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O excesso de peso em cães aumenta o risco de romper o ligamento cruzado?

23 de set.
6 min de leitura

O excesso de peso em cães está associado a um maior risco de desenvolvimento da doença e ruptura do ligamento cruzado cranial. 


Labrador amarelo caminhando num trilho de parque verde, com a língua de fora e expressão tranquila.

Isso não significa que todo cachorro acima do peso terá uma ruptura, nem que a obesidade seja a única causa do problema. A doença do ligamento cruzado em cães é considerada multifatorial, envolvendo características individuais, predisposição genética, conformação do membro, idade, peso corporal e alterações progressivas do próprio ligamento. Ainda assim, o excesso de peso é um fator importante e, diferentemente de muitos desses fatores, pode ser modificado. (PubMed Central (PMC))


Quando pensamos em ruptura do ligamento cruzado cranial, é comum imaginar um cachorro correndo, pulando ou fazendo algum movimento brusco e, naquele momento, rompendo um ligamento que até então era completamente saudável. Embora traumas possam ocorrer, essa não é a explicação para muitos dos casos observados na rotina veterinária.


Em cães, a ruptura do ligamento cruzado frequentemente está relacionada a um processo degenerativo progressivo. Ao longo do tempo, alterações estruturais e biológicas podem reduzir a resistência do ligamento. Em determinado momento, suas fibras podem começar a se romper parcialmente e, posteriormente, a lesão pode progredir até uma ruptura completa.


Nesse contexto, o peso corporal passa a ser especialmente importante.


Durante atividades simples do dia a dia, como caminhar, correr, levantar-se, subir escadas ou saltar, forças são transmitidas através das articulações dos membros. Quanto maior a massa corporal do animal, maior pode ser a demanda mecânica sobre essas estruturas. Em um cachorro predisposto à doença do ligamento cruzado, o excesso de peso pode representar um fator adicional atuando sobre uma articulação que já apresenta outros fatores de risco.


Estudos epidemiológicos encontraram uma associação entre peso corporal e ocorrência da doença. Em um estudo clássico envolvendo mais de 10 mil cães com ruptura do ligamento cruzado cranial, animais com peso superior a 22 kg apresentaram maior prevalência da doença do que cães abaixo desse peso e também tenderam a apresentar a ruptura mais jovens.


É importante observar que peso corporal e obesidade não são exatamente a mesma coisa: um cão pode pesar muito simplesmente porque pertence a uma raça de grande porte. (PubMed)


Essa distinção é importante porque o que realmente queremos avaliar em um paciente não é simplesmente quantos quilos aparecem na balança, mas se aquele peso é adequado para sua estrutura corporal.


Um Labrador Retriever com 30 kg, por exemplo, pode apresentar uma condição corporal adequada, enquanto outro cão da mesma raça e com peso semelhante pode apresentar excesso de gordura corporal dependendo de seu tamanho e composição corporal. Da mesma maneira, um cachorro de apenas 8 kg pode estar significativamente acima de seu peso ideal.


Por isso, na medicina veterinária utilizamos também o escore de condição corporal para avaliar se o paciente está abaixo do peso, dentro da condição considerada ideal, com sobrepeso ou obeso.

E existem evidências especificamente relacionando obesidade à ruptura do ligamento cruzado.


Um estudo realizado no Reino Unido avaliou fatores associados ao desenvolvimento da ruptura do ligamento cruzado cranial e encontrou que a obesidade esteve associada a aproximadamente 3,8 vezes as chances de ruptura quando comparada à condição corporal considerada normal. Como se trata de um estudo observacional, esse resultado demonstra uma associação e não significa que a obesidade, isoladamente, seja responsável por causar todas essas rupturas.


Ainda assim, é um dado relevante sobre a relação entre condição corporal e doença do ligamento cruzado. (PubMed)


Outro estudo avaliou de maneira mais detalhada a composição corporal de cães de médio a gigante porte com e sem doença do ligamento cruzado cranial. Os cães afetados apresentaram percentual médio de gordura corporal de aproximadamente 38,8%, enquanto o grupo controle apresentou aproximadamente 27,5%.


Os animais com doença do ligamento cruzado também apresentaram menor escore de condição muscular. Os autores concluíram que os cães afetados estavam acima do peso em comparação ao grupo controle e que o sobrepeso pode representar um fator predisponente para o desenvolvimento da doença. (PubMed)


Entretanto, existe um detalhe importante nessa relação: associação não significa necessariamente causalidade direta.


Um cachorro com dor no joelho pode começar a se movimentar menos. Ao reduzir sua atividade física, ele pode perder massa muscular e ganhar gordura corporal. Portanto, em alguns pacientes, parte da alteração da composição corporal pode também ser consequência da doença ortopédica.


Por outro lado, existem diferentes estudos epidemiológicos demonstrando associação entre maior peso, obesidade ou maior relação entre peso e altura e a ocorrência de doença do ligamento cruzado. Em cães praticantes de agility, por exemplo, maior peso corporal e maior relação peso-altura também estiveram associados ao aumento do risco de ruptura. (PubMed)

Isso reforça a ideia de que o peso deve fazer parte da avaliação de risco, mas nunca deve ser analisado isoladamente.


Existem cães magros que rompem o ligamento cruzado e existem cães obesos que nunca apresentarão a doença. Raça, genética, anatomia do joelho, conformação dos membros, idade e outros fatores biológicos e biomecânicos também participam do desenvolvimento da doença. (PubMed Central (PMC))


Portanto, não seria correto dizer que um cachorro rompeu o ligamento cruzado simplesmente "porque estava gordo".


Uma forma mais adequada de entender essa relação é considerar o excesso de peso como um dos fatores que podem aumentar a predisposição para o desenvolvimento da doença, especialmente quando associado a outros fatores de risco.


Além disso, controlar o peso ganha ainda mais importância quando o cachorro já apresenta uma ruptura do ligamento cruzado.


Depois que um joelho está lesionado, queremos reduzir cargas desnecessárias sobre a articulação e preservar ou recuperar a musculatura dos membros posteriores. O controle da condição corporal passa, portanto, a fazer parte do manejo ortopédico desses pacientes, independentemente de o tratamento escolhido ser cirúrgico ou conservador.


Esse cuidado também é importante porque a doença do ligamento cruzado não deve ser vista apenas como um problema localizado em um único joelho.


Muitos cães que apresentam ruptura em um dos membros possuem alterações degenerativas ou predisposição que também podem estar presentes no joelho contralateral. Isso significa que, depois do diagnóstico da ruptura de um lado, também é importante pensar na proteção do outro membro.


Durante a recuperação, essa preocupação se torna ainda mais relevante. Um cachorro que sente dor ou apresenta dificuldade para apoiar um membro naturalmente transfere parte da carga para os outros. Se estiver acima do peso, essa sobrecarga pode ser ainda maior.


Por isso, quando um paciente com ruptura do ligamento cruzado apresenta sobrepeso ou obesidade, a redução de peso deve ser planejada de maneira cuidadosa.


Simplesmente aumentar drasticamente a quantidade de exercícios para fazer o cachorro emagrecer pode ser inadequado em um animal com instabilidade e dor no joelho.


O emagrecimento normalmente precisa envolver principalmente um planejamento nutricional adequado, associado a exercícios controlados e compatíveis com a condição ortopédica do paciente.

O objetivo também não deve ser apenas fazer o número da balança diminuir.


Preservar massa muscular é particularmente importante em pacientes ortopédicos.


A musculatura dos membros posteriores participa ativamente da estabilidade e da função durante a locomoção. Um cachorro que emagrece perdendo quantidade significativa de músculo não necessariamente está evoluindo da maneira desejada.


Por esse motivo, peso corporal, condição corporal e condição muscular são informações diferentes e devem ser acompanhadas durante o tratamento.


Também não existe um peso universal considerado seguro para todos os cães. O peso ideal de um Chihuahua é completamente diferente daquele esperado para um Golden Retriever, e mesmo dentro da mesma raça existem variações individuais importantes. A avaliação deve considerar a estrutura corporal daquele animal.


Na prática, isso significa observar características como a possibilidade de palpar as costelas sem uma camada excessiva de gordura, presença de cintura quando o cachorro é observado de cima e contorno abdominal quando observado lateralmente. Esses parâmetros ajudam a determinar a condição corporal do paciente de maneira mais adequada do que utilizar somente o peso em quilogramas.


Portanto, o excesso de peso em cães aumenta o risco de romper o ligamento cruzado, mas essa relação precisa ser interpretada corretamente. A obesidade não é a única causa da ruptura e não explica todos os casos. A doença do ligamento cruzado cranial é multifatorial, e alguns cães apresentam predisposição mesmo estando dentro de uma condição corporal adequada.


Ainda assim, manter o cachorro próximo de sua condição corporal ideal é uma das medidas que podemos efetivamente controlar.


Além dos benefícios gerais para a saúde, isso reduz uma fonte desnecessária de sobrecarga sobre as articulações e se torna particularmente importante nos animais que já apresentam doença ortopédica ou predisposição à ruptura do ligamento cruzado.


Em cães que já sofreram uma ruptura, o controle do peso deve fazer parte não apenas da recuperação daquele joelho, mas de uma estratégia de longo prazo para preservar a mobilidade, a musculatura e a saúde das articulações.

Referências bibliográficas

Adams P, Bolus R, Middleton S, Moores AP, Grierson J. Influence of signalment on developing cranial cruciate rupture in dogs in the UK. Journal of Small Animal Practice. 2011;52(7):347-352. (PubMed)

Santarossa A, Gibson TWG, Kerr C, et al. Body composition of medium to giant breed dogs with or without cranial cruciate ligament disease. Veterinary Surgery. 2020;49:1144-1153. (Wiley Online Library)


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


Horário: Segunda à sexta, 11h às 18h. Sábados 10:00 às 14:00
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