Displasia coxofemoral pode surgir em cães jovens?
- Felipe Garofallo

- 27 de jan.
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A displasia coxofemoral é frequentemente associada a cães idosos, mas essa associação não reflete a realidade da doença. Trata-se de uma enfermidade do desenvolvimento, com forte base genética, que pode se manifestar ainda na fase jovem do animal, muitas vezes antes mesmo de completar um ano de idade.

O que muda ao longo do tempo não é o surgimento da displasia em si, mas a forma como ela se expressa clinicamente e radiograficamente.
Ao nascimento, a articulação do quadril é considerada normal. A displasia não está presente como uma má-formação congênita visível, mas como uma predisposição genética que interfere no desenvolvimento adequado da articulação.
Em cães jovens, essa instabilidade é o principal fator responsável pelos sinais clínicos iniciais. Diferentemente dos cães mais velhos, nos quais a dor costuma estar relacionada à artrose estabelecida, nos animais jovens o desconforto decorre principalmente da inflamação articular e dos microtraumas repetitivos causados pela incongruência articular.
Por esse motivo, os sinais podem ser intermitentes e discretos, dificultando o reconhecimento precoce da doença. Claudicação após exercício, relutância em correr ou brincar, dificuldade para se levantar e alterações sutis na marcha são achados comuns nessa fase.
Outro aspecto importante é que exames radiográficos iniciais nem sempre evidenciam alterações degenerativas marcantes. A ausência de artrose evidente não exclui displasia coxofemoral em cães jovens.
Muitas vezes, o que se observa são sinais de frouxidão articular, subluxação ou incongruência, que já são suficientes para gerar dor e comprometimento funcional. Isso explica por que alguns cães jovens apresentam sinais clínicos significativos mesmo com radiografias aparentemente pouco alteradas.
Fatores ambientais desempenham um papel relevante na expressão clínica da displasia em cães predispostos. Crescimento acelerado, excesso de peso, exercícios de alto impacto e pisos escorregadios aumentam a sobrecarga articular e favorecem a progressão da instabilidade.
Embora esses fatores não sejam a causa primária da doença, eles contribuem de forma significativa para o agravamento precoce do quadro e para o aparecimento antecipado dos sinais clínicos.
O reconhecimento da displasia coxofemoral em cães jovens é especialmente importante porque permite intervenções em um momento em que a articulação ainda não sofreu alterações degenerativas irreversíveis.
Nessa fase, o manejo adequado pode incluir controle rigoroso de peso, ajustes no nível e tipo de atividade física, fortalecimento muscular e, em casos selecionados, procedimentos cirúrgicos com objetivo preventivo ou corretivo.
A abordagem precoce tem impacto direto na qualidade de vida do animal e na redução da progressão da artrose ao longo dos anos.
Portanto, a displasia coxofemoral pode, sim, estar presente em cães jovens, mesmo quando os sinais são discretos ou confundidos com alterações normais do crescimento.
Compreender que se trata de uma doença do desenvolvimento, e não apenas do envelhecimento, é fundamental para que o diagnóstico seja realizado precocemente e para que o tratamento seja instituído no momento mais favorável ao paciente.
Referências bibliográficas
FOSSUM, T. W. Small Animal Surgery. 5th ed. St. Louis: Elsevier, 2019.
DENNY, H. R.; BUTTERWORTH, S. J. A Guide to Canine and Feline Orthopaedic Surgery. 4th ed. Oxford: Blackwell Publishing, 2000.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.