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Dor crônica ortopédica em cães

Atualizado: 21 de mai.

A dor crônica ortopédica em cães é uma condição cada vez mais reconhecida na medicina veterinária, especialmente à medida que os animais vivem mais e os responsáveis passam a observar com maior atenção as mudanças comportamentais e funcionais de seus pets.



Diferente da dor aguda, que normalmente surge de forma intensa após um trauma ou cirurgia, a dor crônica se instala lentamente, muitas vezes de maneira silenciosa, persistindo por semanas, meses ou até anos. Em muitos casos, o responsável não percebe inicialmente que o animal está sentindo dor, acreditando que determinados sinais fazem parte apenas do envelhecimento natural.


Entretanto, alterações como dificuldade para levantar, redução das brincadeiras, relutância para subir escadas, menor disposição para caminhar, irritabilidade, mudanças no sono ou até lambedura excessiva das articulações podem indicar sofrimento contínuo.


Grande parte dos casos de dor crônica ortopédica em cães está associada a doenças degenerativas articulares, especialmente a osteoartrite. Essa condição pode surgir secundariamente a problemas ortopédicos comuns, como displasia coxofemoral, displasia de cotovelo, ruptura do ligamento cruzado cranial, luxação de patela, osteocondrite dissecante e sequelas de fraturas antigas.


Em muitos pacientes, mesmo após a correção cirúrgica da doença primária, podem permanecer alterações biomecânicas e inflamatórias que favorecem a persistência da dor ao longo do tempo.


A articulação passa por um processo degenerativo progressivo, com desgaste da cartilagem, inflamação da membrana sinovial, formação de osteófitos e alterações no osso subcondral, resultando em desconforto constante.


A dor crônica não afeta apenas a locomoção do cão. Ela provoca mudanças importantes no sistema nervoso, levando a um fenômeno chamado sensibilização central.



Nesse processo, o cérebro e a medula espinhal tornam-se mais sensíveis aos estímulos dolorosos, fazendo com que o animal perceba dor com maior intensidade, mesmo diante de estímulos leves. Isso explica por que alguns cães desenvolvem reações exageradas ao toque, apresentam ansiedade, evitam contato físico ou mudam completamente sua personalidade.


Muitos animais deixam de interagir com a família, tornam-se mais quietos e passam mais tempo isolados. Em outros casos, ocorre irritabilidade ou agressividade, especialmente quando áreas doloridas são manipuladas.


O excesso de peso exerce papel fundamental na piora da dor ortopédica crônica. A obesidade aumenta a sobrecarga sobre articulações já comprometidas, acelerando a degeneração articular e dificultando a mobilidade.


Além do impacto mecânico, o tecido adiposo também participa da inflamação sistêmica por meio da liberação de substâncias inflamatórias conhecidas como adipocinas.


Por isso, o controle do peso é considerado uma das medidas mais importantes no tratamento de cães com doenças ortopédicas crônicas. Em muitos pacientes, apenas a redução do peso corporal já promove melhora significativa da qualidade de vida e diminuição da dor.


O diagnóstico da dor crônica ortopédica exige avaliação cuidadosa. Muitas vezes, o exame clínico revela claudicação discreta, diminuição da amplitude de movimento, crepitação articular, atrofia muscular e desconforto à palpação. Exames de imagem como radiografias, tomografia computadorizada e ressonância magnética ajudam a identificar alterações articulares e ósseas associadas.


Entretanto, existe uma particularidade importante: a intensidade das alterações radiográficas nem sempre corresponde ao grau de dor apresentado pelo paciente. Alguns cães apresentam imagens severamente degenerativas com poucos sinais clínicos, enquanto outros demonstram dor intensa mesmo com alterações discretas nos exames.


O tratamento da dor crônica ortopédica deve ser multimodal, ou seja, combinar diferentes abordagens terapêuticas para controlar a inflamação, reduzir a sensibilização dolorosa e melhorar a função locomotora.


Os anti-inflamatórios não esteroidais continuam sendo uma das principais ferramentas terapêuticas, especialmente medicamentos como carprofeno, meloxicam, e firocoxibe.


Esses fármacos ajudam a controlar a inflamação articular e proporcionam melhora significativa na mobilidade. Contudo, muitos cães necessitam de terapias complementares, como gabapentina, amantadina ou analgésicos adicionais, principalmente nos casos em que há componente neuropático associado.


A fisioterapia veterinária ganhou enorme importância no manejo desses pacientes. Exercícios terapêuticos, hidroterapia, laser terapêutico, eletroestimulação e fortalecimento muscular auxiliam na recuperação funcional e ajudam a reduzir a progressão da doença.


O fortalecimento muscular é particularmente importante porque músculos enfraquecidos aumentam ainda mais a instabilidade articular e a sobrecarga sobre estruturas já lesionadas. Além disso, a fisioterapia contribui para manter a mobilidade e prevenir perda muscular secundária ao desuso.


Nos últimos anos, terapias regenerativas também passaram a ser utilizadas no tratamento da dor ortopédica crônica em cães. Aplicações intra-articulares de plasma rico em plaquetas, células-tronco mesenquimais e ácido hialurônico têm sido estudadas com o objetivo de reduzir a inflamação e melhorar o ambiente articular.


Embora muitos pacientes apresentem resposta positiva, os resultados ainda variam de acordo com a técnica utilizada, o estágio da doença e as características individuais de cada animal.


O ambiente doméstico exerce influência direta sobre o conforto do paciente com dor crônica. Pisos escorregadios, escadas frequentes e camas inadequadas podem aumentar o desconforto e favorecer quedas.


Pequenas adaptações ambientais, como tapetes antiderrapantes, rampas de acesso, camas ortopédicas e elevação dos potes de alimentação, podem melhorar significativamente a rotina do animal.


Em cães idosos, essas mudanças ajudam a preservar a autonomia e diminuem o estresse associado à locomoção.


Outro aspecto importante é o impacto emocional da dor crônica sobre os tutores. Muitos se sentem frustrados ao perceberem que o animal continua apresentando dificuldade de locomoção mesmo após tratamentos ou cirurgias.


Por isso, a comunicação clara entre veterinário e tutor é fundamental. Em muitos casos, o objetivo do tratamento não é eliminar completamente a doença degenerativa, mas controlar a dor, retardar a progressão e proporcionar melhor qualidade de vida.


O acompanhamento contínuo e os ajustes terapêuticos frequentes fazem parte do manejo desses pacientes.


A medicina veterinária moderna passou a compreender que a dor crônica não deve ser encarada apenas como um sintoma secundário das doenças ortopédicas, mas sim como uma condição clínica complexa, capaz de afetar profundamente o bem-estar físico e emocional dos cães.


O reconhecimento precoce dos sinais, aliado a estratégias terapêuticas individualizadas, pode transformar a vida desses pacientes, permitindo que mantenham mobilidade, interação social e conforto por muito mais tempo.


Referências bibliográficas


Johnston SA. Osteoarthritis: Joint anatomy, physiology, and pathobiology. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice. 1997;27(4):699-723.


Rychel JK. Diagnosis and treatment of osteoarthritis. Topics in Companion Animal Medicine. 2010;25(1):20-25.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


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