Meu cachorro levou um escorregão e agora está mancando: o que pode ser?
- Felipe Garofallo

- 3 de dez. de 2025
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Quando um cachorro escorrega e começa a mancar logo em seguida, isso quase sempre indica que houve algum grau de lesão musculoesquelética.

Às vezes, o escorregão parece algo simples, como correr no piso liso, brincar de forma mais intensa, escorregar na cozinha molhada ou ao descer uma rampa, mas, para o cão, esse mecanismo inesperado de torção, tração ou hiperextensão pode gerar desde uma inflamação leve até uma lesão ortopédica importante.
O tutor geralmente percebe o problema imediatamente: o cachorro evita apoiar a pata, demonstra dor ao caminhar, fica mais quieto, não consegue subir em locais altos ou passa a se sentar de forma estranha para aliviar o desconforto.
Dependendo da força do escorregão, o deslizamento pode produzir uma torção de joelho intensa o suficiente para causar lesões mais sérias. Entre elas, a ruptura do ligamento cruzado cranial é uma das mais comuns, especialmente em raças predispostas como Labrador, Golden Retriever, Rottweiler e cães acima do peso.
O tutor pode notar que o cão até tenta apoiar a pata, mas ela “falseia”, e a dor aumenta após alguns minutos de movimento. Essa é uma condição que normalmente não melhora sozinha, exigindo avaliação veterinária e, na maior parte dos casos, tratamento cirúrgico.
Outra possibilidade é a luxação de patela, muito comum em cães de pequeno porte. O escorregão pode facilitar a saída súbita da patela do seu lugar, provocando dor intensa, incapacidade de dobrar o joelho e uma marcha característica em que o cão “pula” com uma das patas traseiras.
Em alguns casos, a patela volta ao lugar espontaneamente, e o cachorro parece melhorar por alguns instantes, mas a instabilidade permanece, e a luxação pode reaparecer. Mesmo quando há melhora rápida, é essencial investigar a causa, porque episódios repetidos podem levar à inflamação crônica e à artrose.
Lesões de coluna também podem surgir após escorregões, especialmente em cães com predisposição a hérnias de disco, como Dachshund, Shih-Tzu, Lhasa Apso, Beagle e French Bulldog.
O impacto repentino pode desencadear dor lombar, fraqueza nos membros traseiros, dificuldade para sustentar o peso e até alteração na maneira de andar. Em casos mais graves, o cão pode apresentar tremores, postura rígida ou relutância intensa para se movimentar.
Como as doenças da coluna podem evoluir rapidamente, qualquer suspeita deve ser avaliada com urgência.
Além disso, escorregões podem resultar em lesões articulares, como estiramentos de quadril, inflamação do tornozelo e até pequenos deslocamentos articulares.
Em cães idosos ou já portadores de osteoartrite, o menor trauma pode agravar dores pré-existentes, tornando o quadro mais evidente. Às vezes, o escorregão apenas faz o tutor notar uma condição silenciosa que já vinha se instalando, como displasia coxofemoral ou degeneração articular progressiva. Por isso, mesmo quando o tutor relata que o cão “escorregou de leve”, o evento pode ter sido apenas o gatilho para revelar uma doença já presente.
Quando o cachorro está mancando após um escorregão, observar alguns sinais é fundamental: dor ao tocar a pata, calor nas articulações, dificuldade para se levantar, rigidez ao acordar, relutância para caminhar ou subir escadas, mudança na postura ao sentar e qualquer episódio de choro súbito. Esses sinais, especialmente se persistirem por mais de 24 a 48 horas, indicam que há mais do que uma simples dor passageira.
Embora compressas frias e repouso possam ajudar no início, a avaliação veterinária é o passo mais seguro para identificar a lesão exata e evitar que ela se agrave. Em casos de suspeita de ruptura de ligamento, luxação de patela ou doença de coluna, o diagnóstico precoce muda completamente o prognóstico e acelera a recuperação.
O mais importante é que o tutor não espere “ver se melhora sozinho”, principalmente se o cachorro está evitando totalmente apoiar a pata ou demonstra dor ao caminhar.
Lesões articulares e ligamentares tendem a piorar com o uso contínuo do membro afetado. Com o exame adequado, que pode incluir avaliação ortopédica, testes de mobilidade, radiografias ou até exames mais avançados, é possível identificar exatamente o que aconteceu e iniciar o tratamento correto.
Com cuidados adequados, a maioria dos cães se recupera bem, mas o sucesso depende da rapidez da intervenção e do manejo adequado da lesão desde o início.
Referências bibliográficas
Piermattei DL,Flo G. Handbook of Small Animal Orthopedics and Fracture Repair. 5th ed. Saunders; 2016.
Fossum TW. Small Animal Surgery. 5th ed. Elsevier; 2019.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.