Como é o pós-operatório de cirurgias para displasia coxofemoral
- Felipe Garofallo
- 12 de fev.
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O pós-operatório da cirurgia de displasia coxofemoral em cães é uma etapa determinante para o sucesso do tratamento, muitas vezes tão importante quanto o próprio ato cirúrgico.

A displasia coxofemoral é uma enfermidade ortopédica caracterizada por incongruência articular entre a cabeça do fêmur e o acetábulo, resultando em instabilidade, inflamação crônica, dor e progressiva degeneração articular.
Diversas técnicas cirúrgicas podem ser empregadas no tratamento, como por exemplo a osteotomia pélvica dupla ou tripla, a colocefalectomia e a prótese total de quadril, e cada uma delas apresenta particularidades no manejo pós-operatório.
No entanto, independentemente da técnica escolhida, existem princípios gerais que devem ser rigorosamente seguidos para garantir adequada recuperação funcional e controle da dor.
Nas primeiras 24 a 72 horas após a cirurgia, o foco principal é o controle da dor e da inflamação. A analgesia multimodal é amplamente recomendada, combinando anti-inflamatórios não esteroidais, opioides e, quando indicado, fármacos adjuvantes como gabapentina.
O controle efetivo da dor não apenas melhora o conforto do paciente, mas também favorece o apoio precoce do membro operado, reduz o risco de complicações secundárias e contribui para uma recuperação mais rápida.
É importante orientar o tutor de forma clara sobre a administração correta das medicações, reforçando horários, doses e possíveis efeitos adversos.
O repouso controlado é um dos pilares do pós-operatório. Nos primeiros 30 dias, o paciente deve permanecer em ambiente restrito, evitando saltos, corridas, escadas e brincadeiras bruscas.
Mesmo cães que aparentam estar bem e apresentam apoio precoce do membro devem ter suas atividades limitadas, pois a consolidação óssea e a cicatrização dos tecidos moles ainda estão em curso.
A restrição não significa imobilidade absoluta, mas sim movimentação controlada e supervisionada, geralmente com passeios curtos e guiados por guia, exclusivamente para necessidades fisiológicas.
A fisioterapia desempenha papel fundamental na recuperação funcional, especialmente em procedimentos como a prótese total de quadril ou nas osteotomias pélvicas. Exercícios passivos de amplitude de movimento podem ser iniciados precocemente, conforme orientação do cirurgião, com o objetivo de manter mobilidade articular e prevenir aderências.
À medida que a cicatrização evolui, exercícios ativos e progressivos são incorporados para fortalecimento muscular, melhora da propriocepção e restauração da biomecânica normal do quadril. Recursos como hidroterapia, laserterapia e eletroestimulação podem ser utilizados de acordo com a disponibilidade e a indicação clínica.
O acompanhamento radiográfico é essencial para avaliar a evolução da consolidação óssea, o posicionamento de implantes e a integridade da articulação. O momento ideal para a realização dos exames de controle varia conforme a técnica empregada, mas geralmente ocorre entre quatro e oito semanas após o procedimento.
Alterações como soltura de implantes, falhas de fixação ou sinais de infecção devem ser identificadas precocemente para que intervenções possam ser realizadas antes que o quadro se agrave.
A observação diária por parte do tutor é outro componente crítico. Edema acentuado, secreção na ferida cirúrgica, dor intensa persistente, claudicação progressiva ou apatia são sinais que devem motivar contato imediato com o médico-veterinário.
A infecção pós-operatória, embora incomum quando técnicas assépticas adequadas são empregadas, é uma das complicações mais relevantes e requer diagnóstico e tratamento rápidos.
Em casos de prótese total de quadril, luxações também podem ocorrer nas primeiras semanas, especialmente se houver excesso de movimentação ou trauma.
O controle do peso corporal deve ser enfatizado durante todo o processo de recuperação. A obesidade aumenta significativamente a carga sobre a articulação operada e pode comprometer o resultado a longo prazo.
Ajustes na dieta e, se necessário, uso de rações terapêuticas específicas podem auxiliar na manutenção de escore corporal adequado. Além disso, a suplementação com condroprotetores pode ser considerada como parte do manejo global da saúde articular, embora não substitua a correção mecânica obtida pela cirurgia.
O prognóstico após a cirurgia de displasia coxofemoral é, na maioria dos casos, favorável quando há indicação correta da técnica, execução cirúrgica adequada e adesão rigorosa ao protocolo pós-operatório.
Cães submetidos à prótese total de quadril, por exemplo, frequentemente retornam a níveis elevados de atividade e apresentam excelente qualidade de vida. Já pacientes submetidos à colocefalectomia tendem a desenvolver uma pseudoartrose funcional, cujo sucesso depende significativamente da fisioterapia e do fortalecimento muscular.
É fundamental compreender que o pós-operatório não se resume a um período de espera pela cicatrização. Trata-se de uma fase ativa, que exige disciplina, acompanhamento próximo e alinhamento entre equipe veterinária e tutor.
A orientação detalhada e personalizada é determinante para reduzir complicações e otimizar os resultados. Quando bem conduzido, o processo permite que o paciente recupere mobilidade, reduza a dor crônica e retome suas atividades com conforto e segurança, consolidando o objetivo principal da intervenção cirúrgica: restaurar qualidade de vida.
Referências bibliográficas
Fossum, T. W. Small Animal Surgery. 5th ed. St. Louis: Elsevier, 2019.
Piermattei, D. L.; Flo, G. L.; DeCamp, C. E. Brinker, Piermattei and Flo’s Handbook of Small Animal Orthopedics and Fracture Repair. 5th ed. St. Louis: Elsevier, 2016.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.