O que é displasia coxofemoral em cães e por que ela é tão comum
- Felipe Garofallo

- 21 de jan.
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A displasia coxofemoral é uma doença ortopédica caracterizada pelo desenvolvimento anormal da articulação do quadril, onde a cabeça do fêmur não se encaixa de forma adequada no acetábulo.

Em um quadril saudável, essa articulação funciona como uma engrenagem bem ajustada, permitindo movimentos suaves e estáveis.
Na displasia, esse encaixe é imperfeito desde as fases iniciais do crescimento, o que gera instabilidade articular e, com o passar do tempo, inflamação, desgaste da cartilagem e desenvolvimento de artrose.
Diferentemente do que muitos tutores imaginam, a displasia coxofemoral não é uma doença que surge subitamente na vida adulta. Ela se inicia ainda no período de crescimento do cão, quando ossos, músculos e ligamentos estão em formação.
O filhote já nasce com predisposição genética, mas os sinais clínicos podem aparecer cedo, tardiamente ou até permanecer discretos por anos, dependendo do grau da alteração e das compensações do organismo.
O motivo pelo qual a displasia coxofemoral é tão comum está diretamente ligado à combinação entre genética e seleção artificial das raças.
Muitas raças populares, especialmente cães de médio e grande porte, foram selecionadas ao longo das décadas por características como tamanho, força, musculatura e estética, sem que a saúde articular fosse o principal critério. Esse processo favoreceu a perpetuação de genes relacionados à instabilidade do quadril, tornando a doença extremamente frequente em determinadas linhagens.
Além do fator genético, aspectos ambientais exercem grande influência no desenvolvimento da displasia.
Crescimento acelerado, alimentação excessivamente calórica, ganho de peso precoce, exercícios de alto impacto durante a fase de crescimento e pisos escorregadios contribuem para agravar a instabilidade da articulação.
Um cão geneticamente predisposto pode desenvolver uma displasia mais grave se esses fatores não forem controlados, enquanto outro, com a mesma predisposição, pode apresentar sinais mais leves quando bem manejado.
Outro ponto importante é que a displasia coxofemoral costuma ser bilateral, ou seja, afeta os dois quadris na maioria dos casos. Isso faz com que muitos cães não apresentem claudicação evidente, já que não há um membro saudável para compensar o outro.
Em vez disso, surgem alterações sutis na marcha, redução de desempenho físico e adaptações posturais que passam despercebidas pelo tutor por muito tempo. Essa característica contribui para a falsa impressão de que a doença é menos comum do que realmente é, quando na verdade está apenas subdiagnosticada.
A alta frequência da displasia também se explica pelo aumento da expectativa de vida dos cães. Com melhores cuidados veterinários, nutrição e prevenção de doenças infecciosas, os cães vivem mais, o que permite que condições ortopédicas degenerativas, como a artrose secundária à displasia, se manifestem de forma mais clara ao longo dos anos. Assim, muitos animais só recebem o diagnóstico quando já apresentam dor crônica e limitações importantes.
Do ponto de vista clínico, a displasia coxofemoral não é apenas uma alteração anatômica, mas uma doença funcional. O principal problema não é apenas o formato do quadril, mas a instabilidade articular contínua, que gera microtraumas repetidos a cada passo.
Com o tempo, essa instabilidade leva à inflamação persistente, espessamento da cápsula articular, perda de cartilagem e formação de osteófitos, caracterizando a artrose. É esse processo progressivo que compromete a qualidade de vida do cão.
Por ser tão comum, especialmente em raças predispostas, a displasia coxofemoral deve ser encarada como uma condição que exige vigilância precoce.
Avaliações ortopédicas, controle de peso, orientação adequada sobre exercícios e, quando indicado, exames de imagem são fundamentais para identificar o problema antes que as alterações articulares se tornem irreversíveis.
Quanto mais cedo a displasia é reconhecida, maiores são as possibilidades de manejo eficaz e de preservação da mobilidade do animal.
Em resumo, a displasia coxofemoral é comum porque resulta de uma combinação entre genética amplamente difundida nas raças, fatores ambientais que favorecem sua progressão e características clínicas que tornam seus sinais iniciais discretos.
Compreender essa realidade é essencial para que tutores e veterinários consigam agir de forma preventiva e estratégica, reduzindo o impacto da doença ao longo da vida do cão.
Referências bibliográficas
Fossum, T. W. Small Animal Surgery. Elsevier, St. Louis.
Textbook of Veterinary Orthopaedics and Traumatology, Brinker, Piermattei and Flo. Saunders Elsevier.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.