Hérnia de disco torácica em cães
- Felipe Garofallo
- 22 de jul.
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Atualizado: 26 de jul.
A hérnia de disco torácica em cães é uma condição neurológica menos comum do que as hérnias localizadas na região cervical ou lombossacra, mas quando ocorre, pode provocar sinais clínicos graves e desafiadores tanto no diagnóstico quanto no tratamento.

Essa condição envolve a extrusão ou protrusão do disco intervertebral na região torácica da coluna, entre as vértebras T1 e T13, com compressão da medula espinhal torácica e consequente disfunção neurológica.
O disco intervertebral é uma estrutura cartilaginosa que atua como amortecedor entre os corpos vertebrais, permitindo flexibilidade e proteção à coluna vertebral. Em algumas situações, como nas doenças degenerativas discais, especialmente a Doença do Disco Intervertebral Hansen tipo esse disco pode se romper abruptamente, liberando seu conteúdo gelatinoso (núcleo pulposo) no canal vertebral.
Quando isso ocorre na região torácica, a medula espinhal pode ser comprimida de forma súbita e intensa, resultando em dor, alterações motoras e até paralisia.
Diferente das regiões cervical e lombar, a coluna torácica possui menor mobilidade, o que torna as hérnias discais nessa região mais raras. Além disso, a presença das costelas e da caixa torácica proporciona maior estabilidade à coluna torácica.
Mesmo assim, raças condrodistróficas como Dachshund, Shih Tzu, Lhasa Apso, Poodle e Beagle podem desenvolver hérnias torácicas, principalmente em faixas etárias entre 3 e 7 anos. Há também relatos em cães de raças grandes, embora com menor frequência.
Os sinais clínicos da hérnia de disco torácica variam de acordo com a severidade da compressão e a localização exata do disco afetado. Os tutores costumam relatar dor intensa na região do dorso, rigidez, relutância para se movimentar, vocalizações ao ser manipulado, alterações na marcha e ataxia nos membros posteriores.
Em casos mais severos, pode ocorrer paralisia parcial ou total das patas traseiras, com preservação da função dos membros anteriores. Como a região torácica compreende o centro da medula espinhal, as lesões podem afetar gravemente a condução nervosa para o corpo posterior, sem sinais evidentes nos membros dianteiros.
O diagnóstico exige avaliação neurológica minuciosa, buscando sinais como propriocepção alterada, reflexos espinhais anormais, dor à palpação torácica e postura rígida do tronco. Radiografias simples podem sugerir espaços intervertebrais reduzidos, mas a confirmação diagnóstica exige exames de imagem avançados.
A mielografia pode mostrar deslocamentos da coluna de contraste, mas a tomografia computadorizada (TC) e principalmente a ressonância magnética (RM) são os exames mais indicados, permitindo localizar com precisão o ponto de extrusão e o grau de compressão medular.
O tratamento depende da gravidade do quadro clínico. Em casos leves, com dor controlável e sem déficit motor significativo, pode-se optar pelo manejo conservador com uso de anti-inflamatórios, analgésicos, restrição de movimento e repouso absoluto.
No entanto, hérnias torácicas geralmente causam sinais mais graves e progressivos, sendo a cirurgia a conduta mais indicada na maioria dos casos.
O procedimento cirúrgico consiste na hemilaminectomia ou abordagem dorsal para remoção do material discal extruso e descompressão da medula. Essa cirurgia exige habilidade técnica, especialmente devido à proximidade da medula torácica com estruturas delicadas, como a vasculatura e a cavidade torácica.
O prognóstico depende da extensão da lesão e do tempo entre o início dos sinais e o tratamento. Cães que ainda apresentam dor profunda e capacidade de movimentar os membros geralmente se recuperam bem após a cirurgia.
Já pacientes com paralisia completa e ausência de dor profunda por mais de 48 horas possuem prognóstico reservado. O acompanhamento pós-operatório com fisioterapia é fundamental para restaurar a função motora, reduzir a dor residual e prevenir complicações como úlceras de decúbito ou infecções urinárias por retenção.
A hérnia de disco torácica, embora menos frequente, deve ser sempre considerada nos diagnósticos diferenciais de cães com dor no dorso e déficit neurológico posterior. A atuação rápida, o diagnóstico preciso e o tratamento adequado são essenciais para preservar a qualidade de vida do animal e evitar sequelas permanentes.
Referências bibliográficas:
Brisson, B. A. (2010). Intervertebral disc disease in dogs. Veterinary Clinics of North America: Small
Animal Practice, 40(5), 829–858.Dewey, C. W., & da Costa, R. C. (2015). Practical Guide to Canine and Feline Neurology (3rd ed.). Wiley-Blackwell.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.