Copa do mundo 2026: os fogos podem fazer o seu cachorro mancar?
- Felipe Garofallo

- há 6 dias
- 4 min de leitura
Atualizado: há 4 dias
Durante a Copa do Mundo 2026, milhões de brasileiros irão se reunir para assistir aos jogos, comemorar gols e participar de encontros com amigos e familiares.

Em muitos lugares, infelizmente, os fogos de artifício ainda fazem parte dessas comemorações, principalmente após vitórias importantes ou momentos de grande emoção.
Embora a maior preocupação dos tutores normalmente esteja relacionada ao medo, ansiedade ou estresse dos cães, existe um problema menos conhecido, mas bastante relevante: os fogos podem, sim, contribuir para que um cachorro se machuque e até comece a mancar.
Pode parecer exagero à primeira vista, mas veterinários frequentemente observam cães que apresentam dor, claudicação (mancar) ou até lesões ortopédicas após episódios de susto intenso.
Em cidades grandes como São Paulo, onde o barulho dos fogos durante grandes eventos esportivos costuma ser mais intenso, muitos cães entram em estado de pânico, tentam fugir, escorregam no piso, saltam de móveis ou acabam sofrendo pequenos acidentes domésticos que passam despercebidos no momento, mas geram consequências ortopédicas nas horas ou dias seguintes.
Quando um cachorro escuta um barulho intenso e inesperado, como rojões e fogos de artifício, o organismo reage de maneira semelhante ao que acontece em uma situação de ameaça real.
O animal pode correr de forma descoordenada, tentar escapar, pular portões, escadas, sofás ou camas, derrapar em pisos lisos e até bater contra objetos da casa. Em alguns casos, o tutor percebe apenas que o pet estava muito assustado.
No entanto, no dia seguinte, surge um novo problema: o cachorro começa a mancar, evita apoiar a pata ou demonstra dificuldade para levantar.
Dependendo da intensidade do movimento e da predisposição individual do animal, diferentes problemas ortopédicos podem acontecer.
Um dos quadros mais preocupantes é a ruptura do ligamento cruzado cranial, especialmente em cães de médio e grande porte. Muitas vezes, o tutor relata que o cachorro parecia normal, mas após um momento de agitação intensa passou a mancar repentinamente de uma das patas traseiras.
Embora seja comum associar essa lesão apenas a exercícios ou brincadeiras intensas, um salto errado ou uma arrancada brusca motivada pelo medo também podem desencadear o problema.
Cães de pequeno porte, principalmente aqueles predispostos à luxação de patela, também podem apresentar piora súbita após episódios de estresse e movimentos abruptos.
O tutor pode notar que o cachorro começa a “puxar” uma das pernas, correr em três patas ou apresentar episódios intermitentes de claudicação após a noite de fogos.
Em muitos casos, o animal até melhora momentaneamente, o que leva algumas pessoas a acreditar que não houve nada sério, quando na verdade uma avaliação ortopédica pode ser importante.
Outro problema que merece atenção durante a Copa do Mundo 2026 são as doenças da coluna, especialmente em raças predispostas à hérnia de disco, como Dachshund, Shih-tzu, Bulldog Francês, Pug e Lhasa Apso. Um episódio de susto intenso pode levar o cão a saltar de locais altos ou fazer movimentos bruscos de torção.
Em cães que já possuem degeneração discal, isso pode agravar um quadro silencioso e desencadear dor intensa, dificuldade para andar e até alterações neurológicas mais graves.
Alguns tutores descrevem que o pet estava bem antes dos fogos, mas amanheceu “travado”, chorando ao pegar no colo ou apresentando dificuldade para caminhar.
Fraturas e traumas também podem acontecer, principalmente em cães idosos, animais com artrose ou pets que vivem em apartamentos e acabam escorregando em pisos lisos ao tentar fugir do barulho. Em momentos de medo, muitos cães perdem completamente a coordenação e agem de forma impulsiva, aumentando o risco de acidentes dentro de casa.
Às vezes, o impacto parece pequeno e o tutor acredita que foi apenas um susto, mas uma pequena fissura, contusão muscular ou inflamação articular pode justificar o aparecimento da mancada posteriormente.
Uma situação muito comum observada por ortopedistas veterinários acontece quando o tutor percebe que o cachorro está mancando, leva para fazer um raio-X e recebe a informação de que o exame está “normal”. Isso pode gerar falsa sensação de segurança, principalmente durante períodos como a Copa, em que o tutor associa a alteração apenas ao estresse passageiro dos fogos.
No entanto, é importante entender que nem toda lesão ortopédica aparece imediatamente no exame radiográfico.
Lesões ligamentares, pequenas fissuras, inflamações musculares, alterações iniciais de disco intervertebral e dores articulares podem exigir exames complementares ou uma avaliação ortopédica detalhada.
Alguns sinais merecem atenção após noites com muitos fogos durante os jogos da Copa do Mundo 2026. Se o cachorro começou a mancar, está evitando apoiar uma pata, demonstra dor ao se movimentar, tem dificuldade para subir escadas, não quer brincar, chora ao ser manipulado ou apresenta comportamento diferente do habitual, uma avaliação veterinária é recomendada.
Quanto antes um problema ortopédico é identificado, maiores costumam ser as chances de recuperação e menores os riscos de agravamento.
Prevenir ainda é a melhor estratégia. Durante jogos importantes da Copa, especialmente em dias de maior movimentação e comemoração, vale manter o cão em um ambiente mais seguro, evitar acesso a escadas ou locais altos, fechar janelas e portões e criar um espaço confortável para que ele se sinta protegido.
Em cães muito sensíveis a ruídos, conversar previamente com o veterinário sobre estratégias de manejo pode ser uma boa alternativa. Além do sofrimento emocional causado pelos fogos, reduzir o pânico do animal também ajuda a diminuir o risco de acidentes físicos.
Embora muita gente associe os fogos de artifício apenas ao medo e à ansiedade, a realidade é que eles também podem contribuir para quedas, movimentos bruscos e lesões ortopédicas que fazem o cachorro começar a mancar.
Durante a Copa do Mundo 2026, se o seu cão ficou assustado com os fogos e apresentou qualquer alteração na forma de andar, não ignore os sinais. O susto pode ter passado, mas a lesão nem sempre desaparece sozinha.
Referências bibliográficas
Fossum TW. Small Animal Surgery. 5th ed. St. Louis: Elsevier; 2018.
Johnston SA, Tobias KM. Veterinary Surgery: Small Animal. 2nd ed. St. Louis: Elsevier; 2017.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.