Ozonioterapia intra-articular em cães: como funciona e quando é indicada?
- Felipe Garofallo

- 2 de dez. de 2025
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As infiltrações com ozônio, também chamadas de ozonioterapia infiltrativa, vêm ganhando espaço na medicina veterinária como uma opção complementar para o manejo da dor e da inflamação em cães.

Embora o ozônio seja lembrado principalmente por seu uso ambiental, na medicina ele é aplicado de forma controlada, em concentrações terapêuticas, com um objetivo bem definido: estimular mecanismos biológicos que favorecem analgesia, modulação inflamatória e recuperação funcional dos tecidos.
O procedimento não substitui tratamentos tradicionais, mas pode atuar como um reforço dentro de um plano multimodal.
O ozônio medicinal é produzido a partir de oxigênio puro submetido a descarga elétrica, gerando uma mistura padronizada de 95% O₂ e 5% O₃. Essa mistura é aplicada diretamente na região-alvo através de infiltração intra-articular, periarticular, subcutânea ou intramuscular, dependendo da condição tratada.
Diferentemente do corticoide, que age como um anti-inflamatório direto, o ozônio tem uma ação bioquímica mais moduladora. Ele estimula vias antioxidantes, ativa a produção de fatores de reparo tissular e pode melhorar o metabolismo celular em tecidos degenerativos.
Na ortopedia veterinária, as principais indicações incluem cães com osteoartrite crônica, lesões musculoesqueléticas, tendinopatias, bursites, dor miofascial e dor neuropática leve a moderada.
Muitos tutores buscam a técnica para reduzir a dependência de anti-inflamatórios, especialmente em cães idosos, com doença renal, gastrite ou intolerância a medicamentos. A infiltração pode reduzir a dor, aumentar a amplitude de movimento e melhorar a qualidade de vida do paciente, principalmente quando associada a fisioterapia e controle de peso.
Apesar disso, o mecanismo exato pelo qual o ozônio promove analgesia ainda está sendo estudado. Acredita-se que o O₃ estimule a liberação de endorfinas, reduza citocinas inflamatórias, modifique a sinalização nervosa periférica e melhore a microcirculação local.
Esses efeitos resultam em diminuição do edema, redução da sensibilidade dolorosa e melhora progressiva da função do membro afetado. Em articulações degeneradas, o ozônio pode ajudar a reduzir a sinovite e a rigidez, especialmente quando aplicado em ciclos seriados.
Em relação à segurança, a ozonioterapia é considerada um procedimento de baixo risco quando realizada por um profissional experiente, com equipamento adequado e concentração correta. As reações mais comuns incluem dor leve no local da aplicação, sensação de pressão ou desconforto passageiro.
Quando aplicado de forma subcutânea, pode ocorrer crepitação pela presença de gás, o que é esperado e absorvido em poucas horas. Complicações mais sérias, como infecção, são raras e relacionadas principalmente à falha na técnica asséptica, risco existente em qualquer infiltração, inclusive com medicamentos convencionais.
Ainda assim, a técnica possui limitações claras. O ozônio não reconstrói cartilagem, não corrige instabilidade articular e não substitui cirurgias ortopédicas quando estas são necessárias. Cães com ruptura do ligamento cruzado cranial, luxação de patela ou displasia de quadril grave podem até ter melhora parcial da dor com infiltrações, mas a causa estrutural permanece. Por isso, a indicação precisa ser criteriosa para evitar falsas expectativas.
Outro ponto importante é que, embora existam estudos sugerindo benefícios da ozonioterapia em quadros inflamatórios e degenerativos, a evidência científica na medicina veterinária ainda é limitada e heterogênea. Isso não significa que o método não funcione, significa apenas que ainda não há consenso, padronização total de protocolo ou ensaios clínicos amplos. Em muitos casos, o efeito positivo relatado se deve à associação de técnicas dentro de um plano completo de reabilitação.
Para cães selecionados, principalmente idosos com osteoartrite e intolerância a medicamentos, as infiltrações com ozônio podem oferecer melhora significativa do conforto, da disposição e da mobilidade. Quando aplicadas como parte de uma abordagem multimodal, incluindo fortalecimento muscular, ajustes ambientais, controle de peso, exercícios terapêuticos e manejo analgésico integrado, elas podem ajudar o cão a viver com mais qualidade e menos dor.
Referências bibliográficas
Smith AJ et al. Ozone therapy: A review of its biological effects and clinical applications. Veterinary Anaesthesia and Analgesia. 2022.
Hernández F et al. Ozone therapy as an adjuvant for musculoskeletal disorders in dogs. Journal of Veterinary Science and Research. 2020.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.