Displasia coxofemoral dói sempre? Entenda os sinais silenciosos
- Felipe Garofallo

- 21 de jan.
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A displasia coxofemoral é uma das doenças ortopédicas mais comuns em cães, mas também uma das mais silenciosas. Muitos tutores acreditam que, se o animal não chora, não manca de forma evidente ou não evita completamente a caminhada, então ele não sente dor.

Na prática clínica, essa é uma das maiores armadilhas quando falamos dessa condição. A displasia coxofemoral nem sempre dói de forma óbvia, mas quase sempre causa algum grau de desconforto, limitação funcional ou dor crônica adaptativa.
A articulação do quadril do cão com displasia apresenta instabilidade desde cedo. A cabeça do fêmur não se encaixa perfeitamente no acetábulo, o que gera microtraumas repetidos durante a locomoção. No início da vida, principalmente em cães jovens, essa instabilidade pode não causar dor intensa imediata.
O organismo do animal compensa com musculatura, alterações de postura e redistribuição de carga. É justamente por isso que muitos cães “parecem normais” mesmo já tendo alterações estruturais importantes no quadril.
Com o passar do tempo, essa instabilidade leva à inflamação articular e, progressivamente, à artrose. A dor que surge nesse contexto não é necessariamente aguda ou incapacitante.
Na maioria dos casos, trata-se de uma dor crônica, contínua, de baixa a moderada intensidade, que o cão aprende a tolerar. Diferente do ser humano, o cão não verbaliza dor e raramente demonstra sofrimento de forma explícita. Ele simplesmente muda o comportamento.
Os chamados sinais silenciosos da displasia coxofemoral são, na verdade, alterações sutis na rotina do animal. Um dos primeiros sinais costuma ser a redução da disposição para atividades físicas.
O cão passa a evitar correr, pular no sofá ou subir escadas, não porque não consiga, mas porque essas ações exigem maior esforço da articulação do quadril. Muitas vezes o tutor interpreta isso como “preguiça”, “idade” ou mudança de temperamento, quando na realidade é uma adaptação à dor.
Outro sinal muito comum é a rigidez ao se levantar, especialmente após períodos de descanso. O cão demora alguns segundos a mais para sair da posição deitada, parece “travado” no início da caminhada, mas melhora conforme se movimenta.
Esse padrão é típico de dor articular crônica e frequentemente observado em cães com displasia associada à artrose. Também é comum que o animal prefira deitar em superfícies mais macias ou mude a posição de descanso com frequência, tentando encontrar uma postura menos desconfortável para os quadris.
Alterações na marcha também podem ser discretas. Em vez de uma claudicação evidente, o tutor pode notar um rebolar excessivo do quadril, passos mais curtos com os membros posteriores ou uma corrida diferente, muitas vezes descrita como “corrida de coelho”, em que o cão movimenta os dois membros posteriores ao mesmo tempo.
Em casos bilaterais, que são os mais comuns na displasia coxofemoral, a ausência de claudicação evidente engana ainda mais, já que não há um membro saudável para comparação.
Em cães mais sensíveis, a dor pode se manifestar por mudanças comportamentais. Irritabilidade, menor tolerância ao toque na região do quadril, diminuição da interação com a família ou até relutância em brincar com outros cães são sinais frequentemente ignorados.
Esses comportamentos não são “manha” nem problemas de temperamento; muitas vezes são a forma que o animal encontra de expressar desconforto persistente.
É importante entender que a ausência de dor intensa não significa ausência de sofrimento articular. Muitos cães com displasia convivem por anos com dor subclínica, que vai se agravando à medida que a artrose evolui.
Quando a dor se torna evidente, a articulação geralmente já apresenta alterações degenerativas importantes, o que limita as opções de tratamento e impacta diretamente a qualidade de vida do animal.
Por isso, a avaliação precoce é fundamental. Cães de raças predispostas, cães jovens com alterações de marcha ou qualquer animal que apresente esses sinais silenciosos devem ser avaliados por um médico-veterinário, preferencialmente com experiência em ortopedia.
O diagnóstico não se baseia apenas na presença de dor, mas na análise clínica, no exame ortopédico e, quando indicado, em exames de imagem como o raio-x.
Em resumo, a displasia coxofemoral nem sempre dói de forma evidente, mas raramente é indolor. A dor existe, muitas vezes de maneira silenciosa, progressiva e adaptativa.
Reconhecer esses sinais sutis é essencial para intervir no momento certo, reduzir o sofrimento do animal e preservar sua mobilidade e qualidade de vida ao longo dos anos.
Referências bibliográficas
Fossum, T. W. Small Animal Surgery. Elsevier, St. Louis.
Textbook of Veterinary Orthopaedics and Traumatology, Brinker, Piermattei and Flo. Saunders Elsevier.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.