O ligamento cruzado em cães pode estar rompido só parcialmente?
O ligamento cruzado cranial pode sofrer uma ruptura parcial, situação relativamente comum em cães e que, em alguns casos, representa uma fase inicial ou intermediária da doença do ligamento cruzado cranial.

Uma dúvida relativamente comum entre os tutores é: o ligamento cruzado em cães pode estar rompido só parcialmente? Sim. O ligamento cruzado cranial pode sofrer uma ruptura parcial, situação em que apenas parte de suas fibras está comprometida, enquanto outras permanecem íntegras e ainda contribuem para a estabilidade do joelho.
Diferentemente de uma ruptura completa, na qual há perda importante da função estabilizadora do ligamento, na ruptura parcial apenas parte de suas fibras está comprometida, enquanto outras permanecem íntegras e ainda contribuem para a estabilidade do joelho.
O ligamento cruzado cranial está localizado dentro da articulação do joelho e exerce um papel fundamental na sua estabilidade.
Entre suas principais funções estão limitar o deslocamento da tíbia em relação ao fêmur, controlar determinados movimentos de rotação e impedir a hiperextensão excessiva da articulação. Quando o ligamento está saudável, esses mecanismos ajudam a manter o joelho estável durante atividades como caminhar, correr, subir escadas, brincar ou simplesmente levantar-se.
Uma característica importante é que o ligamento cruzado cranial não funciona necessariamente como uma estrutura única e homogênea. Suas fibras podem ser agrupadas funcionalmente em diferentes porções, tradicionalmente descritas como bandas craniomedial e caudolateral.
Essas fibras apresentam comportamentos diferentes conforme o joelho é flexionado ou estendido. Por esse motivo, uma lesão pode atingir predominantemente determinada porção do ligamento, preservando outras fibras.
Isso ajuda a explicar por que alguns cães com ruptura parcial apresentam um quadro clínico muito menos evidente do que aqueles com ruptura completa.
Em uma ruptura completa, é relativamente comum observar claudicação importante e alterações de estabilidade facilmente identificáveis durante o exame ortopédico. Já nas rupturas parciais, o quadro pode ser mais discreto.
O cão pode mancar apenas depois de exercícios, apresentar períodos em que parece estar completamente normal ou demonstrar dificuldade somente em determinados movimentos.
Alguns tutores relatam, por exemplo, que o cachorro começou a mancar após uma brincadeira ou corrida, melhorou depois de alguns dias de repouso e voltou a apresentar o problema semanas depois. Outros percebem apenas uma pequena mudança na maneira como o animal apoia o membro ou uma redução na disposição para determinadas atividades.
Essa característica intermitente pode fazer com que a ruptura parcial seja confundida com uma lesão muscular, uma pequena entorse ou até mesmo com uma dor passageira.
Entretanto, especialmente em cães, a doença do ligamento cruzado cranial frequentemente apresenta um componente degenerativo. Isso significa que nem sempre existe um único trauma responsável por romper um ligamento que era completamente saudável. Em muitos pacientes ocorre uma deterioração progressiva das fibras ligamentares, tornando o ligamento cada vez mais vulnerável.
Assim, aquele episódio em que o cachorro correu, escorregou ou pulou e começou a mancar pode representar o momento em que um ligamento previamente comprometido apresentou uma lesão maior, e não necessariamente a causa inicial de todo o problema.
Essa diferença é importante porque ajuda a entender por que uma ruptura parcial não deve ser considerada simplesmente uma versão "leve" da ruptura do ligamento cruzado.
Enquanto algumas fibras permanecem funcionando, outras já perderam sua integridade. Além disso, a inflamação presente dentro da articulação e as alterações biomecânicas do joelho podem contribuir para a progressão da doença. Em determinados pacientes, uma ruptura inicialmente parcial pode evoluir posteriormente para uma ruptura completa.
O diagnóstico também pode ser mais desafiador.
Um dos testes mais conhecidos para avaliar o ligamento cruzado cranial é o chamado teste de gaveta cranial. Quando existe ruptura completa, pode ocorrer um deslocamento anormal da tíbia em relação ao fêmur. Entretanto, em uma ruptura parcial, as fibras que ainda permanecem íntegras podem limitar esse deslocamento.
Por isso, um cachorro pode apresentar uma lesão parcial do ligamento cruzado mesmo sem uma gaveta cranial evidente durante uma avaliação inicial.
Outro exame utilizado é o teste de compressão tibial, que também busca identificar instabilidade compatível com insuficiência do ligamento cruzado cranial. Assim como ocorre com o teste de gaveta, sua interpretação depende de diversos fatores, incluindo o grau da lesão, posicionamento do membro, tensão muscular e experiência do examinador.
Em alguns cães, a tensão muscular durante a consulta dificulta ainda mais a identificação de pequenas instabilidades. Dependendo do caso, a avaliação sob sedação pode facilitar um exame ortopédico mais preciso.
Além da instabilidade, existem outros achados que podem levantar a suspeita de doença do ligamento cruzado. Dor durante a manipulação do joelho, presença de derrame articular, espessamento periarticular, desconforto durante a extensão e alterações na maneira como o animal apoia o membro são exemplos de informações que podem contribuir para o diagnóstico.
As radiografias também fazem parte da investigação, mas existe uma questão importante: o ligamento cruzado cranial normalmente não é visualizado diretamente em uma radiografia convencional.
Isso significa que a radiografia não é utilizada simplesmente para "enxergar o ligamento rompido". Ela permite avaliar alterações secundárias que podem acompanhar a doença, como aumento de líquido dentro da articulação, alterações de tecidos moles e sinais de osteoartrose, além de ajudar a investigar outras possíveis causas de claudicação.
Em casos iniciais ou de ruptura parcial, entretanto, as alterações radiográficas podem ser discretas.
Quando permanecem dúvidas diagnósticas, outros métodos podem ser considerados de acordo com o caso. Ultrassonografia musculoesquelética, ressonância magnética e artroscopia podem fornecer informações adicionais sobre estruturas intra-articulares. A artroscopia, particularmente, permite a visualização direta das estruturas dentro da articulação e também possibilita a avaliação dos meniscos.
Os meniscos merecem atenção especial porque estão intimamente relacionados à biomecânica do joelho. Quando existe instabilidade causada pela insuficiência do ligamento cruzado cranial, especialmente em situações mais avançadas, o menisco medial pode ficar sujeito a forças anormais e sofrer lesões.
Por isso, a avaliação de um paciente com suspeita de ruptura parcial não deve se limitar à pergunta "o ligamento está rompido ou não?".
É importante avaliar quanto da função ligamentar foi perdida, se existe instabilidade articular, se há inflamação, se já existem alterações degenerativas e se há suspeita de comprometimento meniscal.
Também é importante entender que nem todos os pacientes com ruptura parcial apresentam exatamente a mesma evolução.
A velocidade de progressão pode variar conforme características individuais, conformação do membro, peso corporal, atividade física, idade, condição corporal e alterações ortopédicas associadas. Alguns cães permanecem durante determinado período apresentando sinais discretos, enquanto outros evoluem para uma instabilidade mais evidente.
Por esse motivo, o tratamento deve ser definido individualmente após uma avaliação ortopédica adequada.
Em determinadas situações, principalmente quando a instabilidade ainda é pequena e as manifestações clínicas são discretas, pode ser discutido inicialmente um tratamento conservador, envolvendo controle de atividade, controle adequado do peso corporal, analgesia quando indicada e um programa estruturado de reabilitação.
Por outro lado, quando existe instabilidade funcional significativa, claudicação persistente, progressão dos sinais clínicos ou características do paciente que tornam improvável um bom controle apenas com tratamento conservador, o tratamento cirúrgico pode ser considerado.
Existem diferentes técnicas cirúrgicas utilizadas para pacientes com insuficiência do ligamento cruzado cranial.
A escolha não depende exclusivamente de o ligamento estar parcial ou completamente rompido. Peso, idade, conformação do membro, grau de instabilidade, nível de atividade, alterações associadas e avaliação individual do joelho também fazem parte da decisão.
Portanto, sim: um cachorro pode apresentar apenas uma ruptura parcial do ligamento cruzado cranial.
O ponto mais importante é que uma ruptura parcial não significa necessariamente que o problema seja insignificante. Ela pode representar uma etapa de uma doença progressiva e, justamente por produzir sinais mais sutis, pode passar despercebida durante algum tempo.
Quando um cachorro apresenta claudicação recorrente de membro posterior, principalmente quando melhora com repouso e retorna após exercícios, a doença do ligamento cruzado cranial deve estar entre os diagnósticos diferenciais. Uma avaliação ortopédica detalhada permite investigar a estabilidade do joelho, identificar alterações associadas e determinar a melhor estratégia para aquele paciente.
O diagnóstico precoce permite acompanhar a evolução da articulação e tomar decisões terapêuticas antes que alterações secundárias se tornem mais avançadas.
Referências bibliográficas
Cook JL. Cranial cruciate ligament disease in dogs: biology versus biomechanics. Veterinary Surgery. 2010;39(3):270-277.
Muir P, ed. Advances in the Canine Cranial Cruciate Ligament. 2nd ed. Hoboken, NJ: Wiley-Blackwell; 2018.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.
