Infiltrações com corticoides em cães: quando usar e quais cuidados tomar
- Felipe Garofallo

- 2 de dez. de 2025
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As infiltrações com corticoides em cães são um recurso utilizado na ortopedia veterinária para controlar dor e inflamação articular de forma localizada, especialmente em casos de osteoartrite moderada a grave, sinovites crônicas ou situações em que o uso de anti-inflamatórios sistêmicos não é suficiente ou não pode ser mantido por longos períodos.

Embora seja um procedimento comum, ainda existem muitas dúvidas sobre indicações, segurança e resultados, e isso é importante porque a infiltração não é simplesmente “aplicar um anti-inflamatório no local da dor”, mas sim uma intervenção técnica que pode trazer alívio significativo quando usada corretamente.
Nas infiltrações intra-articulares, o objetivo é entregar o corticoide diretamente dentro da articulação afetada. Isso permite uma ação anti-inflamatória mais intensa e duradoura, reduzindo a produção de mediadores inflamatórios, diminuindo a efusão articular e melhorando a mobilidade do animal.
Os medicamentos mais utilizados são a metilprednisolona acetato e a triancinolona acetonida, ambos de longa duração, capazes de proporcionar alívio por semanas. Em tecidos moles, como tendões, bursas, cápsulas e inserções, também podem ser utilizadas dexametasona ou pequenas associações com lidocaína para melhorar o conforto imediato após a aplicação.
As indicações mais comuns incluem artroses avançadas de quadril, cotovelo e joelho; sinovites persistentes após lesões; dor crônica pós-cirúrgica quando há um componente inflamatório evidente; e bursites ou tendinopatias, como ocorre no ombro de alguns cães atletas ou muito ativos.
O procedimento também pode ser útil em casos em que o animal não responde bem a anti-inflamatórios orais ou apresenta contraindicações ao uso prolongado, como alterações renais, gastrintestinais ou histórico de efeitos adversos.
A técnica exige precisão. O veterinário realiza uma limpeza rigorosa do local, semelhante a um pequeno procedimento cirúrgico, e introduz uma agulha fina na articulação ou estrutura alvo. Em articulações mais profundas ou de acesso difícil, como o ombro ou o quadril, o uso de ultrassom aumenta a segurança e a precisão da aplicação.
Quando o corticoide é depositado no local correto, a resposta costuma ser rápida: em alguns cães, a melhora é perceptível em 24 a 72 horas, e o alívio pode durar de duas a oito semanas, dependendo da gravidade da doença e do metabolismo individual.
Apesar dos benefícios, infiltrações com corticoides não são isentas de riscos. O mais sério, ainda que raro, é a infecção articular, já que o procedimento ultrapassa as barreiras naturais da pele.
Por isso, a técnica asséptica é indispensável. Outro ponto crítico é que o uso repetido de corticoides dentro da articulação pode acelerar a degeneração da cartilagem, especialmente quando aplicado com muita frequência ou sem critério.
Há também o risco de descompensação glicêmica em cães diabéticos, de atrofia do tecido subcutâneo quando o medicamento extravasa para camadas superficiais e de dor transitória após a aplicação, conhecida como “corticosteroid flare”, que costuma durar poucas horas.
Por conta desses fatores, infiltrações não devem ser vistas como tratamento principal ou rotineiro para doenças ortopédicas. Elas são ferramentas adjuvantes, úteis dentro de um plano de controle de dor que inclui fortalecimento muscular, controle de peso, fisioterapia, condroprotetores, modulação da rotina do animal e, quando necessário, procedimentos cirúrgicos corretivos.
Em casos de ruptura do ligamento cruzado cranial, luxação de patela, instabilidade articular ou displasia coxofemoral grave, por exemplo, a infiltração pode aliviar temporariamente a dor, mas não resolve a causa estrutural do problema.
O momento certo para infiltrar é aquele em que a dor limita a qualidade de vida do cão, mas ainda existe benefício esperado e quando medidas menos invasivas já foram aplicadas. É uma alternativa valiosa também para tutores que desejam evitar o excesso de medicação oral ou para cães que não podem receber anti-inflamatórios sistêmicos por longos períodos.
Quando bem indicada e realizada com disciplina técnica, a infiltração com corticoides permite ao animal recuperar conforto, mobilidade e disposição, mesmo em situações de artrose avançada.
Em resumo, as infiltrações com corticoides são um recurso potente, mas que precisa ser utilizado com responsabilidade. Elas não substituem o tratamento de base, mas podem ser determinantes para melhorar o bem-estar do cão, principalmente como parte de uma abordagem multimodal da dor.
Conversar com um veterinário com experiência em ortopedia é essencial para definir se essa técnica é realmente indicada, qual o melhor medicamento para o caso e com que frequência ela pode ser utilizada de forma segura.
Referências bibliográficas
McLaughlin RM. Intra-articular corticosteroid therapy in dogs: benefits and risks. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice. 2017.
Johnston SA, Tobias KM. Veterinary Surgery: Small Animal. 2nd ed. Elsevier; 2018.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.