O teste de gaveta consegue identificar uma ruptura total ou parcial em cães?
O teste de gaveta é uma das principais manobras utilizadas no exame ortopédico de cães com suspeita de ruptura do ligamento cruzado cranial. Ele permite avaliar a estabilidade do joelho e identificar um movimento anormal da tíbia em relação ao fêmur.

Entretanto, existe uma diferença importante entre utilizar o teste para detectar uma instabilidade e utilizá-lo para determinar se o ligamento está totalmente ou apenas parcialmente rompido. Embora o teste de gaveta possa fornecer informações importantes sobre essa diferença, ele não consegue, isoladamente, determinar com absoluta segurança a extensão da ruptura.
O ligamento cruzado cranial é uma das principais estruturas responsáveis pela estabilidade do joelho dos cães. Entre suas funções está impedir que a tíbia se desloque excessivamente para frente em relação ao fêmur.
Quando o ligamento perde sua função, esse movimento passa a ocorrer de maneira anormal e pode ser percebido durante o exame ortopédico.
É justamente esse movimento que o teste de gaveta cranial procura identificar. Durante a avaliação, o médico-veterinário estabiliza o fêmur enquanto tenta deslocar a tíbia cranialmente.
Em um cão adulto com o ligamento cruzado cranial funcional, esse deslocamento é limitado. Quando existe insuficiência ligamentar, a tíbia pode apresentar um movimento cranial anormal, produzindo o chamado sinal de gaveta cranial.
Quando existe uma ruptura completa do ligamento cruzado cranial, geralmente a instabilidade é mais evidente.
Como as fibras ligamentares deixaram de exercer adequadamente sua função de contenção, o examinador pode conseguir deslocar a tíbia cranialmente em relação ao fêmur. Nesses casos, um teste de gaveta claramente positivo é um achado bastante sugestivo de insuficiência do ligamento cruzado cranial.
Entretanto, a situação se torna mais interessante quando existe uma ruptura parcial.
O ligamento cruzado cranial apresenta diferentes componentes funcionais, frequentemente descritos como bandas craniomedial e caudolateral. Essas porções não apresentam exatamente a mesma tensão em todos os ângulos de movimentação do joelho.
A banda craniomedial permanece tensionada tanto durante a flexão quanto durante a extensão, enquanto a porção caudolateral apresenta maior tensão durante a extensão e torna-se mais relaxada durante a flexão. Essa característica influencia diretamente a maneira como uma ruptura parcial pode se manifestar durante o exame.
Se apenas parte do ligamento estiver comprometida, as fibras que permanecem íntegras podem continuar limitando o deslocamento da tíbia. Consequentemente, o teste de gaveta pode apresentar uma alteração muito discreta ou até mesmo ser negativo.
Essa é uma informação particularmente importante: um teste de gaveta negativo não exclui uma ruptura parcial do ligamento cruzado cranial.
Em uma série envolvendo 25 cães com ruptura parcial confirmada, o sinal de gaveta cranial foi identificado em apenas 13 animais. Nos outros 12 cães, portanto, não havia uma gaveta cranial detectável durante a manipulação, apesar de posteriormente ter sido confirmada a ruptura incompleta do ligamento.
Entre os animais nos quais a gaveta estava presente, nove apresentavam o movimento apenas quando o joelho era colocado em flexão.
Isso ajuda a entender por que o posicionamento do joelho durante o teste é tão importante.
Em determinadas rupturas parciais, a gaveta pode não ser identificada quando o joelho está em extensão, mas tornar-se perceptível durante a flexão.
Por esse motivo, a avaliação não deve ser realizada em apenas uma posição. O médico-veterinário pode avaliar a estabilidade em diferentes ângulos de flexão e extensão, procurando alterações mais sutis na movimentação da articulação.
Ainda assim, a presença de uma gaveta apenas em determinada posição não deve ser interpretada de maneira isolada como uma forma infalível de estabelecer exatamente quais fibras estão rompidas.
Há literatura que ressalta que a relação entre a posição em que a instabilidade aparece e a porção específica do ligamento lesionada não é suficientemente confiável para que essa conclusão seja feita apenas pela manobra clínica.
Outro fator capaz de interferir bastante no teste é a tensão muscular.
Durante uma consulta, alguns cães ficam tensos, contraem intensamente a musculatura do membro ou resistem à manipulação do joelho.
Essa contração muscular pode dificultar o deslocamento da tíbia e mascarar uma instabilidade existente. Isso pode ocorrer inclusive em uma ruptura completa, mas ganha ainda mais importância nas lesões parciais, nas quais a instabilidade já pode ser bastante discreta.
Em determinadas situações, portanto, a realização do exame sob sedação ou anestesia pode permitir uma avaliação mais adequada.
Um estudo que comparou testes realizados em cães conscientes e posteriormente sob anestesia encontrou melhora significativa da sensibilidade das manobras de gaveta cranial e compressão tibial quando os animais foram avaliados anestesiados.
Também existe outra situação na qual o teste de gaveta pode ser menos evidente: as lesões crônicas.
Com a evolução da doença, o joelho pode desenvolver espessamento da cápsula articular e fibrose periarticular. Essas alterações podem limitar mecanicamente determinados movimentos e tornar a instabilidade menos evidente durante o exame.
Dessa forma, até mesmo um cão com ruptura completa e antiga pode apresentar uma gaveta menos exuberante do que seria esperado.
Por isso, o diagnóstico da doença do ligamento cruzado cranial não deve depender exclusivamente do resultado de uma única manobra.
O teste de compressão tibial é outra ferramenta frequentemente utilizada durante o exame ortopédico. Ele avalia a tendência da tíbia de se deslocar cranialmente durante uma simulação das forças que ocorrem quando o animal apoia o membro.
Assim como o teste de gaveta, ajuda a investigar a estabilidade funcional do joelho e pode complementar a avaliação clínica.
Além desses testes, o médico-veterinário avalia outros sinais importantes.
Dor durante a manipulação, derrame articular, espessamento da região medial do joelho, redução da amplitude de movimento, atrofia muscular e características da claudicação ajudam a construir o diagnóstico.
As radiografias também são importantes, embora o ligamento cruzado cranial não seja normalmente visualizado diretamente nas radiografias convencionais.
O objetivo é procurar alterações secundárias, como derrame articular, osteófitos e outras manifestações de doença articular degenerativa, além de excluir outras causas de claudicação.
Nos casos de ruptura parcial, esse conjunto de informações se torna ainda mais importante justamente porque o joelho pode continuar apresentando estabilidade suficiente para produzir um teste de gaveta aparentemente normal.
Quando a suspeita clínica permanece apesar de uma gaveta negativa, exames complementares e métodos de avaliação da articulação podem ser indicados de acordo com cada paciente.
A ultrassonografia musculoesquelética, exames de imagem avançados e, em situações selecionadas, a artroscopia podem auxiliar na avaliação das estruturas intra-articulares. A artroscopia possui a vantagem de permitir a visualização direta do ligamento e dos meniscos.
Portanto, é importante diferenciar duas perguntas: o teste de gaveta consegue detectar a insuficiência do ligamento cruzado cranial? Sim. Ele consegue dizer sozinho, com segurança, se a ruptura é total ou parcial? Nem sempre.
Uma gaveta cranial bastante evidente em diferentes posições do joelho aumenta a suspeita de perda importante da função do ligamento. Uma instabilidade discreta, principalmente identificada apenas em determinados ângulos de flexão, pode ocorrer em rupturas parciais.
Porém, uma gaveta negativa não significa necessariamente que o ligamento esteja íntegro.
Essa característica explica por que alguns cães com ruptura parcial podem apresentar claudicação, dor e inflamação no joelho durante semanas ou meses antes que uma instabilidade evidente seja encontrada. O ligamento ainda possui fibras funcionais, mas isso não significa necessariamente que esteja saudável.
Além disso, a doença do ligamento cruzado cranial em cães frequentemente apresenta caráter progressivo. Um ligamento parcialmente comprometido pode sofrer degeneração adicional e eventualmente evoluir para uma perda maior de sua integridade.
Por esse motivo, pacientes com claudicação persistente ou recorrente do membro posterior devem ser avaliados mesmo quando um teste inicial de gaveta não demonstra uma instabilidade evidente.
Na prática, portanto, o teste de gaveta é uma ferramenta extremamente importante, mas deve fazer parte de um exame ortopédico completo.
Seu resultado precisa ser interpretado em conjunto com o histórico do paciente, o padrão da claudicação, a palpação do joelho, o teste de compressão tibial, os achados radiográficos e, quando necessário, exames complementares.
Quando existe suspeita de ruptura parcial, essa avaliação conjunta se torna ainda mais relevante.
O objetivo não é apenas determinar se existe ou não movimento de gaveta, mas compreender se o joelho apresenta sinais de doença do ligamento cruzado cranial mesmo antes de desenvolver uma instabilidade grosseiramente perceptível.
Referências bibliográficas
Scavelli TD, Schrader SC, Matthiesen DT, Skorup DE. Partial rupture of the cranial cruciate ligament of the stifle in dogs: 25 cases (1982–1988). Journal of the American Veterinary Medical Association. 1990;196(7):1135-1138.
Strom H. Partial rupture of the cranial cruciate ligament in dogs. Journal of Small Animal Practice. 1990;31(3):137-140. doi:10.1111/j.1748-5827.1990.tb00746.x.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.
