Os quatro tipos de hipersensibilidade em cães
- Felipe Garofallo

- há 3 minutos
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Quando um cachorro apresenta coceira intensa, inchaço no rosto após uma vacina, vômitos súbitos depois de um medicamento ou até doenças autoimunes mais graves, muitos tutores acabam ouvindo do veterinário que o animal teve uma “reação imunológica” ou uma “hipersensibilidade”.

Mas o que pouca gente sabe é que nem toda reação do sistema imunológico funciona da mesma forma. Na medicina veterinária, existem diferentes tipos de hipersensibilidade em cães, e entender essas diferenças ajuda a compreender melhor desde alergias simples até doenças potencialmente graves.
O sistema imunológico existe para proteger o organismo contra vírus, bactérias, fungos e outros agentes considerados invasores. O problema acontece quando essa defesa se torna exagerada, inadequada ou começa a reagir contra estruturas do próprio corpo. É justamente isso que chamamos de hipersensibilidade: uma resposta imune excessiva ou inadequada, capaz de causar danos ao organismo.
Na medicina veterinária, os tipos de hipersensibilidade são tradicionalmente classificados em quatro categorias, conhecidas como classificação de Gell e Coombs. Embora pareça algo complexo, entender essas categorias pode ajudar bastante o tutor a compreender o que está acontecendo com seu pet.
A hipersensibilidade do tipo I é provavelmente a mais conhecida e também a mais frequente na rotina clínica. Trata-se da chamada reação alérgica imediata, mediada principalmente por imunoglobulina E (IgE). Esse tipo de resposta acontece quando o organismo reconhece determinada substância como uma ameaça e reage de maneira exagerada. O contato pode ocorrer com alimentos, pólen, ácaros, picadas de pulgas, medicamentos, vacinas ou até substâncias ambientais.
Nessas situações, o sistema imunológico estimula células chamadas mastócitos a liberar substâncias inflamatórias, como histamina, gerando sinais clínicos rápidos. Em cães, isso pode se manifestar como coceira intensa, vermelhidão na pele, urticária, edema no focinho, vômitos, diarreia ou até uma reação anafilática grave.
Alguns tutores percebem, por exemplo, que o cachorro ficou com o rosto inchado poucas horas após uma vacina ou medicação, um exemplo clássico desse tipo de hipersensibilidade.
Outro detalhe interessante é que, nos cães, as reações anafiláticas nem sempre se apresentam como nos humanos. Enquanto em pessoas o sistema respiratório costuma ser o mais afetado, em cães é relativamente comum observar sinais gastrointestinais importantes, como vômitos intensos, diarreia súbita, fraqueza e até colapso circulatório.
Já a hipersensibilidade tipo II funciona de forma bastante diferente. Nesse caso, o próprio sistema imunológico começa a atacar células do organismo do animal, como se elas fossem invasoras.
Trata-se de uma resposta mediada principalmente por anticorpos IgG ou IgM, que acabam promovendo destruição celular.
Um exemplo muito conhecido é a anemia hemolítica imunomediada, uma doença em que o organismo passa a destruir as próprias hemácias do paciente.
O tutor pode perceber sintomas como cansaço intenso, mucosas pálidas ou amareladas, falta de apetite e fraqueza importante. Outro exemplo inclui a trombocitopenia imunomediada, em que há destruição das plaquetas, aumentando o risco de sangramentos.
Em algumas situações, certos medicamentos podem atuar como gatilhos, estimulando respostas imunológicas anormais. Isso ajuda a explicar por que alguns cães apresentam reações adversas incomuns após determinados tratamentos, ainda que esses eventos sejam relativamente raros.
A hipersensibilidade tipo III envolve um mecanismo um pouco diferente. Aqui, o problema não é um ataque direto contra células do corpo, mas a formação de imunocomplexos, estruturas formadas pela ligação entre antígenos e anticorpos. Esses complexos podem circular pela corrente sanguínea e se depositar em diferentes tecidos, causando inflamação.
Dependendo do local afetado, o cão pode desenvolver problemas articulares, renais, oculares ou vasculares.
Em alguns casos, isso se manifesta como poliartrites imunomediadas, quando o animal apresenta dor e inflamação em múltiplas articulações, dificuldade para caminhar e episódios de claudicação migratória. Em outros cenários, pode haver comprometimento dos rins, levando a glomerulopatias inflamatórias.
Esse tipo de resposta também pode estar associado a algumas reações vacinais raras ou processos inflamatórios crônicos. Felizmente, grande parte dos animais nunca desenvolverá esse tipo de complicação, mas conhecer o mecanismo ajuda a compreender por que certos quadros imunológicos parecem tão complexos.
Por fim, existe a hipersensibilidade tipo IV, também chamada de reação tardia ou mediada por células. Diferentemente dos outros tipos, ela não depende principalmente de anticorpos, mas da atuação de linfócitos T, células do sistema imunológico responsáveis por respostas celulares.
Esse tipo de reação costuma surgir mais lentamente, geralmente entre 24 e 72 horas após o contato com o agente desencadeante. Nos cães, pode estar relacionada a algumas dermatites de contato, reações cutâneas a substâncias específicas, processos inflamatórios granulomatosos e determinadas reações medicamentosas tardias.
Em alguns pacientes, materiais implantáveis e fatores inflamatórios locais também entram como possíveis gatilhos, embora infecções e outras causas sejam muito mais frequentemente responsáveis por complicações do que uma verdadeira reação imunológica contra materiais.
Uma dúvida comum entre os tutores é se toda alergia representa um problema grave. A resposta é não. Muitas reações imunológicas são leves, controláveis e fazem parte de doenças crônicas relativamente comuns, como dermatite atópica.
No entanto, algumas manifestações merecem atenção veterinária rápida, especialmente quando há dificuldade respiratória, inchaço importante, vômitos intensos, apatia severa ou alterações repentinas no estado geral do animal.
Também é importante entender que nem sempre as doenças imunológicas seguem uma “regra perfeita”. Em alguns casos, diferentes mecanismos de hipersensibilidade podem acontecer ao mesmo tempo, tornando o diagnóstico mais complexo.
Por isso, exames laboratoriais, histórico clínico e avaliação veterinária detalhada são fundamentais para definir o melhor tratamento.
No fim das contas, conhecer os tipos de hipersensibilidade em cães ajuda a entender que nem toda reação do organismo é simplesmente uma “alergia”.
O sistema imunológico dos animais é extremamente sofisticado e, quando algo sai do equilíbrio, diferentes doenças podem surgir. Felizmente, com diagnóstico precoce e acompanhamento adequado, muitos desses quadros podem ser controlados, permitindo que o pet tenha qualidade de vida e bem-estar.
Referências bibiográficas
Muller & Kirk's Small Animal Dermatology – Hensel, P. et al. Muller & Kirk's Small Animal Dermatology. 9th ed. Elsevier, 2024.
Veterinary Immunology – Tizard, I. R. Tizard's Veterinary Immunology: An Introduction. 11th ed. Elsevier, 2022.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.