Como identificar os primeiros sinais de artrose em cães?
- Felipe Garofallo

- 29 de jun.
- 5 min de leitura
A artrose, também chamada de osteoartrite, é uma das doenças ortopédicas mais comuns em cães, especialmente à medida que envelhecem.

Apesar disso, muitos tutores acreditam que o primeiro sinal da doença é a claudicação evidente, quando o animal passa a mancar ou demonstra dificuldade clara para caminhar.
Na realidade, a artrose costuma se desenvolver de forma lenta e silenciosa, produzindo alterações sutis no comportamento e na movimentação muito antes de surgir uma mancada perceptível.
Identificar os primeiros sinais de artrose em cães pode fazer toda a diferença no prognóstico e na qualidade de vida do paciente.
Quanto mais cedo a doença for diagnosticada, maiores são as possibilidades de retardar sua progressão, controlar a dor e preservar a mobilidade por muitos anos. Infelizmente, muitos cães convivem com desconforto articular durante meses ou até anos antes que seus tutores percebam que existe um problema.
A artrose é caracterizada por um processo degenerativo que afeta as articulações, levando ao desgaste progressivo da cartilagem, inflamação local, remodelamento ósseo e perda gradual da função articular.
Embora seja mais comum em animais idosos, ela também pode acometer cães jovens, especialmente aqueles que possuem doenças ortopédicas predisponentes, como displasia coxofemoral, displasia de cotovelo, ruptura do ligamento cruzado cranial, luxação de patela ou sequelas de fraturas.
Um dos primeiros sinais de artrose costuma ser uma mudança comportamental discreta. O cachorro que antes corria para receber o tutor na porta pode passar a levantar de forma mais lenta.
O animal que costumava brincar por longos períodos pode perder interesse em atividades físicas intensas. Muitas vezes, essas alterações são interpretadas como consequência natural da idade, quando na verdade representam tentativas do organismo de evitar movimentos que causam desconforto.
Outro sinal extremamente comum é a dificuldade para levantar após períodos de repouso. Muitos tutores observam que o cachorro parece rígido ao sair da cama pela manhã ou depois de cochilos mais longos.
Após alguns minutos caminhando, essa rigidez parece melhorar. Esse fenômeno ocorre porque as articulações artrósicas frequentemente ficam mais desconfortáveis após permanecerem imóveis por muito tempo.
Conforme o animal se movimenta, ocorre uma melhora temporária da lubrificação articular, reduzindo parcialmente os sintomas.
Mudanças na disposição também merecem atenção. Um cachorro que passa a evitar escadas, reluta para entrar no carro ou deixa de subir no sofá pode estar demonstrando os primeiros sinais de dor articular.
Em muitos casos, o tutor interpreta essas alterações como preguiça ou envelhecimento, sem perceber que o animal está simplesmente tentando evitar movimentos dolorosos.
A redução da velocidade durante os passeios é outro indício frequentemente negligenciado. Alguns cães começam a caminhar mais devagar, demonstram menor resistência física ou procuram interromper as caminhadas mais cedo do que costumavam fazer.
Como essas mudanças ocorrem gradualmente, a família frequentemente se adapta ao novo ritmo sem perceber que existe uma doença em evolução.
Mudanças na postura corporal também podem surgir antes da claudicação. Alguns cães passam a sentar de forma diferente, inclinando o peso para um lado específico.
Outros podem deitar com mais frequência ou mudar constantemente de posição em busca de conforto. Existem pacientes que começam a distribuir o peso corporal de maneira assimétrica para aliviar a carga sobre determinadas articulações doloridas.
A perda de massa muscular é outro sinal precoce que merece atenção. Quando uma articulação se torna dolorosa, o cachorro naturalmente passa a utilizá-la menos. Como consequência, ocorre atrofia muscular gradual, especialmente nos membros posteriores.
Muitos tutores notam que uma das pernas parece mais fina que a outra ou que a musculatura da região dos quadris está diminuindo. Esse processo pode acontecer mesmo antes de surgir uma claudicação evidente.
Além das alterações físicas, mudanças emocionais também podem estar relacionadas à artrose. Alguns cães tornam-se mais irritados, menos tolerantes ao toque ou evitam interações que antes apreciavam. Isso acontece porque a dor crônica pode influenciar significativamente o comportamento.
Em alguns casos, o tutor percebe apenas que o animal está "mais quieto" ou "mais reservado", sem associar isso a um problema ortopédico.
Os cães são especialistas em mascarar dor. Na natureza, demonstrar fraqueza poderia representar uma ameaça à sobrevivência.
Mesmo os animais domésticos mantêm parte desse comportamento instintivo, razão pela qual muitos continuam caminhando, correndo e interagindo normalmente apesar de apresentarem desconforto significativo. Isso torna ainda mais importante a observação de sinais sutis.
Existem alguns grupos de cães que merecem atenção especial. Raças grandes e gigantes apresentam maior predisposição ao desenvolvimento de doenças articulares. Labrador Retriever, Golden Retriever, Pastor Alemão, Rottweiler, Bernese Mountain Dog e Cane Corso estão entre as raças frequentemente associadas a problemas articulares degenerativos.
Entretanto, cães de pequeno porte também podem desenvolver artrose, especialmente quando possuem histórico de luxação de patela ou outras alterações ortopédicas.
O excesso de peso representa um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento e agravamento da artrose.
Cada quilo adicional aumenta significativamente a carga sobre as articulações, acelerando o desgaste da cartilagem e intensificando processos inflamatórios. Por esse motivo, manter um peso corporal adequado é uma das medidas mais importantes tanto na prevenção quanto no tratamento da doença.
O diagnóstico precoce depende de uma combinação entre observação cuidadosa do tutor e avaliação veterinária especializada. Exames ortopédicos detalhados podem identificar limitações articulares antes mesmo que elas se tornem evidentes no dia a dia.
Radiografias frequentemente ajudam a detectar alterações compatíveis com osteoartrite, embora os sinais clínicos nem sempre apresentem relação direta com a gravidade das alterações radiográficas.
Atualmente, o tratamento da artrose vai muito além do uso de analgésicos. Protocolos modernos incluem controle de peso, fisioterapia, fortalecimento muscular, reabilitação veterinária, adequação da atividade física, suplementação articular e medicamentos específicos para controle da dor e inflamação.
Em alguns pacientes, terapias regenerativas também podem ser consideradas como parte da estratégia terapêutica.
A principal mensagem para os tutores é que a ausência de claudicação não significa ausência de doença. Muitos cães apresentam sinais de artrose durante meses antes que a mancada apareça.
Observar pequenas mudanças na mobilidade, disposição, comportamento e postura pode permitir um diagnóstico muito mais precoce, aumentando significativamente as chances de preservar a qualidade de vida e o conforto do animal por muitos anos.
Quando um cachorro começa a evitar escadas, demora para levantar, reduz o interesse por brincadeiras ou demonstra rigidez após repouso, vale a pena considerar a possibilidade de artrose, mesmo que ele ainda não esteja mancando.
Em ortopedia veterinária, os sinais mais importantes muitas vezes aparecem muito antes daquilo que os tutores costumam associar à doença.
Referências bibliográficas
Johnston, S. A.; Tobias, K. M. Veterinary Surgery: Small Animal. 2nd ed. St. Louis: Elsevier, 2017.
Millis, D. L.; Levine, D. Canine Rehabilitation and Physical Therapy. 2nd ed. St. Louis: Elsevier, 2014.
Sobre o autor

Felipe Garofallo é médico-veterinário (CRMV/SP 39.972) especializado em ortopedia e neurocirurgia de cães e gatos e proprietário da empresa Ortho for Pets: Ortopedia Veterinária e Especialidades.