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Displasia coxofemoral necessita sempre de cirurgia?

A displasia coxofemoral é uma das doenças ortopédicas mais estudadas na medicina veterinária de pequenos animais e, ainda assim, continua cercada de dúvidas por parte dos tutores.



Uma das perguntas mais frequentes é se todo cão diagnosticado com displasia precisa, obrigatoriamente, ser submetido a cirurgia.


A displasia coxofemoral não necessita sempre de intervenção cirúrgica, e a decisão terapêutica deve ser individualizada, baseada na idade do paciente, no grau de incongruência articular, na presença e intensidade da dor, no nível de osteoartrose já instalada e na resposta ao tratamento clínico.


A displasia coxofemoral é uma doença do desenvolvimento caracterizada por frouxidão articular da articulação do quadril, que leva à instabilidade entre a cabeça do fêmur e o acetábulo.


Essa instabilidade progressiva desencadeia um processo inflamatório crônico e degenerativo, culminando na formação de osteoartrose. Entretanto, existe grande variação na manifestação clínica da doença.


Alguns cães apresentam alterações radiográficas importantes e poucos sinais clínicos, enquanto outros, mesmo com alterações moderadas, demonstram dor intensa e limitação funcional significativa.


Nos pacientes jovens, especialmente antes do fechamento das placas de crescimento, a identificação precoce da frouxidão articular permite considerar procedimentos preventivos ou reconstrutivos, como a sínfise púbica juvenil ou a osteotomia pélvica dupla, desde que haja critérios anatômicos favoráveis e ausência de degeneração avançada.


Nesses casos, a cirurgia tem caráter corretivo e busca modificar a biomecânica da articulação para retardar ou evitar a progressão da osteoartrose. Contudo, essa indicação é restrita a uma janela etária específica e depende de diagnóstico precoce e planejamento rigoroso.


Enquanto isso, em cães adultos, especialmente quando a osteoartrose já está estabelecida, a abordagem inicial frequentemente é conservadora.


O tratamento clínico inclui controle de peso, manejo nutricional adequado, fisioterapia, fortalecimento muscular, uso de anti-inflamatórios não esteroidais, analgésicos multimodais e, em alguns casos, terapias adjuvantes como infiltrações intra-articulares ou anticorpos monoclonais para dor associada à osteoartrite.


Muitos pacientes apresentam excelente resposta ao tratamento clínico, com melhora significativa da qualidade de vida sem necessidade imediata de cirurgia.


A indicação cirúrgica torna-se mais evidente quando há dor refratária ao tratamento clínico bem conduzido, perda progressiva de mobilidade, claudicação persistente e comprometimento importante da qualidade de vida.


Nesses casos, os procedimentos mais utilizados são a colocefalectomia e a prótese total de quadril. A colocefalectomia promove alívio da dor por eliminar o contato ósseo direto, formando uma pseudoartrose fibrosa funcional, sendo mais indicada para cães de menor porte ou quando há limitação financeira.


Enquanto isso, a prótese total de quadril é considerada o procedimento de eleição em muitos casos, por restaurar a biomecânica articular de forma mais próxima do normal, proporcionando retorno funcional superior quando bem indicada e executada.


É fundamental compreender que o diagnóstico radiográfico isolado não determina, por si só, a necessidade de cirurgia. A decisão deve sempre considerar o paciente como um todo.


Cães com displasia leve e boa musculatura pélvica podem viver confortavelmente por muitos anos apenas com manejo clínico adequado. Por outro lado, pacientes com dor crônica incapacitante podem se beneficiar significativamente da intervenção cirúrgica, mesmo que as alterações radiográficas não pareçam tão avançadas.


Outro aspecto relevante é que a cirurgia não deve ser encarada como falha do tratamento clínico, mas sim como parte de um plano terapêutico progressivo. O objetivo principal não é “corrigir a radiografia”, e sim devolver qualidade de vida ao paciente. A medicina ortopédica moderna prioriza o controle da dor e a funcionalidade, e não apenas a imagem.


Portanto, a displasia coxofemoral não exige cirurgia em todos os casos. Muitos cães são manejados com sucesso por meio de tratamento conservador, especialmente quando o diagnóstico é precoce e o acompanhamento é contínuo.


A cirurgia é indicada quando os benefícios superam os riscos e quando o tratamento clínico não é suficiente para manter o conforto e a função adequados. A avaliação criteriosa, individualizada e baseada em evidências é o que define o melhor caminho para cada paciente.


Referências bibliográficas:


Smith GK, Paster ER, Powers MY, et al. Lifelong consequences of hip laxity in the dog. Journal of the American Veterinary Medical Association. 2001;219(4):542–546.


Fossum TW. Small Animal Surgery. 5th ed. St. Louis: Elsevier; 2019.


Sobre o autor


Dr. Felipe Garofallo, veterinário ortopedista, especializado no diagnóstico e tratamento de problemas articulares e musculoesqueléticos em cães

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.


Horário: Segunda à sexta, 09h às 18h. Sábados 10:00 às 14:00
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