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O que acontece se não tratar a ruptura do ligamento cruzado?

27 de set.
7 min de leitura

A ruptura do ligamento cruzado cranial é uma das principais causas de dor e claudicação dos membros posteriores em cães.


Cão marrom e branco caminha cauteloso numa sala aconchegante, com sofá bege, manta e luz natural.

Quando esse ligamento perde sua função, parcial ou completamente, o joelho deixa de apresentar a estabilidade normal durante o apoio e a movimentação. Por esse motivo, quando a ruptura do ligamento cruzado não é tratada adequadamente, o problema não se limita ao próprio ligamento: com o passar do tempo, outras estruturas da articulação também podem ser afetadas.


Para entender o que acontece, primeiro é importante compreender a função do ligamento cruzado cranial. Ele está localizado no interior do joelho e participa do controle do movimento entre o fêmur e a tíbia. Durante o apoio do membro, forças importantes atuam sobre essa articulação. Em um joelho saudável, o ligamento cruzado ajuda a impedir movimentos excessivos e mantém a articulação funcionalmente estável.


Quando ocorre sua ruptura, essa estabilidade é prejudicada. A tíbia pode apresentar um deslocamento anormal em relação ao fêmur durante determinadas fases do movimento. Essa alteração modifica a biomecânica normal do joelho e faz com que estruturas que não deveriam receber determinadas cargas passem a ser submetidas repetidamente a forças anormais.


Por isso, uma das principais consequências de uma ruptura do ligamento cruzado sem tratamento adequado é a progressão da osteoartrose.


A instabilidade articular favorece inflamação, alterações da cartilagem, formação de osteófitos e remodelamento progressivo da articulação. A doença do ligamento cruzado cranial é reconhecida como uma importante causa de osteoartrose do joelho dos cães. (ACVS)


É importante esclarecer que algum grau de osteoartrose pode continuar progredindo mesmo após o tratamento. A cirurgia não transforma novamente o joelho em uma articulação que nunca apresentou doença.


Entretanto, a estabilização adequada busca melhorar a biomecânica da articulação e reduzir as consequências da instabilidade. O American College of Veterinary Surgeons observa que a progressão da artrite é esperada ao longo dos anos, mas tende a ocorrer mais lentamente após o tratamento cirúrgico do que com o manejo exclusivamente clínico. (ACVS)


Outra consequência possível é a lesão do menisco. Os meniscos são estruturas localizadas entre o fêmur e a tíbia e desempenham funções importantes na distribuição de cargas, absorção de impacto e funcionamento adequado do joelho.


Quando o ligamento cruzado está rompido e existe instabilidade, o menisco medial pode ficar sujeito a forças anormais. Durante o movimento, ele pode ser comprimido entre o fêmur e a tíbia e acabar sofrendo uma lesão. As alterações meniscais são reconhecidamente associadas à doença do ligamento cruzado cranial, embora a literatura mostre variabilidade na frequência relatada e limitações na qualidade das evidências disponíveis sobre seus fatores de risco. (Wiley Online Library)


Em alguns cães, a lesão meniscal provoca uma piora relativamente súbita da claudicação. Um paciente que vinha conseguindo apoiar parcialmente o membro pode passar a apresentar mais dor ou evitar novamente o apoio. Em determinadas situações, também pode existir um estalido durante a movimentação do joelho, embora sua ausência não exclua uma lesão meniscal.


Outra alteração importante ocorre na musculatura. Quando o cachorro sente dor ou insegurança para utilizar o membro, passa naturalmente a descarregar menos peso sobre ele. Com o passar das semanas e dos meses, essa redução de uso pode provocar perda de massa muscular, principalmente na musculatura da coxa.


Essa atrofia muscular cria outro problema. Uma musculatura forte contribui para o controle e a função do membro. Quando ocorre perda muscular, o cachorro pode apresentar ainda mais dificuldade para utilizar adequadamente aquela perna. Dependendo da duração do quadro, a recuperação dessa musculatura posteriormente pode exigir um período significativo de reabilitação.


Alguns tutores percebem uma aparente melhora depois das primeiras semanas e interpretam isso como se o ligamento tivesse cicatrizado sozinho. Essa interpretação merece cuidado.

A redução da claudicação não significa necessariamente que o ligamento tenha recuperado sua função normal.


Em quadros crônicos não tratados, alterações como fibrose da cápsula articular e formação de osteófitos podem reduzir parcialmente a movimentação anormal do joelho. Em outras palavras, uma articulação cronicamente doente pode ficar aparentemente mais "firme", mas isso ocorre às custas de alterações degenerativas e redução de sua função normal.


Uma revisão sobre a doença do ligamento cruzado descreve justamente essa estabilização parcial decorrente das alterações crônicas, ressaltando que ela não supera os efeitos negativos do processo degenerativo. (PubMed Central (PMC))


Isso explica por que alguns cães que inicialmente apresentavam uma claudicação muito evidente passam a caminhar aparentemente melhor depois de algum tempo, mesmo sem terem recebido tratamento definitivo. O organismo encontra maneiras de compensar parcialmente a instabilidade, mas isso não significa que o joelho tenha voltado ao estado normal.


Além disso, a própria ruptura pode ser progressiva. Em cães, a doença do ligamento cruzado frequentemente está relacionada a um processo degenerativo, e não simplesmente a um trauma isolado sobre um ligamento completamente saudável. Rupturas parciais são comuns e podem evoluir para uma ruptura completa ao longo do tempo. (ACVS)


Dessa forma, um cachorro com ruptura parcial pode apresentar inicialmente uma claudicação discreta ou intermitente. Ele manca depois de correr, melhora após alguns dias de repouso e volta a apresentar sintomas quando aumenta novamente a atividade. Se a degeneração das fibras ligamentares continuar, a estabilidade pode diminuir progressivamente e o quadro clínico tornar-se mais evidente.


Outro aspecto importante é a dor crônica. A dor associada à ruptura do ligamento cruzado não depende somente do ligamento lesionado. Sinovite, instabilidade, lesão meniscal e osteoartrose podem contribuir para o desconforto.


Conforme a doença articular progride, alguns cães passam a apresentar dificuldade para levantar, subir escadas, entrar no carro, correr, brincar ou realizar atividades que antes faziam normalmente.


Em casos mais avançados, o tutor pode perceber que o cachorro fica mais rígido depois de permanecer deitado por algum tempo, demora alguns passos para caminhar melhor ou reduz espontaneamente seu nível de atividade.


Muitas vezes essas mudanças acontecem gradualmente e acabam sendo atribuídas à idade, principalmente em cães adultos ou idosos.


Também pode ocorrer sobrecarga de outros membros. Quando o cachorro evita utilizar normalmente uma das pernas, modifica a distribuição do peso durante a locomoção. Essa compensação não significa necessariamente que outro problema ortopédico surgirá, mas pode influenciar a maneira como o animal se movimenta e deve ser considerada durante sua avaliação.


Existe ainda uma característica importante da doença do ligamento cruzado em cães: o outro joelho também merece acompanhamento. A doença frequentemente apresenta um componente bilateral. Segundo o American College of Veterinary Surgeons, até metade dos cães diagnosticados com doença do ligamento cruzado em um joelho pode desenvolver a condição no joelho contralateral, frequentemente nos meses seguintes. (ACVS)


Isso não significa que deixar um joelho sem cirurgia necessariamente fará o ligamento do outro joelho romper. A doença é multifatorial e fatores como conformação, peso corporal, genética, condição física e degeneração ligamentar podem participar do processo. Entretanto, a possibilidade de envolvimento bilateral é uma informação relevante no acompanhamento desses pacientes.


A pergunta "o que acontece se não tratar a ruptura do ligamento cruzado?" também precisa considerar que não tratar cirurgicamente e não tratar são coisas diferentes.


Nem todo tratamento da doença do ligamento cruzado é necessariamente igual. Existem situações nas quais pode ser considerado um manejo conservador estruturado, especialmente levando em consideração peso, idade, grau de instabilidade, nível de atividade, condições clínicas concomitantes e características individuais do paciente. Esse manejo pode envolver controle de peso, restrição e posterior progressão controlada da atividade física, analgesia, tratamento da osteoartrose e reabilitação.


Portanto, decidir não realizar uma cirurgia não deveria significar simplesmente deixar o cachorro mancando e esperar que o problema desapareça.


Em cães maiores, ativos ou com instabilidade significativa, técnicas cirúrgicas de estabilização são frequentemente consideradas. Entre elas estão procedimentos baseados em osteotomias, como a TPLO, e técnicas de estabilização extracapsular. A escolha depende das características do paciente e deve ser feita após avaliação ortopédica.


Também é importante não esperar necessariamente que o cachorro pare completamente de apoiar o membro para procurar avaliação.


Alguns pacientes com doença do ligamento cruzado continuam caminhando, correndo e até brincando. Outros apresentam somente claudicação após atividade física. A intensidade da claudicação não permite, isoladamente, determinar a gravidade de todas as alterações existentes dentro da articulação.


O diagnóstico precoce é especialmente interessante porque permite avaliar o joelho antes que alterações secundárias se tornem mais avançadas. O exame ortopédico pode incluir testes específicos de estabilidade, como o teste de gaveta cranial e o teste de compressão tibial. Radiografias são utilizadas para avaliar alterações articulares secundárias e auxiliar no planejamento terapêutico. Dependendo do caso, exames complementares também podem ser indicados.


Portanto, deixar uma ruptura do ligamento cruzado sem acompanhamento pode levar à manutenção da instabilidade, progressão da osteoartrose, dor, perda muscular, limitação funcional e possibilidade de lesão meniscal. A literatura descreve progressão das alterações degenerativas especialmente nos casos não tratados. (PubMed Central (PMC))


Isso não significa que todos os cães apresentarão exatamente a mesma evolução ou na mesma velocidade. Um paciente pequeno e pouco ativo pode ter uma evolução bastante diferente de um cão grande, jovem e extremamente ativo. Ruptura parcial e completa também podem produzir quadros diferentes. Por isso, mais importante do que simplesmente perguntar quanto tempo um cachorro consegue permanecer com o ligamento rompido é avaliar como aquele joelho está funcionando e quais alterações já estão presentes.


Quando existe suspeita de ruptura do ligamento cruzado cranial, a avaliação ortopédica permite confirmar o diagnóstico, determinar o grau de instabilidade e discutir as alternativas de tratamento.


Quanto mais cedo essas informações forem obtidas, mais consciente pode ser a decisão sobre a melhor estratégia para preservar conforto e função do membro.


Referências bibliográficas


Muir P, ed. Advances in the Canine Cranial Cruciate Ligament. 2nd ed. Hoboken, NJ: Wiley-Blackwell; 2018.


Boge GS, Moldal ER, Dimopoulou M, Skjerve E, Bergström TF. Etiopathogenesis of canine cruciate ligament disease: a scoping review. Animals. 2023;13(2):187. doi:10.3390/ani13020187. (mdpi.com)


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


Horário: Segunda à sexta, 11h às 18h. Sábados 10:00 às 14:00
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