Como saber se o seu cachorro está com dor na coluna?
- Felipe Garofallo

- 20 de jun.
- 4 min de leitura
A dor na coluna em cães é uma condição relativamente comum e pode afetar animais de qualquer idade, porte ou raça. Muitas vezes, os sinais são sutis e acabam sendo confundidos com envelhecimento, preguiça ou até mesmo alterações comportamentais temporárias.

No entanto, identificar precocemente os sintomas de dor vertebral pode fazer toda a diferença no prognóstico do paciente, especialmente em doenças como hérnia de disco, espondilose, instabilidade vertebral, discospondilite, artrose da coluna e outras enfermidades neurológicas e ortopédicas.
Uma das maiores dificuldades para os tutores é que os cães não conseguem expressar verbalmente o desconforto que sentem. Por isso, eles demonstram a dor através de mudanças no comportamento, na postura e na movimentação.
Um cachorro com dor na coluna frequentemente apresenta relutância para realizar atividades que antes eram normais, como subir escadas, pular no sofá, entrar no carro ou brincar. Muitas vezes, o tutor percebe que o animal passou a evitar movimentos específicos ou parece mais cuidadoso ao caminhar.
Outro sinal bastante comum é a diminuição da atividade física. O cão pode passar mais tempo deitado, demonstrar menos interesse por passeios ou brincadeiras e aparentar cansaço excessivo.
Em alguns casos, a dor faz com que o animal adote posições incomuns para tentar aliviar o desconforto. É comum observar o dorso arqueado, a cabeça abaixada ou o pescoço rígido, especialmente quando a região cervical está comprometida.
A dificuldade para se levantar também merece atenção. Muitos cães com dor vertebral levam mais tempo para sair da posição deitada ou sentada, demonstrando rigidez principalmente após períodos de repouso.
Alguns chegam a vocalizar durante esse movimento, emitindo gemidos ou choramingos discretos. Em situações mais graves, o animal pode até recusar-se a levantar.
Alterações na marcha são outro importante indicativo de dor na coluna. O cachorro pode caminhar de forma mais lenta, apresentar passos curtos, tropeçar com frequência ou demonstrar falta de coordenação.
Dependendo da localização e da gravidade da lesão, pode ocorrer claudicação, fraqueza dos membros ou até mesmo arrastar as patas. Em casos relacionados à compressão da medula espinhal, os sinais neurológicos podem se tornar progressivamente mais evidentes.
A sensibilidade ao toque é um dos sintomas mais frequentemente observados durante o exame clínico veterinário.
Muitos cães reagem quando a região dolorida é manipulada, podendo enrijecer a musculatura, virar a cabeça rapidamente para a área examinada, tentar afastar-se ou até mesmo vocalizar. Entretanto, alguns animais apresentam comportamento oposto e tornam-se mais quietos e retraídos, dificultando a percepção da dor pelo tutor.
Mudanças comportamentais também podem indicar sofrimento. Um cachorro normalmente dócil pode tornar-se irritado ou agressivo quando sente dor.
Da mesma forma, animais sociáveis podem passar a buscar isolamento. A redução do apetite, alterações no padrão de sono e menor interação com a família são sinais que não devem ser ignorados.
Quando a dor está localizada na região cervical, os sintomas podem ser ainda mais específicos. O cão pode manter o pescoço rígido, evitar virar a cabeça para os lados ou demonstrar dificuldade para abaixar-se para comer e beber água.
Alguns pacientes preferem movimentar o corpo inteiro em vez de girar apenas o pescoço. Em quadros mais intensos, pode haver tremores musculares devido à dor.
Já nas afecções da coluna toracolombar, que incluem boa parte das hérnias de disco em cães, é comum observar dor ao caminhar, postura arqueada, dificuldade para saltar e episódios de vocalização espontânea. Muitos tutores relatam que o animal parece "travado" ou "duro", principalmente após atividades físicas ou ao acordar.
As raças condrodistróficas, como o Dachshund, popularmente conhecido como salsicha, apresentam maior predisposição ao desenvolvimento de hérnias de disco. Entretanto, cães de outras raças, incluindo Shih Tzu, Beagle, Lhasa Apso, Poodle e até mesmo cães de grande porte, também podem desenvolver doenças vertebrais dolorosas.
É importante destacar que nem toda dor na coluna está associada a hérnias de disco. Processos degenerativos, inflamatórios, infecciosos, traumáticos e até tumorais podem provocar sintomas semelhantes. Por esse motivo, a avaliação veterinária é indispensável para determinar a causa exata do problema.
O diagnóstico geralmente envolve exame físico e neurológico detalhado, podendo ser complementado por exames de imagem como radiografias, tomografia computadorizada e ressonância magnética.
Quanto mais cedo a dor vertebral for identificada, maiores são as chances de sucesso no tratamento.
Em muitos casos, intervenções precoces permitem controlar a dor, reduzir a progressão da doença e preservar a qualidade de vida do paciente. Por outro lado, ignorar os sinais pode levar à piora do quadro, resultando em déficits neurológicos permanentes e até perda da capacidade de locomoção.
Portanto, se o seu cachorro apresenta dificuldade para se movimentar, alterações na postura, redução da atividade física, sensibilidade ao toque ou qualquer mudança comportamental sem explicação aparente, é fundamental procurar um médico-veterinário com experiência em ortopedia e neurologia veterinária.
A dor na coluna raramente melhora sozinha e o diagnóstico precoce continua sendo o principal aliado para garantir conforto, mobilidade e bem-estar ao animal.
Referências bibliográficas
DEWEY, Curtis W.; DA COSTA, Ronaldo C. Practical Guide to Canine and Feline Neurology. 4. ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2024.
FOSSUM, Theresa Welch. Small Animal Surgery. 6. ed. St. Louis: Elsevier, 2025.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.