muscular de forma progressiva, o que compromete sua força, mobilidade, equilíbrio e qualidade de vida.


O tecido muscular é extremamente dinâmico. Para se manter saudável, ele depende de estímulos constantes, como atividade física, ingestão adequada de proteínas, boa circulação sanguínea e um equilíbrio entre a síntese e a degradação das proteínas musculares.


Quando esse equilíbrio é rompido, a velocidade com que o organismo degrada as fibras musculares supera sua capacidade de reconstruí-las, levando à atrofia.


Uma das causas mais frequentes de perda muscular em cães é a diminuição do uso de um membro devido à dor. Cães com ruptura do ligamento cruzado cranial, luxação de patela, osteoartrite, displasia coxofemoral, fraturas ou outras doenças ortopédicas tendem a apoiar menos a pata afetada.


Essa redução do uso faz com que os músculos, especialmente da coxa, comecem a diminuir de volume em poucos dias. Estudos demonstram que alterações significativas na musculatura podem ser observadas já nas primeiras semanas após o início da claudicação. Quanto maior o tempo sem utilizar adequadamente o membro, maior será a perda muscular e mais difícil poderá ser a recuperação.


Nos pacientes neurológicos, a perda muscular pode ocorrer de maneira ainda mais intensa. Doenças como hérnia de disco, síndrome da cauda equina, mielopatias degenerativas, neuropatias periféricas ou lesões medulares prejudicam a comunicação entre os nervos e os músculos.


Sem estímulo nervoso adequado, as fibras musculares deixam de receber os impulsos necessários para sua contração e acabam atrofiando rapidamente. Esse tipo de atrofia costuma ser mais evidente e pode ocorrer mesmo quando o animal ainda consegue caminhar parcialmente.


O envelhecimento também exerce papel importante nesse processo. Assim como ocorre em humanos, cães idosos podem desenvolver sarcopenia, uma condição caracterizada pela perda progressiva de massa e força muscular relacionada à idade.


A redução dos níveis hormonais, alterações metabólicas, menor capacidade de regeneração muscular e diminuição natural da atividade física contribuem para esse quadro. Em cães idosos, essa perda de musculatura pode favorecer quedas, dificuldades para levantar, intolerância aos exercícios e maior predisposição ao desenvolvimento de doenças ortopédicas.


Diversas doenças sistêmicas também podem causar perda muscular. Insuficiência renal crônica, insuficiência cardíaca, doenças hepáticas, neoplasias, doenças inflamatórias crônicas e infecções prolongadas aumentam o estado catabólico do organismo.


Nessas situações, o corpo passa a utilizar proteínas musculares como fonte de energia, acelerando a degradação das fibras musculares. Em pacientes com câncer, por exemplo, pode ocorrer a chamada caquexia, uma síndrome metabólica complexa caracterizada por perda muscular progressiva, mesmo quando o animal continua recebendo alimentação adequada.


Alterações hormonais também merecem atenção. O hiperadrenocorticismo, conhecido como síndrome de Cushing, promove aumento do cortisol circulante, hormônio que possui forte efeito catabólico sobre o tecido muscular.


Esses cães frequentemente apresentam músculos atrofiados, abdômen pendular, fraqueza, dificuldade para subir escadas e intolerância ao exercício. Já o hipotireoidismo pode reduzir o metabolismo muscular e favorecer perda de massa associada à fraqueza e fadiga.


A alimentação exerce influência direta sobre a manutenção da musculatura. Dietas com baixo teor proteico, deficiência de aminoácidos essenciais, desnutrição ou doenças que dificultam a absorção intestinal de nutrientes podem reduzir a capacidade de síntese proteica muscular.


Além disso, cães com doenças crônicas frequentemente apresentam redução do apetite, agravando ainda mais a perda de massa muscular. Vale ressaltar que simplesmente oferecer mais alimento nem sempre resolve o problema, principalmente quando existe uma doença de base responsável pelo aumento do catabolismo.


Outro fator importante é o uso prolongado de alguns medicamentos. Corticosteroides administrados por longos períodos podem provocar miopatia induzida por corticosteroides, levando à redução da massa muscular, principalmente nos membros e na musculatura da coluna. O acompanhamento veterinário é fundamental para ajustar doses e avaliar alternativas terapêuticas sempre que possível.


Os tutores geralmente percebem a perda muscular observando que as pernas parecem mais finas, principalmente as coxas, que a coluna fica mais evidente, que há maior destaque dos ossos da pelve ou que o cão demonstra dificuldade para levantar após permanecer deitado.


Em alguns casos, o animal passa a cansar mais facilmente durante caminhadas, evita subir escadas ou perde a capacidade de realizar atividades que antes executava normalmente.


O diagnóstico da causa da perda muscular exige avaliação clínica completa. O médico-veterinário realiza exame físico detalhado, avalia o escore de condição corporal e o escore de condição muscular, procurando identificar quais grupos musculares foram afetados.


Dependendo da suspeita clínica, podem ser necessários exames laboratoriais, radiografias, ultrassonografia, tomografia computadorizada, ressonância magnética, eletroneuromiografia ou exames hormonais para identificar a doença responsável pela atrofia.


O tratamento sempre deve ser direcionado à causa primária. Em pacientes ortopédicos, corrigir a lesão responsável pela dor é essencial para permitir o retorno da função muscular.


Em casos neurológicos, pode ser necessário tratamento clínico ou cirúrgico, associado à reabilitação. Nas doenças sistêmicas, controlar a enfermidade de base é indispensável para interromper o processo de perda muscular.


A fisioterapia veterinária desempenha papel fundamental na recuperação. Exercícios terapêuticos, fortalecimento muscular, hidroterapia, eletroestimulação, exercícios de equilíbrio e treinamento funcional ajudam a estimular novamente a musculatura, acelerar o ganho de massa e reduzir o tempo de recuperação.


Em muitos pacientes submetidos à cirurgia ortopédica, iniciar precocemente um programa de reabilitação faz grande diferença no resultado final.

A nutrição também faz parte do tratamento.


Dietas de alta qualidade, com adequada oferta de proteínas de elevado valor biológico, aminoácidos essenciais e ácidos graxos ômega-3 podem auxiliar na recuperação muscular. Em alguns pacientes, suplementos específicos contendo leucina, HMB (β-hidroxi β-metilbutirato), creatina ou outros compostos podem ser considerados pelo médico-veterinário, sempre de forma individualizada.


A prevenção da perda muscular passa pelo diagnóstico precoce das doenças, manutenção de peso corporal adequado, prática regular de exercícios compatíveis com a idade e condição física do animal, alimentação balanceada e acompanhamento veterinário periódico.


Sempre que um tutor perceber diminuição da musculatura, especialmente quando associada à claudicação, dor ou dificuldade de locomoção, é importante procurar atendimento veterinário rapidamente. Quanto mais cedo a causa for identificada e tratada, maiores são as chances de recuperação da massa muscular e de preservação da qualidade de vida do paciente.

Referências bibliográficas:


Epstein, M. E.; Rodan, I.; Griffenhagen, G.; et al. 2022 AAHA Pain Management Guidelines for Dogs and Cats. Journal of the American Animal Hospital Association, 2022.


Olby, N. J.; Moore, S. A.; Brisson, B.; et al. ACVIM consensus statement on diagnosis and management of acute canine thoracolumbar intervertebral disc extrusion. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 36, n. 5, p. 1570-1596, 2022.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


Horário: Segunda à sexta, 11h às 18h. Sábados 10:00 às 14:00
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