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Operar ou não cães com ruptura do ligamento cruzado cranial?

A ruptura do ligamento cruzado cranial (LCC) é uma das lesões ortopédicas mais comuns e debilitantes em cães. Este ligamento é crucial para a estabilidade do joelho, e sua ruptura pode levar a claudicação significativa e dor intensa. Dada a prevalência desta condição e seu impacto no bem-estar dos animais, a decisão sobre o tratamento – cirúrgico ou não cirúrgico – é de extrema importância tanto para os veterinários quanto para os tutores de cães.

O artigo "Target Trial Emulation: Does surgical versus non-surgical management of cranial cruciate ligament rupture in dogs cause different outcomes?" publicado na revista Preventive Veterinary Medicine em 2024, aborda a comparação dos resultados entre o tratamento cirúrgico e não cirúrgico para ruptura do ligamento cruzado cranial (CCL) em cães. A pesquisa utiliza um método inovador conhecido como "emulação de ensaio alvo" para inferir causalidade a partir de dados observacionais, uma abordagem cada vez mais popular na epidemiologia humana e que agora está sendo aplicada na medicina veterinária.

A ruptura do ligamento cruzado cranial é uma das principais causas de claudicação em cães, e sua gestão pode ser realizada por meio de tratamento cirúrgico ou não cirúrgico. Tradicionalmente, a cirurgia é considerada o tratamento padrão ouro, mas a eficácia comparativa dos tratamentos cirúrgicos versus não cirúrgicos, especialmente em diferentes tamanhos de cães, não havia sido totalmente explorada antes deste estudo.

A pesquisa foi conduzida utilizando dados anônimos de prontuários eletrônicos veterinários do programa VetCompass, abrangendo cães diagnosticados com ruptura de CCL entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2019. Foram incluídos cães com idade entre 1,5 e 12 anos, sem histórico prévio de ruptura ligamentar contralateral ou cirurgia no joelho. O estudo contou com 615 casos tratados cirurgicamente e 200 tratados de forma não cirúrgica.

Os pesquisadores aplicaram a ponderação por probabilidade inversa de tratamento (IPTW) para ajustar os dados e minimizar os efeitos de confusão, e a ponderação por probabilidade inversa de censura (IPCW) para lidar com dados censurados. O objetivo era equilibrar as covariáveis entre os grupos de tratamento para uma comparação mais justa.

Os resultados mostraram que o tratamento cirúrgico resultou em uma redução significativa na claudicação tanto a curto quanto a longo prazo, quando comparado ao tratamento não cirúrgico. A diferença de risco para claudicação a curto prazo foi de -25,7% (intervalo de confiança de 95%: -36,7% a -15,9%), e a diferença de risco a longo prazo foi de -31,7% (intervalo de confiança de 95%: -37,9% a -18,1%). Esses achados indicam que os cães tratados cirurgicamente apresentaram melhorias substanciais na função locomotora em comparação com aqueles tratados de forma conservadora.

O estudo também destacou os desafios e as vantagens do uso de dados observacionais para inferir causalidade. Embora ensaios clínicos randomizados sejam considerados o padrão ouro para tais estudos, eles são frequentemente impraticáveis devido a questões éticas, custos elevados e longos períodos necessários para observar os resultados. A emulação de ensaio alvo, portanto, oferece uma alternativa valiosa, utilizando dados do mundo real para responder a questões clínicas importantes.

Em conclusão, este estudo forneceu evidências robustas de que o tratamento cirúrgico para ruptura de CCL em cães é superior ao tratamento não cirúrgico em termos de redução da claudicação a curto e longo prazo. Estes resultados são importantes para veterinários e tutores de cães ao tomarem decisões informadas sobre o manejo da ruptura do ligamento cruzado cranial. Além disso, a pesquisa demonstra a aplicabilidade e a eficácia da emulação de ensaio alvo na medicina veterinária, abrindo caminho para futuras investigações baseadas em dados observacionais.


Referências bibliográficas


Smith, C., & Brown, D. (2024). Target Trial Emulation: Does surgical versus non-surgical management of cranial cruciate ligament rupture in dogs cause different outcomes? Preventive Veterinary Medicine, 224, 105755. https://doi.org/10.1016/j.prevetmed.2024.105755


Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972), especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades. Agende uma consulta presencial ou consultoria on-line por vídeo pelo whatsapp (11)91258-5102.



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