Dor referida em cães: O que é?
- Felipe Garofallo

- 11 de dez. de 2025
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A dor referida em cães é um fenômeno pouco compreendido pelos tutores e até subestimado na prática clínica, mas desempenha um papel importante em muitos casos de claudicação, dor crônica e alterações de comportamento.

Ela ocorre quando o cão sente dor em uma região do corpo, mas a origem real do problema está em outro local. É como se o sistema nervoso “enganasse” o cérebro, fazendo-o interpretar o estímulo doloroso em uma área distante da causa primária.
Esse mecanismo pode levar a diagnósticos imprecisos quando não é conhecido, já que o animal manifesta desconforto onde não existe lesão estrutural, enquanto o verdadeiro problema permanece oculto.
Para entender esse fenômeno, é preciso considerar como os nervos sensoriais transmitem informações ao sistema nervoso central. Em muitas áreas do corpo, fibras nervosas provenientes de diferentes estruturas convergem para os mesmos segmentos da medula espinhal.
Quando um estímulo doloroso chega, o cérebro às vezes não consegue distinguir qual estrutura originalmente enviou o sinal e interpreta a dor em uma região mais superficial ou mais frequentemente ativada. Em outras palavras, o sistema neurológico “escolhe” um local mais comum ou mais fácil de ser percebido, mesmo que o problema esteja distante dali.
Um exemplo clássico em cães é a dor de quadril que se manifesta como dor no joelho. Animais com displasia coxofemoral avançada, artrose de quadril ou microinstabilidade da articulação coxofemoral podem demonstrar desconforto ao toque no joelho, relutância em flexioná-lo ou até mancar como se o problema estivesse nessa articulação.
Porém, ao investigar de forma aprofundada, muitas vezes não há qualquer alteração significativa no joelho. Isso ocorre porque a inervação sensorial do quadril e do joelho compartilha vias neurais, levando o cérebro a interpretar dor profunda do quadril como dor no membro distal.
O mesmo acontece com problemas na coluna lombar, especialmente doença do disco intervertebral, estenose lombossacral ou instabilidades vertebrais leves.
Esses cães podem apresentar dor em uma das patas traseiras, rigidez súbita, dificuldade para subir escadas ou até relutância em caminhar, e o tutor acredita que o problema é no membro.
No entanto, a origem está na compressão ou irritação das raízes nervosas lombossacrais, que irradiam dor para o membro pélvico. Em alguns casos, a dor é tão bem “mascarada” que o único sinal percebido pelo tutor é claudicação intermitente ou um comportamento de proteção da pata traseira, mesmo sem lesão ortopédica.
Musculaturas profundas também são fontes comuns de dor referida. Lesões no iliopsoas, no glúteo profundo ou em músculos paravertebrais podem gerar dor que se manifesta na face interna da coxa, no quadril ou até no joelho.
Cães com dor muscular profunda muitas vezes apresentam passos curtos, relutância em fazer determinados movimentos e sensibilidade difusa, mas sem um ponto evidente de dor à palpação. Isso leva muitos tutores a acreditar que o cão está “melhorando e piorando” sem um padrão claro, quando na verdade existe uma lesão primária difícil de identificar.
A dor referida também pode ocorrer no sentido oposto: patologias distais, como alterações nas articulações dos dedos ou metatarsos, podem gerar tensão compensatória nos músculos proximais, levando a dor que parece vir do quadril ou da coluna.
Esse padrão de compensação é muito comum em cães que desenvolveram lesões discretas na pata após escorregar ou pisar de forma inadequada. O corpo reorganiza o movimento para proteger a área lesionada, e isso pode levar a sobrecarga muscular e dor secundária em regiões mais distantes.
Reconhecer a dor referida exige uma avaliação ortopédica e neurológica criteriosa, que nunca se limite apenas ao ponto onde o cão demonstra desconforto. Quando o animal reage ao toque em determinada articulação, isso não significa necessariamente que a lesão está ali.
O profissional precisa combinar análise da marcha, testes de manipulação, palpação profunda e conhecimento das cadeias musculoesqueléticas para identificar o verdadeiro foco da dor. Muitas vezes, a articulação “acusada” é apenas vítima do processo, e não a causa dele.
Tratar a dor referida depende diretamente de encontrar o ponto primário de origem. Quando apenas o local onde a dor é percebida é tratado, o alívio costuma ser limitado e temporário. Por isso é tão comum ver cães que melhoram com anti-inflamatórios por alguns dias, mas voltam a mancar assim que retomam atividades físicas.
Uma lesão não tratada em quadril, coluna ou musculatura profunda continuará enviando sinais dolorosos e mantendo o quadro clínico. Uma vez identificada a causa real, o tratamento adequado, seja analgésico, fisioterapêutico, reabilitador ou cirúrgico, tende a proporcionar melhora rápida e consistente.
A dor referida é um lembrete importante de que o corpo funciona como um sistema integrado, e que nem sempre o local da dor é o local do problema.
Em cães, entender esse fenômeno é essencial para evitar diagnósticos superficiais, tratamentos incompletos e frustrações para tutores e veterinários.
Quando investigada corretamente, ela abre caminho para um tratamento mais preciso, mais eficiente e uma recuperação mais rápida.
Referências bibliográficas
Millis D, Levine D. Canine Rehabilitation and Physical Therapy. 2nd ed. Elsevier; 2014.
Budras K-D, McCarthy PH, Fricke W. Anatomy of the Dog: An Illustrated Text. 5th ed. Schlütersche; 2012.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.