Como saber se meu cão rompeu o ligamento cruzado?
Atualizado: há 4 dias
A ruptura do ligamento cruzado cranial é uma das causas mais comuns de claudicação, ou “mancar”, dos membros traseiros dos cães.

Apesar de muitas pessoas associarem a ruptura a um acidente, queda ou movimento brusco, na maioria dos cães o problema é resultado de um processo degenerativo progressivo do ligamento. Isso significa que o ligamento pode enfraquecer ao longo do tempo até sofrer uma ruptura parcial ou completa.
O ligamento cruzado cranial está localizado dentro do joelho e possui uma função fundamental na estabilidade dessa articulação. Entre suas funções, ele ajuda a impedir que a tíbia se desloque excessivamente para frente em relação ao fêmur. Quando ocorre sua ruptura, o joelho perde parte dessa estabilidade e passa a apresentar um movimento anormal durante o apoio do membro. Essa instabilidade provoca dor, inflamação e, progressivamente, alterações degenerativas na articulação.
Um dos sinais mais característicos da ruptura do ligamento cruzado é o cão começar a mancar de uma das patas traseiras. Em alguns casos, principalmente quando ocorre uma ruptura completa e aguda, a claudicação pode surgir repentinamente. O cão estava aparentemente normal e, depois de correr, brincar, pular ou simplesmente durante uma atividade cotidiana, passa a evitar apoiar uma das patas traseiras.
Entretanto, nem sempre a apresentação é tão evidente. Alguns cães apresentam uma ruptura parcial do ligamento. Nesses pacientes, a claudicação pode ser discreta e intermitente. O cachorro manca depois de brincar ou caminhar por períodos maiores, melhora após alguns dias de repouso e depois volta a apresentar o problema. Essa característica pode fazer com que o tutor tenha a impressão de que o animal sofreu apenas uma pequena lesão muscular ou uma “torção” que está melhorando.
Esse padrão de melhora e piora é particularmente importante. O fato de o cachorro parar de mancar por alguns dias não significa necessariamente que o ligamento esteja recuperado. Diferentemente de algumas lesões musculares leves, a doença do ligamento cruzado geralmente envolve alterações degenerativas do próprio ligamento. Rupturas parciais podem progredir e, com o passar do tempo, transformar-se em rupturas completas.
Outro sinal que pode chamar a atenção é a dificuldade para se levantar. Alguns cães demoram mais para levantar depois de permanecerem deitados durante algum tempo. Também podem apresentar rigidez nos primeiros passos e, posteriormente, caminhar um pouco melhor. Outros passam a evitar atividades que anteriormente realizavam normalmente, como subir escadas, correr, brincar ou pular no sofá e no carro.
A maneira como o cachorro se senta também pode fornecer uma pista. Alguns cães com desconforto no joelho evitam flexionar completamente a articulação afetada e sentam com a pata traseira posicionada mais lateralmente ou esticada para o lado. Esse comportamento é conhecido como alteração no “sit test” e pode estar presente em pacientes com doença do ligamento cruzado, embora isoladamente não seja suficiente para estabelecer o diagnóstico.
Nos casos mais crônicos, também pode ocorrer perda de musculatura na coxa da pata afetada. Como o cachorro passa semanas ou meses utilizando menos aquele membro, ocorre progressivamente atrofia muscular. Quando observamos o animal por trás, algumas vezes é possível perceber que uma coxa está visivelmente menor do que a outra.
O joelho também pode parecer aumentado de volume. A instabilidade provoca inflamação dentro da articulação e, posteriormente, o organismo desenvolve alterações fibróticas ao redor do joelho em uma tentativa de aumentar sua estabilidade. Por isso, cães com ruptura crônica do ligamento cruzado podem apresentar espessamento perceptível principalmente na região medial do joelho.
Outro sinal que merece atenção é o aparecimento de um estalo ou “clique” durante a caminhada.
O ligamento cruzado não é a única estrutura que pode ser lesionada. Dentro do joelho existem os meniscos, estruturas importantes para distribuição de carga e absorção de impacto. Quando o joelho permanece instável, especialmente após uma ruptura do ligamento cruzado, o menisco medial pode sofrer uma lesão. Em alguns pacientes, essa lesão está associada a um clique perceptível durante o movimento.
Alguns cães também apresentam uma piora repentina depois de um período de relativa melhora. Por exemplo, o cachorro rompe o ligamento, manca bastante durante alguns dias, melhora parcialmente durante algumas semanas e, de repente, volta a apresentar claudicação intensa. Uma das possibilidades nesses casos é justamente uma lesão secundária do menisco.
É importante entender também que o cachorro não precisa parar completamente de apoiar a pata para ter rompido o ligamento cruzado. Esse é um erro relativamente comum. Muitos cães com ruptura parcial e até mesmo alguns pacientes com ruptura completa continuam utilizando o membro afetado. A intensidade da claudicação varia de acordo com o grau da lesão, tempo de evolução, peso, conformação, nível de atividade, presença de osteoartrose e eventual lesão meniscal.
Da mesma forma, a ausência de choro ou vocalização não significa ausência de dor. Cães frequentemente demonstram dor ortopédica através de alterações comportamentais mais discretas, como redução da atividade, dificuldade para levantar, resistência para caminhar, diminuição da vontade de brincar ou simplesmente através da claudicação.
Outro ponto importante é que a ruptura do ligamento cruzado pode acontecer em cães de praticamente qualquer porte. Embora seja muito conhecida em cães grandes, como Labrador, Rottweiler e outros animais de maior peso, cães pequenos também podem apresentar a doença. Portanto, o tamanho do animal não exclui a possibilidade de ruptura.
A obesidade também merece atenção. O excesso de peso aumenta a carga sobre as articulações e está associado ao desenvolvimento da doença do ligamento cruzado. Além do peso corporal, fatores como genética, conformação dos membros, idade e características individuais do joelho podem participar do desenvolvimento da doença.
Mas como podemos ter certeza de que o cachorro realmente rompeu o ligamento cruzado?
O diagnóstico deve ser realizado por um médico-veterinário por meio do histórico, avaliação da marcha, exame ortopédico e, quando indicado, exames de imagem. Durante o exame ortopédico, dois dos testes mais utilizados são o teste de gaveta cranial e o teste de compressão tibial.
No teste de gaveta, o veterinário avalia se existe um deslocamento anormal da tíbia para frente em relação ao fêmur. Quando esse movimento está presente de maneira característica, existe uma forte indicação de insuficiência do ligamento cruzado cranial. O teste de compressão tibial, por sua vez, busca identificar a mesma instabilidade através de outra manobra biomecânica.
Apesar disso, nem sempre esses testes são claramente positivos.
Em cães muito tensos ou com musculatura forte, a contração muscular pode dificultar a identificação da instabilidade. Além disso, nas rupturas parciais, a instabilidade pode ser muito mais discreta. Em determinadas situações, pode ser necessário realizar o exame com sedação para permitir um relaxamento muscular adequado e uma avaliação mais precisa do joelho.
As radiografias também fazem parte da investigação. É importante esclarecer que o ligamento cruzado propriamente dito normalmente não é visualizado em uma radiografia convencional.
O exame radiográfico é utilizado principalmente para identificar alterações secundárias associadas ao problema, como aumento de líquido dentro da articulação, osteoartrose e alterações relacionadas à instabilidade, além de permitir a avaliação da anatomia óssea e excluir outras causas de claudicação.
Quando existe indicação de tratamento cirúrgico, radiografias adequadamente posicionadas também são fundamentais para o planejamento de algumas técnicas, especialmente procedimentos como a TPLO, ou osteotomia de nivelamento do platô tibial.
Outro aspecto importante é que nem toda claudicação de uma pata traseira significa ruptura do ligamento cruzado. Luxação de patela, displasia coxofemoral, lesões musculares, alterações na coluna, fraturas, doenças articulares e até algumas doenças neurológicas podem produzir sinais semelhantes. Por isso, tentar estabelecer o diagnóstico apenas observando o cachorro em casa pode levar a erros.
Se o seu cão começou a mancar repentinamente, apresenta dificuldade para levantar, evita apoiar uma das patas traseiras, senta de maneira diferente, não quer mais subir escadas ou pular, apresenta uma coxa menor que a outra ou possui uma claudicação que melhora e depois retorna, uma avaliação ortopédica é recomendada.
Quanto mais tempo um joelho permanece instável, maior tende a ser a exposição da articulação a alterações biomecânicas anormais. A doença do ligamento cruzado está associada ao desenvolvimento e à progressão da osteoartrose e também pode estar acompanhada por lesões meniscais.
Portanto, perceber os primeiros sinais é importante, mas o diagnóstico definitivo não deve ser realizado em casa. A observação do tutor é extremamente valiosa para identificar que existe alguma alteração, porém é o exame ortopédico que permite determinar se o problema realmente está localizado no joelho, avaliar sua estabilidade e estabelecer quais exames complementares e tratamentos são indicados para aquele paciente.
Se você desconfia que seu cachorro possa ter rompido o ligamento cruzado, procure uma avaliação veterinária ortopédica.
Mesmo quando o animal ainda consegue apoiar a pata ou apresenta períodos de melhora, uma ruptura parcial ou completa pode estar presente. Identificar corretamente o problema é o primeiro passo para definir o tratamento mais adequado e devolver conforto, estabilidade e qualidade de vida ao paciente.
Referências bibliográficas
Arcamone G, et al. Cranial Cruciate Ligament Rupture in Dogs: Review on Biomechanics, Etiopathogenetic Factors and Rehabilitation. Veterinary Sciences. 2021;8(9):186. doi:10.3390/vetsci8090186.
Harasen G. Diagnosing rupture of the cranial cruciate ligament. Canadian Veterinary Journal. 2002;43(6):475–476.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.
