Onicogrifose em cães: o que é?
- Felipe Garofallo

- 30 de jun.
- 4 min de leitura
A onicogrifose em cães é uma alteração caracterizada pelo crescimento excessivo, espessamento e deformação das unhas. Popularmente, muitos tutores descrevem o problema como unhas "retorcidas", "encurvadas" ou "grossas demais".

Embora possa parecer apenas uma alteração estética à primeira vista, a onicogrifose frequentemente está associada a doenças subjacentes e pode causar desconforto significativo, alterações na marcha e até mesmo dor durante a locomoção.
As unhas dos cães possuem crescimento contínuo ao longo da vida. Em condições normais, esse crescimento é naturalmente compensado pelo desgaste provocado durante caminhadas e atividades diárias.
Quando ocorre alguma alteração nesse equilíbrio, as unhas podem crescer de forma exagerada, adquirindo um aspecto anormal. Nos casos de onicogrifose, as unhas tornam-se alongadas, espessas, curvadas e frequentemente assumem uma aparência semelhante a um chifre.
A condição pode afetar uma única unha, várias unhas ou todos os dígitos simultaneamente. Em alguns pacientes, o crescimento anormal é discreto no início e passa despercebido pelos tutores. Com o passar do tempo, entretanto, a deformação torna-se mais evidente e pode começar a interferir na qualidade de vida do animal.
Uma das causas mais comuns da onicogrifose é a falta de desgaste natural das unhas. Cães idosos, sedentários ou que vivem predominantemente em ambientes internos costumam caminhar menos em superfícies abrasivas, reduzindo o desgaste fisiológico.
Como consequência, as unhas continuam crescendo progressivamente até atingir comprimentos inadequados.
No entanto, a onicogrifose nem sempre está relacionada apenas à falta de corte ou desgaste. Diversas doenças podem interferir no crescimento normal das unhas.
Entre elas, destacam-se algumas enfermidades dermatológicas, imunomediadas, endócrinas e até neurológicas.
As doenças autoimunes merecem atenção especial.
Algumas condições imunomediadas podem afetar diretamente o leito ungueal, alterando a produção da unha e favorecendo deformidades. Em determinados casos, a onicogrifose pode ser um dos primeiros sinais clínicos observados pelo tutor.
Alterações hormonais também podem influenciar o crescimento ungueal. O hipotireoidismo, uma das endocrinopatias mais comuns em cães, pode provocar diversas alterações dermatológicas, incluindo mudanças na qualidade e no crescimento das unhas.
Nesses pacientes, frequentemente surgem outros sinais associados, como ganho de peso, apatia, queda de pelos e intolerância ao exercício.
Doenças neurológicas e ortopédicas também podem contribuir para o desenvolvimento da onicogrifose. Quando um cachorro deixa de apoiar adequadamente uma pata devido à dor ou à perda de função neurológica, ocorre redução do desgaste das unhas daquele membro. Como resultado, elas passam a crescer excessivamente.
Essa situação é relativamente comum em cães com hérnias de disco, mielopatia degenerativa, osteoartrite avançada, displasia coxofemoral ou lesões ligamentares crônicas. Muitas vezes, a unha excessivamente comprida em apenas uma pata funciona como um sinal indireto de que aquele membro está sendo menos utilizado.
A idade avançada também representa um fator predisponente. Cães idosos frequentemente apresentam redução da atividade física, alterações biomecânicas e doenças articulares degenerativas que favorecem o crescimento exagerado das unhas.
Os sinais clínicos variam de acordo com a gravidade do quadro. Em estágios iniciais, o tutor pode observar apenas unhas mais compridas do que o habitual.
Conforme a deformação progride, as unhas tornam-se espessas, curvadas e podem começar a tocar o chão durante a caminhada.
Quando isso acontece, surgem alterações na marcha.
O cachorro pode passar a caminhar de forma desconfortável, modificar o apoio dos dedos e desenvolver compensações posturais. Em casos mais avançados, as unhas podem crescer a ponto de penetrar os coxins plantares ou provocar feridas traumáticas.
A dor nem sempre está presente inicialmente. Entretanto, quando ocorrem fissuras, infecções secundárias ou pressão excessiva sobre os dedos, o desconforto pode tornar-se significativo. Alguns cães passam a lamber excessivamente as patas ou demonstram relutância para caminhar.
O diagnóstico da onicogrifose geralmente é simples do ponto de vista clínico, uma vez que a alteração ungueal é facilmente observada durante o exame físico.
O maior desafio está em identificar a causa subjacente. Dependendo do histórico e dos sinais clínicos associados, o médico-veterinário pode recomendar exames laboratoriais, avaliação ortopédica, neurológica ou dermatológica.
O tratamento envolve inicialmente a correção do comprimento das unhas. O corte deve ser realizado com cuidado, especialmente quando existe crescimento excessivo há muito tempo.
Em alguns casos, a vascularização interna da unha acompanha o crescimento, exigindo reduções graduais para evitar sangramentos.
Além do manejo das unhas, é fundamental tratar a causa primária quando identificada. Pacientes com doenças ortopédicas, neurológicas, dermatológicas ou endócrinas necessitam de acompanhamento específico para evitar recorrências.
A prevenção inclui monitoramento regular do comprimento das unhas e manutenção de uma rotina adequada de exercícios. Caminhadas frequentes em superfícies apropriadas ajudam a promover desgaste natural e permitem que alterações locomotoras sejam percebidas precocemente.
Embora muitas pessoas considerem as unhas longas apenas um detalhe estético, a onicogrifose pode ser um importante indicador de doenças subjacentes e interferir significativamente na qualidade de vida dos cães.
Por isso, sempre que houver crescimento exagerado, deformação ou alterações no formato das unhas, uma avaliação veterinária é recomendada para identificar a origem do problema e instituir o tratamento adequado.
Referências bibliográficas
MILLER, William H.; GRIFFIN, Craig E.; CAMPBELL, Karen L. Muller & Kirk's Small Animal Dermatology. 8. ed. Elsevier, 2023.
FOSSUM, Theresa Welch. Small Animal Surgery. 5. ed. St. Louis: Elsevier, 2018.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.