Músculo iliopsoas em cães
- Felipe Garofallo

- 11 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
O músculo iliopsoas é uma das estruturas mais importantes, e ao mesmo tempo mais esquecidas quando se trata de dor e claudicação em cães.

Ele é formado pela união de dois músculos, o psoas maior e o ilíaco, que se juntam antes de se inserirem no trocânter menor do fêmur.
Essa anatomia única faz com que ele seja o principal flexor do quadril e um dos maiores responsáveis pela estabilidade da coluna lombar e da pelve. Isso significa que praticamente todos os movimentos do membro pélvico exigem a participação do iliopsoas: correr, saltar, subir escadas, iniciar a marcha, fazer curvas e até levantar do repouso.
Quando há dor ou lesão nesse músculo, o impacto no movimento é imediato e frequentemente confundido com doenças do quadril, coluna ou até lesões de joelho.
A dor no iliopsoas costuma ser traiçoeira, porque o músculo é profundo e não pode ser palpado diretamente como estruturas mais superficiais.
Em muitos cães, a única pista inicial é uma claudicação leve que piora com exercícios intensos, brincadeiras ou caminhadas mais longas.
Em outros casos, o tutor percebe um desconforto agudo quando o cão tenta saltar ou após escorregar em pisos lisos.
O iliopsoas é particularmente vulnerável a estiramentos bruscos: basta um passo em falso, uma corrida sem aquecimento, uma frenagem rápida ou um escorregão lateral para que suas fibras sofram microlesões. É por isso que cães que vivem em apartamentos, mas fazem movimentos explosivos ocasionalmente, são tão predispostos quanto cães atletas.
Cães com dor no iliopsoas geralmente apresentam um padrão de claudicação que pode enganar até profissionais experientes. O animal não necessariamente manca de forma clara; em vez disso, pode caminhar com passos curtos, proteger o membro durante a extensão, evitar subir escadas, demonstrar rigidez ao levantar ou até apresentar uma marcha que lembra dor lombar.
A dor pode irradiar para o quadril, coxa e região lombossacral, confundindo o diagnóstico. Em alguns casos, o único sinal é uma sensibilidade marcada quando o quadril é estendido e a coxa é simultaneamente rota externamente. uma manobra clássica, mas que deve ser feita com cuidado, pois pode induzir dor intensa.
Uma característica muito importante do iliopsoas é sua ligação funcional com a coluna lombar.
Na prática, lesões leves em discos intervertebrais, protusões, lombalgias crônicas ou instabilidades vertebrais aumentam a sobrecarga sobre o iliopsoas, que tenta estabilizar a região durante o movimento.
Da mesma forma, quando o iliopsoas está lesionado, ele pode gerar postura arqueada, rigidez lombar e relutância em movimentos que exigem mobilidade da coluna. É uma relação de mão dupla. Em cães idosos ou com artrose de quadril, a ativação constante e compensatória desse músculo pode levá-lo ao limite, causando dor secundária que intensifica o quadro clínico.
Diagnosticar uma tendinopatia ou lesão do iliopsoas requer uma avaliação ortopédica cuidadosa.
Além da manobra de extensão com rotação externa, a palpação profunda da região medial do quadril e da musculatura adjacente pode revelar tensão ou desconforto.
Exames de imagem como ultrassonografia ou tomografia ajudam a confirmar a inflamação, identificar áreas de fibrose, rupturas parciais e calcificações crônicas. Em cães atletas, a avaliação funcional é essencial, já que o problema frequentemente surge por overuse (o uso excessivo) e repetitivo sem tempo adequado de recuperação.
A recuperação do iliopsoas precisa ser levada a sério. É um dos músculos que mais recidiva quando tratado incorretamente. Como é responsável por movimentos amplos e essenciais do quadril, retornar à atividade física cedo demais pode reabrir microlesões e perpetuar o quadro de dor.
O tratamento começa com repouso controlado, analgesia multimodal, anti-inflamatórios e fisioterapia direcionada.
A ultrassonografia terapêutica, laserterapia e massagem profunda podem ajudar a reduzir inflamação e melhorar a cicatrização. A hidroterapia desempenha papel central no tratamento porque permite o movimento do membro com menor carga e amplitude controlada.
O reforço muscular progressivo é indispensável, e exercícios específicos de flexão controlada, rampas e trabalhos proprioceptivos são introduzidos apenas após a dor ter sido estabilizada.
Casos crônicos podem exigir semanas ou meses de reabilitação, especialmente quando há tendinopatia insercional ou calcificação do tendão.
Nessas situações, o manejo é semelhante ao de uma lesão atlética humana: fortalecimento excêntrico, correção postural, ajustes no ambiente, controle do peso e redução de movimentos explosivos.
Em cães com problemas ortopédicos secundários, como displasia ou artrose, é indispensável tratar a causa primária, pois o iliopsoas continuará sobrecarregado enquanto o quadril permanecer instável.
A importância do iliopsoas vai muito além da simples flexão do quadril. Ele é um estabilizador profundo, um dissipador de impacto e um dos principais músculos que garantem fluidez ao movimento.
Quando lesionado, o cão perde conforto, potência e naturalidade na marcha. Muitas claudicações enigmáticas, dores lombares sem causa aparente e dificuldades sutis de mobilidade têm origem nesse músculo. Identificar e tratar a lesão precocemente evita meses de dor, evita recidivas e devolve ao cão sua capacidade plena de movimento.
Referências bibliográficas
Millis D, Levine D. Canine Rehabilitation and Physical Therapy. 2nd ed. Elsevier; 2014.
Evans HE, de Lahunta A. Miller’s Anatomy of the Dog. 4th ed. Elsevier; 2020.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.