Diferença entre displasia coxofemoral leve, moderada e grave
- Felipe Garofallo
- 26 de jan.
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A displasia coxofemoral é uma das doenças ortopédicas mais estudadas e, ao mesmo tempo, mais mal compreendidas por tutores de cães.

Esse fator acontece porque o diagnóstico não se limita a dizer se o animal “tem ou não tem” displasia, mas envolve uma graduação que reflete o grau de alteração anatômica da articulação do quadril e o impacto funcional dessa alteração ao longo do tempo.
Quando falamos em displasia leve, moderada ou grave, estamos descrevendo estágios diferentes de instabilidade articular, remodelação óssea e degeneração progressiva da articulação coxofemoral.
Na displasia coxofemoral leve, as alterações estruturais ainda são discretas. A cabeça do fêmur não se encaixa de forma perfeitamente congruente no acetábulo, mas essa incongruência é pequena.
Em muitos casos, o acetábulo é levemente raso e a cabeça femoral começa a perder sua centralização ideal, porém ainda mantém boa parte do contato articular. Nessa fase, a articulação pode parecer quase normal em radiografias menos detalhadas, e os sinais clínicos costumam ser sutis ou intermitentes.
Alguns cães apresentam dor apenas após exercícios mais intensos, dificuldade ocasional para se levantar ou uma leve relutância em correr e saltar.
Em filhotes e jovens, é comum que a dor esteja mais relacionada à instabilidade articular do que à artrose, que ainda é mínima ou inexistente. Justamente por isso, muitos animais com displasia leve passam despercebidos por anos, até que a progressão da doença torne os sinais mais evidentes.
Já na displasia coxofemoral moderada, a incongruência articular se torna mais clara e constante. O acetábulo é visivelmente raso, a cabeça do fêmur apresenta subluxação mais evidente e o contato articular passa a ser inadequado de forma crônica.
Nesse estágio, o organismo começa a reagir à instabilidade por meio de remodelações ósseas, surgindo sinais iniciais de doença articular degenerativa.
Osteófitos discretos podem ser observados, o colo femoral começa a se espessar e a articulação perde parte de sua mobilidade normal. Clinicamente, a dor tende a ser mais frequente e previsível.
O cão pode apresentar claudicação após exercícios, dificuldade para subir escadas, sentar de forma assimétrica e redução progressiva da massa muscular dos membros pélvicos.
Diferentemente da fase leve, aqui a dor já não está apenas associada ao esforço, mas também ao processo inflamatório crônico da articulação.
Na displasia coxofemoral grave, as alterações anatômicas são profundas e irreversíveis. A cabeça do fêmur encontra-se significativamente deslocada em relação ao acetábulo, que é muito raso ou deformado, comprometendo severamente a função articular.
A artrose é intensa, com presença de osteófitos exuberantes, achatamento ou deformação da cabeça femoral e espessamento acentuado do colo do fêmur. A articulação perde sua capacidade de absorver impactos e de realizar movimentos suaves, resultando em dor crônica importante.
Nessa fase, o cão costuma apresentar claudicação persistente, dificuldade marcada para se levantar, caminhar ou correr, além de limitação funcional evidente.
A musculatura dos membros posteriores frequentemente encontra-se bastante atrofiada, e o animal pode desenvolver alterações posturais e sobrecarga em outras articulações, como coluna e membros torácicos, na tentativa de compensar a dor no quadril.
Um cão com displasia leve pode permanecer estável por anos com manejo adequado, enquanto outro pode evoluir rapidamente para quadros mais avançados.
Da mesma forma, a gravidade radiográfica nem sempre corresponde exatamente à intensidade da dor percebida pelo tutor, pois fatores como massa muscular, peso corporal, nível de atividade e limiar individual de dor influenciam significativamente a manifestação clínica.
Por isso, a avaliação da displasia coxofemoral deve sempre considerar a combinação entre exame clínico, histórico do paciente e exames de imagem, permitindo definir a melhor estratégia de tratamento e acompanhamento ao longo da vida do animal.
Referências bibliográficas
Johnston, S. A. (1997). Hip dysplasia in dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association, 210(10), 1472–1479.
Fossum, T. W. (2019). Small Animal Surgery. 5th ed. Elsevier.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.