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Músculo glúteo profundo em cães

O músculo glúteo profundo é o mais interno dos músculos glúteos dos cães e desempenha um papel essencial na biomecânica fina do quadril.


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Apesar de ser pouco lembrado em avaliações clínicas de rotina, sua função é decisiva para manter o movimento estável, suave e anatomicamente correto. Ele se localiza profundamente sob o glúteo médio, originando-se no corpo do ílio e na espinha isquiática, e inserindo-se no trocânter maior do fêmur.


Diferentemente do glúteo superficial, que participa mais da extensão e abdução amplas do quadril, o glúteo profundo é responsável por movimentos mais precisos: ele realiza a rotação medial do fêmur, estabiliza a cabeça femoral dentro do acetábulo e auxilia na extensão do quadril durante a fase final de apoio.


Por ser um estabilizador profundo, alterações nesse músculo podem gerar consequências muito mais sutis do que as lesões dos músculos superficiais, mas com impacto significativo na marcha.


Cães com disfunção do glúteo profundo frequentemente apresentam um caminhar rígido, dificuldade em realizar a rotação natural da coxa, passos curtos e uma sensação de perda de “fluidez” ao movimentar o quadril. Em alguns casos, essa disfunção se manifesta como um leve arrastar de unha, especialmente quando a articulação do quadril perde sua capacidade de centralização biomecânica.


O glúteo profundo é particularmente exigido em cães com displasia coxofemoral. Quando há frouxidão articular, a cabeça do fêmur se move mais do que deveria dentro do acetábulo, exigindo ativação constante dos músculos estabilizadores profundos.


O glúteo profundo atua como um “centro de controle” dessa articulação, tentando reposicionar a cabeça femoral a cada passo e evitando microdeslocamentos dolorosos.


Com o tempo, porém, essa sobrecarga gera fadiga, espasmos musculares, dor referida e até atrofia da região. Muitos cães displásicos apresentam dor ao estender ou abduzir o quadril não porque a articulação está extremamente degenerada, mas porque os músculos profundos, especialmente o glúteo profundo, estão sobrecarregados e doloridos.


Além das doenças articulares, traumas diretos, quedas, escorregões e movimentos bruscos podem gerar lesões no glúteo profundo. A dor é geralmente difícil de identificar, pois esse músculo não é palpado diretamente.


Em avaliações clínicas, sinais indiretos ajudam no diagnóstico: resistência ao movimento de rotação interna, dor ao realizar abdução combinada com extensão, sensibilidade ao pressionar estruturas próximas ao trocânter maior, além da clássica dificuldade em subir escadas ou saltar em superfícies elevadas. Em alguns cães, a dor do glúteo profundo se manifesta como rigidez após o repouso, que melhora ligeiramente com o movimento, mas retorna após esforços prolongados.


Cães atletas são especialmente dependentes da integridade do glúteo profundo. Em esportes com mudanças rápidas de direção, curvas fechadas, saltos e aterrissagens, esse músculo atua como estabilizador de impacto, absorvendo microforças e controlando a rotação do quadril.


Quando lesionado, o cão perde precisão nos movimentos, apresenta desequilíbrio pélvico e pode desenvolver tendinopatia secundária do glúteo médio devido à compensação. Já em cães idosos, o glúteo profundo tende a atrofiar com o avanço da sarcopenia, reduzindo o controle fino da marcha e aumentando o risco de quedas, principalmente em pisos escorregadios.


O manejo das lesões do glúteo profundo necessita de uma abordagem integrada. A dor geralmente responde bem a anti-inflamatórios e analgesia multimodal, mas a reabilitação é a parte mais importante do processo. Exercícios que estimulam a rotação, a coordenação e a estabilidade do quadril são fundamentais.


Trabalhos proprioceptivos, rampas leves, exercícios laterais controlados e manobras que promovem extensão do quadril ajudam a reativar a musculatura profunda.


A hidroterapia é uma excelente ferramenta porque permite que o cão realize movimentos amplos de quadril com menor impacto, facilitando a recuperação sem agravar a dor. Em casos secundários à displasia ou artrose, é essencial tratar a causa primária para evitar recidivas.


A compreensão da importância do glúteo profundo muda completamente a forma como avaliamos cães com dor na região pélvica. Muitas claudicações leves, marchas rígidas ou alterações de rotação não se devem unicamente à articulação do quadril, mas sim à musculatura responsável por estabilizá-la.


Quando um cão começa a apresentar limitação de rotação interna, dificuldade de impulsão, rigidez após repouso ou redução da amplitude de extensão, o glúteo profundo deve sempre ser considerado como possível fonte de dor.


Um diagnóstico preciso e uma abordagem terapêutica direcionada podem restaurar mobilidade, aliviar dor e melhorar significativamente a qualidade de vida do paciente.


Referências bibliográficas


  1. Evans HE, de Lahunta A. Miller’s Anatomy of the Dog. 4th ed. Elsevier; 2020.

  2. Millis D, Levine D. Canine Rehabilitation and Physical Therapy. 2nd ed. Elsevier; 2014.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


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